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Leucemia mieloide crónica: o nome pode assustar, mas já é possível viver mais e melhor

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Getty Images

Há 15 anos, a esperança média de vida em doentes com leucemia mieloide crónica era entre três e quatro anos, mas hoje é possível viver com a doença tanto tempo como um adulto que não a tenha. O diagnóstico precoce e a toma correta da medicação são pontos essenciais para os resultados de sucesso do tratamento desta doença. E, em muitos casos, já não é preciso quimioterapia

No Dia Mundial da Luta Contra o Cancro, há notícias consoladoras: hoje, menos de 3% dos pacientes diagnosticados com leucemia mieloide crónica morrem devido à doença. Contudo, a falta de informação sobre os possíveis tratamentos provoca, muitas vezes, uma ideia errada sobre as formas mais eficazes de curar este tipo de leucemia.

A quimioterapia, que já foi um dos principais métodos utilizados para a tratar, pode, agora, ser substituída apenas por medicação, que vai permitir ao doente viver com mais qualidade. “O tratamento desta doença foi revolucionado com a introdução de medicamentos chamados inibidores da tirosina cinase, que bloqueiam o estímulo que leva à proliferação celular descontrolada”, explica à VISÃO Manuel Abecasis, Director do Departamento de Hematologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa.

A leucemia mieloide crónica resulta de uma alteração genética que provoca o aparecimento de um gene estranho, conhecido por BCR-ABL. Este gene ativa um mecanismo de proliferação descontrolada das células da medula óssea, que escapam aos mecanismos habituais de controlo da proliferação celular, esclarece o médico.

Existem vários medicamentos de 1a, 2a e 3a geração que se distinguem pela sua eficácia e pelos efeitos secundários associados. De acordo com Manuel Abecasis, a maioria dos doentes tem uma resposta favorável a esta medicação, com normalização das análises e uma redução progressiva do gene alterado.

Depois de alguns anos de tratamento, é possível, nos doentes em que se observa uma negatividade persistente do gene, suspender a medicação e, em cerca de 40% dos casos em que isso acontece, o gene não volta a ser detetado. Por outro lado, esclarece o médico, também há doentes que não respondem de forma adequada à medicação e, nestes casos, “a transplantação de medula óssea é a alternativa mais válida de tratamento”.

Diagnóstico fácil e essencial

Em Portugal, surgem cerca de 150 a 200 novos casos de leucemia mieloide crónica por ano, representando 15% das leucemias em adultos e 5% em crianças. Ao contrário do que se observava há cerca de 15 anos, em que a doença era rara – já que os doentes viviam apenas de três a quatro anos -, a sua prevalência tem aumentado de ano para ano.

Apesar de ser uma alteração genética, a leucemia mieloide crónica não é hereditária, mas sim adquirida, e, por isso, não é transmissível de pais para filhos. Sendo tratável, é importante estar-se atento aos sinais que, apesar de não serem específicos da doença, podem ser seus indicadores, já que o diagnóstico precoce é um dos fatores que contribuem para o sucesso do tratamento.

Cansaço e sensação de fraqueza, perda de peso e de apetite, dores abdominais, suores excessivos, hematomas e infeções frequentes são alguns dos sintomas destes doentes, que os levam, muitas vezes, a fazer exames.

A maioria dos casos é detetada em análises de rotina e diagnosticar precocemente esta doença é essencial porque vai permitir iniciar o tratamento adequado com maior brevidade e viver com mais qualidade. “Nos doentes que respondem favoravelmente aos inibidores da tirosina cinase e que mantêm essa resposta, a esperança de vida é semelhante à da população em geral”, refere Manuel Abecasis.

Neste momento, o desafio é conseguir uma resposta positiva e adequada em todos os novos casos, para se alcançar a cura da doença totalmente através da medicação. “Estão em curso diversos estudos que pretendem atingir esses objetivos, mas é ainda prematuro afirmar que tal será possível”, explica o médico.

Contudo, os avanços nos tratamentos nesta doença são notórios e animadores: “Há 20 anos, era impensável que a doença pudesse ser curada sem recorrer à transplantação de medula óssea.”