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Hoje é o dia de uma vítima chamada gato preto

Atualidade

D.R.

Associado ao azar, é o felino mais abandonado, menos adotado e o mais rapidamente abatido. O gato preto vive no fio da navalha. Por isso, assinala-se o Black Cat Appreciation Day

"Quem me acompanha nas redes sociais sabe que perdi recentemente a minha companheira felina, a Bekas, uma gata preta de olhos âmbar que mesmo sendo pretinha nunca teve qualquer problema em obter likes ou reinar nas redes sociais", escreve hoje na sua página do Facebook Inês Real, ex-provedora dos animais na Câmara de Lisboa. A também jurista, especializada em Direito Animal, lembra aquela perda a propósito do Black Cat Appreciation Day, efeméride criada nos EUA e que se assinala esta sexta-feira, 17, com o objetivo de sensibilizar contra o preconceito que subsiste em torno destes gatos.

Inês Real sublinha que "ainda existe alguma superstição que associa o gato preto ao azar". Pior: estes animais são usados em "rituais sacrificiais, prática suscetível de configurar crime". E, no entanto, há exemplos históricos que nos dizem o contrário. Na Pérsia antiga, destaca a jurista, prevalecia "a crença de que o gato preto era um espírito amigo, criado para fazer companhia ao Homem no mundo". Por isso, quem o maltratasse era punido.

A ignorância e o preconceito, porém, continuam hoje a votar estes animais ao abandono. "Recentemente, diferentes associações no Reino Unido, onde se inclui a RSPCA [Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals, entidade com poderes equiparados aos das polícias], vieram também alertar que não só os gatos, mas igualmente os cães pretos, são os menos procurados para adoção, existindo ainda um novo fenómeno que é o da devolução destes animais porque não ficam bem em selfies ou não dão tantos likes no Instagram", revela Inês Real.

Comenta a jurista que não pode haver "argumento mais fútil e egoísta" do que "a frustração de não se ser popular numa rede social". E volta a recordar a gata preta Bekas. "Dedicava-nos uma amizade ímpar. Na sua habitual altivez felina, permitia-nos vislumbrar um pouco desse fascinante mundo dos gatos. Era a minha sombra, só quebrava o ritual de me acompanhar por toda a casa quando estava a aprontar alguma aos seus companheiros de quatro patas."

E o único azar que Inês Real teve com a Bekas foi perdê-la precocemente - a gata morreu com oito anos e meio, vítima de insuficiência renal. Escreve: "Em momento algum me arrependo do dia em que a minha vida se cruzou com uma bolinha de pêlo preta, já doente, mas que nos deu oito anos de imensa alegria. E como gostava que tivessem sido muitos mais."

Em dias como o da efeméride que esta sexta-feira se assinala, diz a jurista, "devemos mesmo repensar a forma como olhamos para os animais". Isto é: "Não são um acessório de moda, nem uma maneira de satisfazermos as nossas frustrações ou necessidades pessoais." E a propósito da adoção, a ex-provedora dos animais de Lisboa apela à "capacidade de saber ver com os olhos do coração".