Nas suas mil caras, Baptista "Zelig" da Silva é um entre iguais, seja numa conferência apinhada de académicos, no Grémio Literário, seja numa roda de debate televisivo. Aí o vemos, sem que nada o distinga de António Pires de Lima, Henrique Neto ou Nicolau Santos.

Nada, a não ser o facto de ter ideias novas e "geniais", longe das habituais mensagens estafadas dos economistas ou políticos de serviço. Nada, a não ser a sua originalidade e um discurso claro e fácil com que é confortável identificarmo-nos.

O problema é que, embora a vida de Artur Baptista "Zelig Chance Bean" da Silva pudesse dar um filme, a sua realidade ultrapassa largamente qualquer ficção. Baptista da Silva passou os últimos meses a vestir a pele de consultor do Banco Mundial, de ex-assessor do Presidente Jorge Sampaio, de professor universitário (na inexistente Milton Wisconsin University) e de coordenador de um ainda mais inexistente Observatório Económico e Social para os Países do Sul da Europa, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Tal como invocou o estatuto de ex-deputado à Constituinte ou secretário de Estado de um dos primeiros governos provisórios... E, depois de uma espiral de conferências na Academia do Bacalhau, no International Club of Portugal, na ONG portuense Espaço T (Congresso da Felicidade) e, cereja no topo do bolo, no Grémio Literário, de que era sócio, o nosso herói acabou a dar entrevistas aos órgãos de referência TSF, Expresso, Diário de Notícias e TVI (esta não chegou a ir para o ar), culminando a sua atuação no programa televisivo da SIC Notícias Expresso da Meia Noite, contracenando com algumas das mais proeminentes figuras do nosso jet set empresarial.

Nas celas dos estabelecimentos prisionais de Lisboa ou de Sintra, alguns dos seus antigos camaradas reclusos deverão ter ficado, então, estupefactos com a metamorfose do colega e antigo bibliotecário da prisão, onde atraía as atenções e algumas simpatias, quando se queixava de padecer de "doença terminal". As falsas identidades que lhe permitiram, não 15 minutos, mas vários meses de fama, no estrelato do espaço mediático, estavam todas na pose daquele senhor na televisão, bem falante, informado sobre os problemas do euro e guardião de uma solução para a crise nos países do Sul da Europa, que exigia aquilo que mais ou menos secretamente todos desejam, ou seja, a renegociação da dívida -mas que a legitimava com a sua autoridade.

Um dos seus três filhos (do primeiro casamento) declarou, esta semana, que "por muito que o pai já nos tenha mentido", ao vê-lo, na TV, também ficou na dúvida "se não seria quadro da ONU". E até um seu antigo colega no Liceu Camões, o advogado Ricardo Sá Fernandes, que nele tinha tropeçado numa acidental visita à cadeia, comentou para com os seus botões: "Ainda bem que este tipo conseguiu dar a volta por cima." A ânsia de políticos e sindicalistas por novas abordagens à política e à economia teve, em Portugal, o mesmo resultado que na ficção de Mr. Chance. Baptista da Silva foi recebido pelos sindicalistas Arménio Carlos e João Proença, avistou-se com o bloquista João Semedo e com o deputado europeu Rui Tavares, privou com Helena Roseta. Fez furor. Leia-se o comentário de José Medeiros Ferreira, professor universitário, antigo ministro do PS e um dos intelectuais mais sábios e experientes da nossa praça, em texto publicado no Correio da Manhã: "O critério da relevância das notícias, e, ainda mais, o da sua retumbância entre comentadores, é deveras intrigante. Não falo do anunciado fim do mundo, que é da ordem do desumano. Falo da quase nula importância atribuída entre nós à notícia da criação, no âmbito da ONU, de um Observatório Económico e Social para os Países do Sul da Europa, entre os quais Portugal. Esse Observatório irá produzir um relatório em 2013, mas sabe-se desde já alguma coisa da sua filosofia, através de uma entrevista desassombrada do seu coordenador, Baptista da Silva, concedida ao suplemento de economia do Expresso."

Palavras para quê? É um artista português.

LEIA A REPORTAGEM NA ÍNTEGRA NA VISÃO QUE ESTÁ NAS BANCAS