Mariela Michelena acaba de lançar mais um livro - agora, sobre como sarar as feridas de uma rutura afetiva. A capacidade de tornar simples o psicanalês e abordar temas íntimos, a partir de casos da vida real ficcionados, tornou-a famosa na América Latina e em Espanha, onde reside e trabalha há décadas. Uma de seis irmãos, Mariela nasceu numa família venezuelana, é casada pela terceira vez e não tem filhos. Aos 57 anos, vive para contar como se superam crises, sem saltar etapas. Fê-lo, por exemplo, quando escreveu sobre a sua luta contra um cancro da mama, conquistando a admiração de muitas leitoras portuguesas, com quem mantém correspondência. Aos seus olhos, os dias luminosos só podem ser plenamente vividos quando também é encarada a sua sombra. Sem atalhos.

Dedica o livro aos seus pais. Porquê?

Eles estão na casa dos 90 anos, separaram-se há 30 e, contudo, vivem juntos. O carinho que os une foi mais forte do que os motivos que conduziram ao fim do casamento. Eles não conseguiram esquecer-se. Discutem como antes, mas apoiam-se e estão orgulhosos deste livro.

A exposição íntima da sua vida familiar ou dos seus pacientes não lhe é melindrosa?

Na minha casa fala-se abertamente de tudo. Quando estou com os pacientes, esqueço-me de mim, mas, enquanto escritora, adoto um estilo mais pessoal. No processo criativo, as palavras têm de ter carne e sangue. Sem isso, o resultado é frio, teórico e distante.

Porquê escrever sobre a separação afetiva?

O meu novo livro não poderia existir sem eu ter passado pelo cancro da mama e escrito sobre esse processo de medo, angústia e luto. Isso trouxe-me o distanciamento necessário para abordar o tema agora. 

A incapacidade de alguém de se desligar de um mau relacionamento é iliteracia emocional?

Sim. Porque se ignoram necessidades próprias e se repetem, vezes sem conta, os mesmos erros, sem nunca se encontrar o que se procura. É, sobretudo, o caso das mulheres, para quem a vida afetiva é mais importante, embora haja alguns homens que também passam por isso.

Um amor desfeito é mais crítico e difícil de ultrapassar se acontecer mais tarde, na vida?

Cada idade tem as suas dificuldades. Para uma adolescente, com uma visão idealizada do amor, o primeiro fracasso parece-lhe também o último, sente que a vida acabou. Uma mulher trintona, que se separa sem filhos, pode sentir que a situação é mais dramático do que uma de 20, pois esta não tem o peso do relógio biológico na reconstrução do projeto familiar. Na menopausa, ter a surpresa de ser trocada por uma jovem torna o luto mais complicado.

Quem deixa tem o fardo aliviado?

Não é bem assim, porque carrega nos ombros a responsabilidade em relação ao passado e ao futuro. A vantagem é levar o luto meio feito, por ter vivido antes o sentimento de culpa, o sofrimento de mal-estar, numa relação defunta, a decisão de concretizar o funeral.

Mas há formas, menos óbvias, de colocar o ponto final...

O registo "esquece-me tu que eu não consigo" é frequente nos homens, por terem um vocabulário afetivo mais pobre e lhes custar pôr as cartas na mesa, lidar com as discussões. Isto significa trabalho a dobrar para elas, chamar as coisas pelos nomes. "As coisas não estão bem, assim não pode ser", dizem, servindo-lhes, a eles, o pretexto: "Já que é isso que queres, vou-me embora."

Que implicações resultam de uma pessoa desaparecer da vida da outra, sem aviso prévio?

Numa situação difícil, as pessoas dão a cara. Discutem e fazem acusações, na tentativa de entender o que está a passar-se. Evaporar-se sem aviso é bastante cruel e narcisista, porque se fica mais presente do que nunca na vida mental do outro - pela ausência -, forçando-o a colocar na história as palavras jamais ditas por ambos.

O que pode impedir um luto amoroso? 

A negação. "Não pode ser", "dou-te um tempo". Incapaz de aceitar um não como resposta, o abandonado insiste em manter tudo na mesma. A gota nunca transborda do copo. É uma espera inútil, que adia o luto.

Em tempos de crise económica, "romper o nó" pode ser um ato adiado?

Vivemos anos de bolha, do "quero isto, tenho isto". A crise força-nos a pôr a mão na consciência, a esperar. Mas há quem fique numa relação doentia, de desamor e, até, de abuso, por medo de separar-se e fazer o luto. Por outro lado, enfrentar a angústia da separação, o receio do vazio e a solidão é bem pior do que a espera.

Há separações boas?

São decisões necessárias. Uma separação pode salvar-nos a vida, abrem-se portas que antes estavam fechadas. Mas, por melhor que seja uma separação, não nos livra da dor, do sofrimento, da raiva, da tristeza e do vazio. Não há atalhos.

Quando é que um luto se torna patológico?

Entre um e dois anos, seja uma morte seja uma relação de longa duração que termina. Há mecanismos de defesa que se arrastam e se tornam doentios. Como as lutas intermináveis pela casa, filhos, etc., modos de expressar a raiva que, prolongados, impedem o fim.

Quanto tempo é preciso para mudar padrões doentios de relacionamento?

Não se faz em dois meses. A experiência de psicanalista diz-me que é preciso mais tempo. O inconsciente existe e há muitas coisas que não controlamos. Quem me procura já passou por outros tipos de terapias e não encontrou o que buscava. Refiro-me à compreensão do sofrimento humano, do que nos acontece.

Discorda das terapias rápidas?

Vendem mais a ideia de que todos podemos e conseguimos pensar positivo. É como pintar uma casa de branco e pôr almofadas novas, quando a canalização continua por arranjar. Há muita gente que não se sente identificada com este discurso e que só encontra consolo em algo mais profundo

O que diz a quem a procura, após tudo o que experimentou ter falhado?

É necessário passar pelo túnel para ver a luz. Se o medo for muito, há que pedir a mão a um terapeuta. Este meu livro pretende ser essa mão que acompanha a passagem pelo luto.

Misturar o tom académico e o "registo pop" de autoajuda já lhe trouxe dissabores?

É um erro comum os psicanalistas viverem fechados no seu mundo e falarem numa linguagem cifrada. A Psicanálise descreve a vida. Freud falava do quotidiano e escrevia livros de divulgação. Se fosse vivo, estaria no Facebook e teria um programa de TV.