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UMA IGREJA MANUELINA GANHA CONCURSO DE PETROLÍFERA ESPANHOLA

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A VITÓRIA DA IGREJA DA MADALENA DE OLIVENÇA: LIÇÕES A TIRAR (OS DRAMAS DE UMA ESCOLHA)



Chegou ao fim o concurso promovido pela petrolífera "Repsol" de Espanha. Contra todas as expetativas , a Igreja da Madalena de Olivença foi votada como "o melhor recanto de Espanha de 2012".Com quase 100 000 votos (99 847). Mais 20 000 que os recolhidos pela "Laguna de La Gitana", a outra finalista (78 707)!!!    Foi impressionante ver o esforço dos oliventinos, votando massivamente (dois votos por dia e por pessoa era o que o concurso previa) na sua Igreja maior, antiga sede de um Bispado português, o segundo maior templo manuelino que existe (o maior é o dos Jerónimos). Vê-los a apelar a amigos. Ver milhares de portugueses a secundá-los. Ver organizações portuguesas (como a revista "informática" Café Portugal) fazer apelos ao voto. Até o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, na televisão, ao Domingo!

E, todavia, o "caso" não acaba aqui. Há muitas questões que se levantam. Percorri Olivença, entrando na Madalena, com uma jornalista de um jornal português no dia 24 de Setembro (de 2012, naturalmente). Olhei aquelas sepulturas, muitas delas identificadas, outras anónimas. São portugueses, quase todos de Olivença, que ali repousam. Estremeci. Alguns delas deram a vida, em guerras, para que Olivença não caísse em mãos espanholas. É algo que mete respeito... mesmo a quem, como eu, não é religioso.Como se sentiriam eles perante esta situação?

Pensei no oliventino, refugiado em Lisboa, Ventura Ledesma Abrantes (1883-1956), o homem que conseguiu, contra vontade de Salazar, ser reconhecido como cidadão português. O homem que ajudou oliventinos em 1936-1939.O homem que fundou o Grupo dos Amigos de Olivença, que continuam, apesar da História demonstrar o contrário, a ser conotados com Salazar, e a ser alvo de desprezo e troças. Como se sentiria Ventura Ledesma Abrantes? Decerto que muito ofendido com o título de "melhor recanto de Espanha" para a portuguesíssima Igreja/Catedral de Santa Maria Madalena .

Olho para Olivença, um local que, ao contrário do que se diz, nunca foi ponto de encontro entre Portugal e Castela, depois Espanha. Olivença personifica, pelo contrário, os desencontros. Mais: o último grande desencontro que resta! Olho para a "limpeza" que se fez nos campos cultural, histórico, linguístico, toponímico, religioso, e outros, ao longo de 200 anos. Por vezes, com violência!

E, todavia, algo sobreviveu. A consciência, por vezes difusa, de um passado diferente de todos os vizinhos da Extremadura espanhola. Difusa, não! Confusa seria mais apropriado. Por isso, ao sair da Madalena, sinto-me algo insegura. Olivença desconhece a História que é sua na sua maior parte. Isso não é algo que um português possa aceitar de bom grado. Mas... vê-los, unidos, lutando pela sua Igreja/Catedral, horas e horas diante de computadores, votando ou convencendo outros a votar. ..

Como não ficar comovido? Como não sentir o apelo daquela gente? A "sua" quase ignorada Igreja, ainda que apenas num concurso promovido por uma petrolífera que nada tem de oficial, a deixar para trás monumentos de grande renome, ou recantos naturais belíssimos, que a Espanha possui, e não são poucos.

Sempre soube que o Direito, a Razão, estavam contra a ideia de escolher, de votar, de lutar para que tal jóia arquitetónica pudesse ser considerada "o melhor recanto de Espanha". Os Amigos de Olivença, herdeiros das lutas e das ideias de um grande oliventino, e defensores do respeito pelo Direito Internacional, tal como o Estado português (este, discretamente, mas, ainda assim, de forma oficial) não poderiam, em consciência, estar de acordo. Não se queira mal a alguns portugueses que disseram não a esta votação, e que a denunciaram como possível meio de pelo menos certos círculos espanhóis quererem acentuar uma pretensa espanholidade de Olivença... que, quem conhece a cidade, tem muita dificuldade em compreender. Houve até uns poucos que tentaram votar contra. Há, quer se goste quer não, coerência nesta atitude.

Contudo, a força da unidade deste povo não pode ser ignorada. Em torno do que de mais grandioso tem (a SUA Catedral PORTUGUESA). Creio que não ver isto é um erro.

Confesso que traí. Sou membro do Grupo dos Amigos de Olivença. Como já disse, vi-me num dilema entre a razão e o coração. Não compreenderia muito bem que a atitude do Grupo pudesse ser diferente. E não me sinto bem com isso, essa é a verdade. Sinceramente, não consegui resistir a estar com o "sentir" da grande maioria dos oliventinos. Mesmo sabendo que alguns poucos não viram com bons olhos o que nele se pretendia, e não se sintam contentes por verem a "sua" Madalena ganhar um título de monumento "espanhol. E, todavia, a maioria não teve dúvidas: tornar a sua terra, a muito querida "Terra das Oliveiras", conhecida um pouco por todo o mundo onde chega a "Repsol (e são muitos locais em vários países). Conseguir fazê-lo graças a um esforço coletivo muito seu, sem desprezar ajudas!!!

Mas... como me sinto feliz! Dir-se.ia que as "almas" da Madalena tiveram direito a uma vingançazinha muito especial, ainda que tivessem decerto preferido outra via.

Vejo neste resultado final incrível uma afirmação da vontade de uma população. Vejo uma resposta à cobardia de certos meios inteletuais portugueses que preferem fingir que Olivença não existe. Alguns, em livros sobre a Arte Manuelina, dão-se ao luxo de fingir que nada há desta arte em Olivença. Apesar de lá estar, repito, o segundo mais grandioso exemplo que existe desta arte!!

Trata-se, agora., de tirar conclusões: Um monumento português, numa cidade sobre cuja soberania Portugal pensa ter algo a dizer, tornou-se vencedora de um concurso espanhol. Como vão reagir as elites ao que se passou? Vão continuar a fingir que Olivença não existe? Que não tem arte digna desse nome? Vão continuar a ignorar, ou a fingir que ignoram, que desde 2008 há uma associação de autóctones (o "Além Guadiana") que, sem se meter nas polémicas de soberania, procura recuperar a cultura, a História e a Língua Portuguesas... e que já levou a Câmara local a recolocar os antigos nomes portugueses em 73 ruas de Olivença? Vai o Estado Português (finalmente!) dizer algo sobre o assunto?

Para mim, penso que será divertido ver entidades espanholas a promoverem como sua representante um monumento que nada tem de espanhol, e que, diga-se o que se disser, é uma prova evidente de que em Olivença há uma cultura diferente. Como vão explicar as inscrições todas portuguesas nas lápides da Igreja/Catedral?

Para quem quiser usar a inteligência, em Portugal, abre-se um grande campo para trazer Olivença para as primeiras páginas. Sem insultos, mas com firmeza.

E, para terminar, o que é de elementar justiça: dar os PARABÉNS AO POVO DE OLIVENÇA. Ouso dizer: Portugal (aquele que tem consciência e orgulhe de si próprio) está convosco. Como irmãos que são. Em todos os aspetos.

Estremoz, 27 de Setembro de 2012

Carlos Eduardo da Cruz Luna