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O ASPIRANTE A MERCEEIRO E O GOVERNO

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Diz-se que houve alguém que tendo o desejo de se fazer ao negócio comprou por uma tuta-e-meia um lugar de comércio misto por grosso e a retalho com todo o seu recheio e mercadoria incluídos, a troco unicamente da dívida existente...

Diz-se que houve alguém que tendo o desejo de se fazer ao negócio comprou por uma tuta-e-meia um lugar de comércio misto por grosso e a retalho com todo o seu recheio e mercadoria incluídos, a troco unicamente da dívida existente. Sem qualquer experiência nas andanças mas cheio de entusiasmo, o aspirante a merceeiro iludiu-se com o valor irrisório de tão interessante negócio que esqueceu - ou decidiu ignorar - o valor extravagante das dívidas da baiuca.

Quando se apercebeu do buraco financeiro, já era tarde e teve que aguentar com os credores que implacáveis ameaçaram penhorar-lhe o negócio acabadinho de adquirir, matando todos os seus sonhos de empresário novo-riquito o qual já se imaginava pavonear-se de carrinho descapotável ao fim da tarde.

Não se deixando abater com tão pouca coisa, pôs mãos à obra e depois de fazer o inventário e o balanço da desgraça em que se metera, começou uma reforma e renovação da lojeca como nunca ninguém faria nem viria a imaginar fazer-se. Primeiro despediu de mãos a abanar os três empregados que já não viam a cor ao dinheiro há meses e a seguir actualizou o preço três ou quatro vezes aos cabos de vassoura que já quase ninguém usa, aos tachos de alumínio que já ninguém compra, às tripas de porco de fazer enchidos com anos de pó pendurados à porta e a muitos outros artigos de nenhuma utilidade para os dias de hoje. Para reduzir a factura das compras mensais cortou nas encomendas dos produtos que mais se gastam e não tardou que as donas de casa voltassem para casa sem a massa, o açúcar, o leite, o detergente e todos os bens de primeira necessidade porque o aspirante a merceeiro não sabia que quanto menos comprasse menos vendia e quanto menos vendia menos dinheiro tinha para pagar as dívidas. Para complicar, teve a visita do braço direito do diabo ao serviço do governo - a autoridade que mete o bedelho em tudo que é compra e venda e fiscaliza todo o boteco, fechando a loja ao pobre do aspirante a merceeiro. Que triste fim para alguém tão cheio de esperanças!

A semelhança com o Governo de Portugal é muito próxima. Sem espírito de empresário nem visão comercial, os nossos governantes agem como aquele inexperiente comerciante. Cortam onde não deviam e onde seria importante investir e aumentam a torto e a direito as taxas e impostos sobre o trabalho e o comércio, que convinha de todo aliviar significativamente ou mesmo anular em alguns sectores para incentivar a economia e o desenvolvimento nacional. Alguém consegue imaginar se por via da crise e da queda nas vendas, os hipermercados acabassem com as promoções e os descontos e em contrapartida aumentassem os preços dos bens de primeira necessidade duas ou três vezes que os actuais, para equilibrarem as finanças? Claro que não! Pelo contrário, é em tempos de crise que os empresários mais investem em promoções, descontos e sorteios.

Ora deviam estes governantes teóricos e tecnocratas, algemados a programas políticos e subservientes aos que contribuíram para a sobredívida de Portugal, pedir conselhos a Américo Amorim, Belmiro de Azevedo, Ilídio Pinho, Soares dos Santos e até mesmo ao ex-banqueiro Jardim Gonçalves, a fim de saberem gerir a megalómana empresa mais que falida que é o Estado português. Antes que o lucro, a mais-valia e os resultados positivos apareçam, há que investir, reinvestir e dar incentivos à equipa produtiva e distributiva. Mas ao contrário temos um Estado que não arrisca nem investe um cêntimo na promoção da economia apesar dos bluffs e ainda se impõe como sócio do contribuinte sem entrar com quota nenhuma. Um Estado que exige mais de trinta por cento dos proveitos daqueles que se esfalfam a trabalhar, mas que não dá ao cidadão contrapartida alguma pelo seu contributo para o enriquecimento do país. Assim não dá para investir em Portugal, admirando-me de que ainda haja quem arrisque e inicie actividades e abra negócios, como todos os dias se dá notícia na comunicação social. Tiro o chapéu a esses portugueses corajosos, mas não deixo de pensar que é o Estado o principal responsável pelas fugas e evasões fiscais ao exigir mais do que lhe compete e é razoável de todos aqueles que labutam neste pobre país.