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O remédio das baratas

Eu vivia com a minha madrinha porque os meus pais recusavam sair de Trás-os-Montes, ela com a mãe viúva, ambos em duas assoalhadas, ambos a dormirmos na sala, com um cão em casa, um Nero, o outro César, o que aumentava ainda mais as semelhanças

Conhecemo-nos na paragem do autocarro, quando me perguntou se por acaso eu não era o Carlos. Respondi-lhe que não, quase sem olhar para ela porque sou tímido, a olhar para cima, na esperança de ver o transporte fazer a curva dado que estava atrasado para o emprego. Como não havia nada a fazer a curva deitei-lhe o rabinho do olho: gorducha, de óculos, tinha um ar simpático, um saco de plástico com uma camisola ou assim, da loja dos chineses, lá dentro, e as unhas pintadas de roxo, com o verniz do mindinho a estalar. Baixinha. Não tenho nada contra as mulheres baixinhas, pelo contrário, também não sou alto. Ninguém na minha família é alto. Tive um primo alto mas infelizmente faleceu em abril, dos rins. Talvez os baixinhos não sofram tanto dos rins.

Dois ou três dias depois voltei a encontrá-la na paragem, sem saco de plástico da loja dos chineses e com o mesmo ar simpático. Perguntei-lhe

(de quando em quando esqueço-me da timidez)

se ela não era o Carlos. Riu-se e começou tudo assim, depois de eu me certificar que ela não usava aliança. Trazia um colar quase de pérolas e continuava gorducha. Morávamos perto um do outro e trabalhávamos perto um do outro também, ambos em companhias de seguros, ambos rodeados de papéis, ambos mal pagos, eu vivia com a minha madrinha porque os meus pais recusavam sair de Trás-os-Montes, ela com a mãe viúva, ambos em duas assoalhadas, ambos a dormirmos na sala, com um cão em casa, um Nero, o outro César, o que aumentava ainda mais as semelhanças, os dois a passarmos fins de semana compridos, enclausurados, porque a minha madrinha e a mãe dela nunca saíam e se queixavam de solidão e abandono

- Nem te ponho a vista em cima

de modo que gastávamos os fins de semana com a vista em cima delas, atentos às horas dos comprimidos e aos chazinhos de macela que acalmam os nervos, prestáveis, solícitos, interessados nos reumatismos das velhotas, a esfregarmos pomadas em articulações sofredoras, que nos deixavam as mãos peganhentas e os músculos dos braços exaustos. Acho que foi a Corina

(chamava-se Corina)

a ter a ideia de passearmos o Nero e o César ao mesmo tempo, de capa e trela no inverno, só de trela no verão, à mesma hora, dando voltas ao jardinzinho público que separava

(ou unia)

os nossos prédios e fomo-nos conhecendo melhor enquanto os bichos farejavam todos os pneus e troncos do bairro, feios, baixinhos e gorduchos como nós, farejando-se interminavelmente um ao outro também, coisa que a Corina e eu não fazíamos não por falta de vontade, por acanhamento, não digo que a farejarmo-nos o rabo, é evidente, mas podíamos, com discrição, farejarmos, sei lá, os pescoços, por exemplo, as nucas, as orelhas, e tirar alguma alegria dessas fungadelas mútuas, dado que os animais pareciam encontrar prazer nessa forma de contacto nasal. O perfume da Corina agradava-me embora não lhe mencionasse isso, o meu ainda hoje não sei mas, a partir de certa altura, não me perguntem como, demos por nós a caminhar de mão dada, ela a sorrir-me, eu aflito, da mão dada passámos à mão no ombro e, da mão no ombro, a um primeiro beijo rápido, a coberto de um arbusto, ela de olhos fechados como as actrizes no cinema, eu de olhos abertos a pensar

- E agora?

e o

- E agora?

foi simples, lento, natural, apesar dos cães puxarem as trelas, cada um para o seu lado, afastando-nos, de modo que nos beijávamos com um dos pés no ar, desequilibrados, até as trelas nos separarem, atraídas por pneus diferentes, a maldizermos os bichos. Um domingo a Corina sugeriu-me

- Porque é que a gente não

e calou-se envergonhada, comigo a imaginar o remédio das baratas na sopa da minha madrinha e da mãe dela, deitando parte na tigela da comida dos cães, desalugar uma das casas e juntarmo-nos na outra, sem reumatismos nem pomadas, ela e eu na sala, diante da televisão, ou mesmo no quarto, unindo-nos, com cerimónia e respeito, debaixo dos lençóis, tanto mais que a gordura dela, hesito em falar em intimidades destas mas uma vez não são vezes, tanto mais que a gordura dela me, se assim me posso exprimir, excitava, comigo de mão no bolso

(que difícil contar isto)

a tentar que a Corina não me visse a exaltação. Quando, passados tempos, ela repetiu

- Porque é que a gente não?

atrevo-me a perguntar

- Estava a pensar no remédio das baratas?

a Corina olhou-me num soslaio comprido, talvez com a união cerimoniosa, debaixo dos lençóis na ideia, puxou o cão com fúria num beijinho que me pareceu mais comprido e molhado que os anteriores, na semana seguinte o Nero e o César não passeavam connosco, arrastavam-se a babarem-se, a minha madrinha ficou-se como um passarinho, a mãe da Corina apareceu defunta junto ao rodapé, de perninhas curvas e olhar fixo, a Corina para mim

- Qual das duas casas prefere?

experimentámos a minha, experimentámos a dela, preferimos a sua porque a cova funda no colchão, derivado à gordura, proporcionava-nos uma união mais fácil, deitávamo-nos na borda e escorregávamos ao mesmo tempo para a depressão central onde os nossos membros se misturavam de imediato com a velocidade da queda, isto depois de largarmos o César e o Nero num contentor das redondezas, sem lhes tirarmos as trelas na hipótese de existirem pneus e troncos no céu e quem goste de puxar coleiras nos jardins

(sei lá como são as coisas lá em cima)

e fomos felizes durante uma semana até me parecer que a sopa tinha um gosto esquisito e um cheiro aparentado ao remédio das baratas, até lhe parecer que havia um sabor novo nas batatas do jantar, a Corina olhou para mim, eu olhei para a Corina, verificámos, ao mesmo tempo, que o remédio, até então a meio frasco, tinha desaparecido todo de modo que, antes de nos atirarem para um contentor do lixo, nos deitámos cada qual do seu lado no rebordo da cama de onde deslizámos, ao mesmo tempo, para o centro e nunca tivemos tanto prazer como antes da primeira cólica.

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O Herói

Tinha estado em África, numa guerra que quase toda a gente esqueceu, e voltou de lá virado do avesso

Magrinho, penteadinho, sempre de gravata, com um andar lento, solene, quando lhe vinha a guerra à ideia mudava por completo: desatava a combater, pontapeando caixotes do lixo e insultando as pessoas, isto já com uma pinguita a estimular-lhe os entusiasmos bélicos, agredia paredes, passava rasteiras a prédios, se por acaso descobria um africano avançava de peito feito a disparar com a boca, ferindo as pessoas de cuspo, e toda a gente sabe, a começar pelas cobras, como o cuspo é mortal, até que, de repente, estacava, o corpo esvaziava-se-lhe como um balão furado, e sentava-se no passeio a chorar por si mesmo.

Comia, aqui e ali, o que lhe davam por esmola, ao fumar comia o cigarrito também, e disparava-me em cima uma carga letal de emboscadas, minas, canhões sem recuo, camaradas agonizantes e aldeias a arderem: Matei tudo o que pude afiançava ele, a bater a palma no peito Caiam-me os olhos em gotas no chão se não matei tudo o que pude na certeza, entre todas nobre, de salvar Portugal do comunismo ateu.

O mal foi a revolução explicava-me Olhe a porcaria em que este país se tornou porque O que não faltava aqui eram traidores de Moscovo e a polícia do Salazar a fingir que não via porque Sempre fomos brandos, percebe? enquanto ele e os camaradas dele davam o corpo ao manifesto em África, a morrerem que nem tordos Que nem tordos, amigo a dignificarem a Pátria (palavras dele) Ninguém me agradece ter dignificado a Pátria, entende? e continuar a dignificá-la assaltando a pontapé os sacos de plásticos de restos, que as pessoas deixavam à porta, com inimigos dos portugueses, muito agachadinhos, escondidos lá dentro.

Dormia na entrada dos prédios, umas velhotas piedosas ajudavam-no com trocos que o vinho O vinho, para os combatentes como eu, devia ser de graça anda pela hora da morte e, quer a gente queira quer não, sempre estimula as artérias e clareia o pensamento, se o deixassem, mas não deixavam, já não há alma nesta gente, tornava a partir lá para baixo É lá em baixo, na primeira fila, o meu lugar, não é aqui, amigo e lá em baixo, na selva, metia o mundo nos eixos e o mundo Não se está mesmo a ver? incluindo os americanos Os americanos de joelhos diante da gente, que remédio têm eles com receio das caravelas de antigamente e da sua valentia de agora.

A mulher abandonou-o ao voltar, farta de bravura e copos Umas jibóias é o que elas são, umas jibóias, amigo Abraçava-me, dado que os verdadeiros heróis são sensíveis Aperte-me estes ossos e, realmente, eram só ossos que eu apertava, empurrava-me com desconfiança Não é maricas por acaso, você? jurava-lhe que não, ele recuava um passo a fim de me avaliar melhor Há os que são e não parecem consentia Pronto, vá lá, aperte os ossos, seja o que Deus quiser seguido de Não me paga uma sopinha, por acaso? interrompia-se a meio da sopinha, levantando a cabeça Não os ouve, amigo? eu ouvia colheres contra dentes, ele mais ruídos suspeitos, todo de orelhas alerta O batuque dado que, antes dos tiros, os pretos se estimulavam com tambores em homenagem aos deuses obscuros mas, ao que parece, eficazes em matéria de matanças, explicou-me com simplicidade Se por acaso ganham depois comem a gente após o que regressava, tranquilo, à sopa, pedindo um pão a fim de o esfregar na tigela e aproveitar o que sobrava, o alumínio do prato até brilhava sem necessitar de lavagem, saíamos os dois e sentávamo-nos no passeio É melhor ficarmos aqui um bocadinho, pelo sim pelo não, a espiar ambos acolá na esquina, a tomarmos conta de Portugal até que me agarrava de súbito o ombro Camarada Numa cumplicidade que crescia, com ele a fitar-me, a meia pálpebra Se calhar pensa que eu sou maluco não é? e não pensava, limitava-me a espreitar a possibilidade de me ir embora, que ele interrompia para informar Sou um pobre numa voz sumida, triste Não passo de um pobre a exibir-me o desgaste das solas Um pobre a aperfeiçoar a definição Um pobre que não tem ninguém nem mulher nem filhos, ninguém a não ser a guerra, os cadáveres dos camaradas, as emboscadas, um Portugal grandioso afinal tão estreito, a sua vidinha de loucuras e esmolas Um pobre o fatito, a gravata, o lenço que tirou do bolso, a assoar-se, e nunca vi ninguém assoar-se durante tanto tempo.

Não acha? Perguntou-me ele.

António Lobo Antunes | | 1 comentário

Amadeu

Os óculos da mãe, enormes, pareciam engoli-lo. Faleceu de repente, um aneurisma, três anos antes, pelo menos a autópsia garantiu que um aneurisma e certamente quase não sofreu. Valha-nos isso: não era má pessoa, a mãe
Tomou o pequeno-almoço, uma chávena de café e umas bolachas, três ou quatro, as últimas da lata, molhou a ponta do indicador na língua a apanhar as migalhas do fundo, que comeu também e depois arrumou a lata na prateleira e colocou a chávena no lava-loiças, tudo isto sem pressa, nos gestos do costume. Limpou as gengivas com a língua até o gosto das migalhas lhe desaparecer da boca. Encheu a chávena de água para a lavar depois. Era uma chávena branca, com uma paisagem impressa: árvores, animais que pastavam, uma casa ao longe, e o contacto dos dedos com a loiça, tão lisa, era-lhe sempre agradável. A seguir foi para a casa de banho, lavou os dentes, fez a barba

(teve de mudar a lâmina, que já cortava mal)

abriu a torneira da água quente do duche, abriu um bocadinho a torneira da água fria, experimentou a temperatura com a palma, abriu mais um bocadinho a torneira da água fria, despiu o pijama e meteu-se no chuveiro depois de vedar bem a entrada com a cortina de plástico azul, que corria, em argolas transparentes, ao longo do varão, a fim de não molhar a toalha que servia de tapete. Lavou a cabeça com cuidado, de forma ao champô não lhe incomodar as pálpebras, sentindo o cabelo que começava a rarear. Ao princípio detestou estar a ficar careca

(até comprou umas ampolas que não serviram de nada)

depois foi-se habituando a pouco e pouco

- Sou careca

embora não lhe agradasse muito a pele da cabeça nua nas fotografias que, na sua opinião, o faziam parecer mais velho do que era. A risca do cabelo que sobrava, agora perto da orelha, já não cobria grande coisa mas as mulheres não se importavam, ou fingiam não se importar, com isso, o que, apesar de tudo, sempre lhe dava algum consolo. Fechou as torneiras ao mesmo tempo, afastou a cortina de plástico, apanhou a toalha da barra cromada em frente e sentou-se no bidé, a fumar um cigarro, enquanto o corpo ia secando sozinho. Detestava esfregar-se, lembrava-lhe a mãe, que o magoava com o seu excesso de energia

- A ver se consigo tirar-te como deve ser o sabão das orelhas

voltou ao espelho para se pentear, descobriu um pêlo enorme a sair-lhe do nariz, apanhou uma tesoura pequena da gaveta e, à terceira tentativa, lá conseguiu cortá-lo

( - Como é que eu não dei por isto antes?)

e fazê-lo seguir, lavatório abaixo, até às profundezas do inferno. Aproveitou para verificar, de esguelha, se pêlos nas orelhas, não deu por nenhum, guardou a tesoura, no género daquela com que lhe cortavam as unhas em criança

(a mãe, sentada no sofá

- Chega-te aqui à luz e está quieto)

e ele com medo que, por distração, lhe amputassem a ponta do mindinho.

(Os óculos da mãe, enormes, pareciam engoli-lo. Faleceu de repente, um aneurisma, três anos antes, pelo menos a autópsia garantiu que um aneurisma e certamente quase não sofreu. Valha-?-nos isso: não era má pessoa, a mãe.)

De toalha amarrada à cintura e chinelos felpudos passou ao armário da roupa. Puxou umas cuecas quase ao acaso

(não tinha previsto nenhum encontro galante)

cujo elástico começava a perder força mas ainda aguentava, um par de meias pretas, que têm a vantagem de dar com tudo, uma camisa branca que teve de desabotoar para a abotoar de novo, começando pelo colarinho e vindo por aí adiante até ao fim da barriga, que ia aumentando devagar, mais cuidado com as sobremesas, rapaz, sentindo-se uma espécie de clarinetista a treinar escalas. A seguir um do dois fatos azuis, encostando o ombro à parede a fim de não se desequilibrar ao entrar nas calças, um cinto preto, sapatos pretos, sem atacadores, que têm a vantagem de poderem calçar-se de pé e lhe pareciam um número acima do seu dado que às vezes os calcanhares dançavam um bocadinho lá dentro, voltou ao quarto de banho a fim de aperfeiçoar o nó da gravata, de colarinhos ao alto, baixou os colarinhos, certificou-se que a gravata na exacta bissectriz deles, uma gravata de um amarelo discreto que, na sua opinião, lhe aumentava a dignidade, sobretudo com o casaco já posto, surpreendeu-?-se com um pedaço de linha vermelha, incompreensível, na lapela, que enrolou entre o indicador e o polegar e depositou num cinzeiro de vidro, procedeu a uma verificação final, acamou as madeixas das têmporas, perfumou um tudo nada o pescoço

(nunca perfumava mais do que o pescoço)

ainda se mirou, de perfil, no espelho, e achou-se bem, apagou as luzes atrás de si, espreitou as horas no relógio de pulso

(vinte minutos para chegar ao emprego, não demorava mais do que dez, sobrava-lhe algum tempo)

e sentou-se, de perna cruzada, tomando cuidado com os vincos, na poltrona onde costumava ler o jornal à noite, a seguir ao jantar, com a televisão ligada numa novela qualquer, a fazer-lhe companhia. Trinta e oito segundos depois levantou-se e foi à janela observar a rua. Um par de homens lá em baixo consertavam um cano, não estava frio porque as mulheres usavam manga curta, com excepção de uma velhota de xaile: os ossos dos idosos não aquecem, coitados, a mãe, por exemplo, mesmo em agosto, dormia de botija e casaquinho de lã, queixosa da temperatura. Abriu a janela e confirmou que nenhum frio, como nenhum vento também, as folhas das árvores quietas, pombos a rondarem a esplanada. No cabeleireiro, quase em frente, começavam a tirar os taipais, duas raparigas loiras, uma gorda e uma magra, de bata cor-de-rosa, a conversarem entre si, sem olharem para cima. Se olhassem para cima viam-no, empoleirado num banco, a colocar uma das pernas fora da janela e a inclinar-se para a frente, como veriam que, do quinto andar ao passeio, um sujeito de setenta e sete quilos demora 3,4 segundos a chegar.

António Lobo Antunes | | 3 comentários

Joaninhas e cabeças de pescada

O ruído da broca assusta, e o espelhinho, e o gancho pendurado da boca, e a empregada a espreitar a cárie - Ih Jesus o que aí vai sem contribuir lá muito para me encorajar, coisa que o líquido do cálice não conseguiu, primeiro porque não bebo muito e segundo porque o álcool me entristece, não compreendo porquê, vêm-me logo ao de cima as misérias da vida

Não gosto de bichos. Quer dizer gosto de joaninhas mas não tenho nenhuma. Fico a olhar, encantado. Há que tempos que não vejo nem sombra delas. A propósito, o que comerão as joaninhas? Os elefantes comem cenouras, os pobres comem o que calha, as joaninhas não sei. Nunca dei por elas a comerem. No outro dia encontrei um homem de chapéu, com uma joaninha de plástico na fita. Um senhor como deve ser, casaco, gravata, tudo, com uma joaninha de plástico na fita. Ou bem que a comprou ou bem que a esposa lhe ofereceu: ainda há homens como deve ser, com joaninhas de plástico na fita do chapéu. Sentado na mesa ao lado da minha, numa esplanadazita quase em frente do dentista, a fazer horas para o tratamento. Eu, claro. Ele não sei.

Passado um bocado chegou uma senhora que se instalou junto dele, com sacos de compras, e o informou que lhe doíam os pés.

- Estes sapatos, queixava-se ela, estes sapatos que não pareciam apertados nem maldosos. A senhora descalçou um deles e massajou o pé, de unhas pintadas de azul, com um dedo encavalitado nos outros e uma expressão de sofrimento, enquanto o senhor da joaninha, calado, bebia não sei quê num cálice, uma coisa branca que o punha roxo a cada gole.

A senhora, gorda, não aprovou o cálice.

- E depois eu que te ature não é?

enquanto o senhor da joaninha seguia o massajar do pé, a comentar

- Sempre foram uma desgraça de feios, coitados

no caso de me pedirem a opinião, e felizmente não pediram, diria que bonitos: bonitos, não eram lá muito, o dedo encavalitado, a sua dose de joanetes mas talvez feios-feios, o que se chama feios, um nadita exagerado, a idade não embeleza ninguém, é sabido, mas também não era caso para cortá-los, uns sapatos maiores disfarçavam e à noite, debaixo dos lençóis, quase nem se dava por eles, duas saliências lá ao fundo, demasiado longe, que sem óculos passavam, até podiam ter as suas intimidades se não arredassem cobertor, a senhora para ele, ofendida

- És mais bonito tu?

enquanto o senhor da joaninha fazia sinal ao empregado para outro cálice, havia três vazios no tampo e o nariz dele um bocado colorido, a senhora, desgostosa

- Já estás como hás-de ir

o senhor da joaninha, a estalar a língua

- É para me esquecer de ti

a senhora, de pé descalço em cima do sapato, a descansar

- Podes esquecer à vontade que já te esqueci há séculos

mas dali a nada iam para casa juntos, com ele a carregar metade dos sacos

- Gaita que isto pesa

a oscilar derivado à combinação do peso dos sacos e dos cálices, os dois pequenos, lentos, rechonchudos, comigo a pensar nas maldades do dentista, uma coisa aqui atrás que me incomoda com o frio, parece que lhe espetam agulhas, o dentista, avaliador

- Uma cárie e peras

quase a felicitar-me por aquilo, a encher uma seringa de anestésico de maneira que pedi ao empregado

- Um cálice igual ao daquele senhor

porque o ruído da broca assusta, e o espelhinho, e o gancho pendurado da boca, e a empregada a espreitar a cárie

- Ih Jesus o que aí vai

sem contribuir lá muito para me encorajar, coisa que o líquido do cálice não conseguiu, primeiro porque não bebo muito e segundo porque o álcool me entristece, não compreendo porquê, vêm-me logo ao de cima as misérias da vida, a partida da Alice, a partida da Cacilda, que se seguiu à Alice, o que existirá em mim que afugenta as mulheres, segundo a Alice

- Estás sempre de monco caído segundo a Cacilda

- És a alegria dos cemitérios

Isto é se calhar não sou muito exuberante e concordo, não sou, fico no meu canto com os selos, quase não falo, quando se me dirigem respondo sempre

- Perdão?

e as mulheres acabam por se ir embora dado que

- És pior que um defunto

ou

- Ao menos em casa só tenho de cozinhar para mim

sem se preocuparem, como elas acentuam

- O emplastro

sem se preocuparem com o emplastro que sou, enfiado no meu canto

- Não te entusiasmas com nada

sem me entusiasmar com nada. Não é bem verdade: se entrasse agora uma joaninha pela janela até batia palmas, elas, admiradas

- Olha está vivo

porque, se estou contente, além de bater palmas dou-lhes bofetadinhas no rabo de forma que o protesto

- O que é isto?

logo transformado em duas malas no patamar e venho buscar o resto depois. Em geral, ao voltarem, já eu estou com os selos outra vez e, para ser sincero, mal as vejo. Cozinho uma cabeça de pescada, que quase mais ninguém gosta a não ser eu

- A expressão do animal dá-me pena

despejo os restos no balde e a seguir vou até à janela, de mãos nos bolsos, na esperança de uma nova joaninha e, logo por azar, nessas alturas não vem nenhuma. Um gafanhoto ou outro, meia dúzia de moscas e é um pau. É a vida. Não sei bem se é alegre ou maçadora mas é a vida e pronto, temos de viver com o que temos, conforme garantia sempre o meu pai

- Temos de viver com o que temos

e vivíamos com pouco mas ia chegando. Que remédio. Não peço muito. Gostava de encontrar o senhor a fim de saber onde arranjou a joaninha e, a seguir, comprar uma de plástico e pô-la na fita do chapéu. Talvez assim, sentado na esplanadazita quase em frente do dentista, se sente na minha mesa uma senhora com sacos de compras, a informar que lhe doem os pés e que, mesmo sem vontade nenhuma de me aturar, vá até casa comigo e nos sirva, contrariadíssima, uma cabeça de pescada.

António Lobo Antunes, (crónica publicada na VISÃO 1128, de 16 de outubro) | | 14 comentários

A minha manhã mais matinal

Ontem tive uma das minhas manhãs mais matinais: a minha mãe foi a enterrar. E, no cemitério, lembrei-me da morte de Van Gogh. Estava a pintar no campo, interrompeu o quadro e deu dois tiros no peito. Morreu dois dias depois, num hospital de freiras

O poeta francês Robert Desnos, de cuja obra gosto muito, morreu de tifo num campo de concentração nazi, quase no fim da guerra. As suas últimas palavras foram Esta é a minha manhã mais matinal e a frase extraordinária de Robert Desnos sempre me comoveu. Pois bem, ontem tive uma das minhas manhãs mais matinais: a minha mãe foi a enterrar. E, no cemitério, lembrei-me da morte de Van Gogh. Estava a pintar no campo, interrompeu o quadro e deu dois tiros no peito. Morreu dois dias depois, num hospital de freiras. Pendurado na parede do seu quarto aquele célebre quadro dos corvos sobre um campo de trigo. A freira que se ocupava dele perguntou-lhe o que representava o quadro. Van Gogh respondeu que representava a morte. A freira olhou melhor e disse Não parece uma morte triste e o pintor esclareceu-a E não é, Irmã: passa-se à clara luz do dia.

Assim a minha mãe: morreu à clara luz do dia e foi sepultada à clara luz do dia. Afastei-me um pouco porque sentia a terra das pás a cair no meu corpo. À clara luz do dia no meu corpo. Depois voltámos para casa dela e, pela primeira vez, ela não estava. O meu querido amigo Bento Domingues contou-me uma ocasião que disse a missa de corpo presente da mãe e que lhe fez o funeral. Passados tempos, ao voltar à aldeia, a sua primeira frase para o pai foi A mãe? Contou-me também que não vai aos cemitérios porque não está lá ninguém.

Eu: Então onde estão as pessoas que se foram embora? o Bento respondeu-me, com aquele extraordinário sorriso que é o dele: Andam por aí e portanto andamos todos por aí.

Daqui a não sei quanto tempo alguém que porventura goste de mim e lhe apeteça estar comigo, encontra-me por aí.

O Bento voltou à aldeia, interrogou o pai A mãe? e foi ter com ela numa manhã muito matinal. Porque todos os nossos momentos importantes se passam em manhãs matinais e porque começaremos a andar por aí na mais matinal de todas. E há períodos inteiros da nossa vida em que as manhãs matinais duram um dia, semanas, meses às vezes e a noite não existe nunca. Há gente que gosta da noite: eu só sou capaz de gostar de noites matinais. Tarde matinais, noites matinais, a chuva, eternamente matinal, do princípio do outono, que António Sardinha tão bem descreve Chuva da tarde, melodia mansa, Desejos vagos de chorar baixinho.

Voltei aos meus caprichos de criança: Só quero, amor, saber do teu carinho.

E é tão assim, de facto: tantos desejos vagos de chorar baixinho, às vezes sem saber porquê, não querendo saber porquê, sabendo porquê sem aceitar saber porquê. Tia Madalena, olhe, agora lembrei-me de si, foi sempre tão boa para mim. Gija, foste sempre tão boa para mim, coçavas-me que tempos as costas antes de me vestires o pijama e eu adorava. Lembranças que gelam dentro de mim um imenso bloco de saudade. A porta que me espera é tão negra! Tenho medo, não tenho medo, tenho medo mas há sempre a esperança que a Gija venha.

Chamava-se Alice, eu não era capaz de articular Alice, tratava-a por Gija, quando tinha quatro ou cinco anos, já homem portanto, casou com um taxista e deixou-me. Que desgosto de amor tão grande, que alegria quando, muitos anos depois, a encontrei: a ternura continuava intacta nos olhos dela. O prémio que mais prazer me deu receber foi o Prémio Rosalía de Castro, em Santiago de Compostela.

A Gija era galega, e diante daquela gente toda, tão importante, o orgulho que foi dedicar-lho em voz alta, a ela, uma camponesa pobre de uma aldeia ali perto. Gija, disse o teu nome diante do Presidente do Governo Autónomo, disse o teu nome diante do público todo e tinha a certeza que me ouvias. Ainda tenho. Tinha a certeza que ficaste orgulhosa de mim, o teu menino, Gija, no meio de senhores de muito respeito. Ainda tenho, como tenho a certeza que ninguém o entendeu tão bem como Rosalía, a minha poeta favorita, cuja leitura tanta alegria, consolo e emoção me traz. Que matinal essa manhã. Uma das mais matinais de todas. Robert Desnos entende. Tu entendes. Eu entendo. Agora, por exemplo, precisava tanto que me coçasses as costas antes de me deitares.

Deita-me devagarinho, como sempre fazias. E fica ali até eu já não ter medo. O Bento não garantiu que os mortos andam por aí? Chega-te só um bocadinho mais perto, que hoje é um dia difícil.

Um dia em que necessito tanto de ti. Mesmo já homem, ao ver-te com o teu marido, apetecia-me apertar-lhe o pescoço. De ciúmes, claro, e acho que ele percebia mas não se zangava: há momentos em que sou tão pequenino.

António Lobo Antunes, (crónica publicada na VISÃO 1126, de 2 de outubro) | | 7 comentários

Pois é

Porque me horroriza a ideia de gramar audiências semanais com o Presidente da República, que também só diz - Pois é - mas de maneiras compridíssimas, que é para isso que lhes pagam
Não me apetece dizer coisas inteligentes. Não me apetece, nunca me apeteceu, impressionar ninguém. Apetece-me ficar aqui sentado, calado, quieto, sem olhar para nada, na pausa de um livro que me está a dar água pela barba que não uso. Nenhum pêlo na cara como os padres do século dezanove. Exactamente: aqui sentado, na cadeira onde escrevo, ouvindo os automóveis na rua, depois de almoçar com um desconhecido que se instalou à minha frente e falou o tempo inteiro, a mastigar de cara demasiado próxima da minha a fim de me convencer que tinha razão. Acerca de quê? Sei lá, estava mais interessado na maneira como a boca se mexia, com a testa a enrugar-se a fim de acentuar a importância do assunto. Tirava notícias recortadas dos jornais da algibeira, que eu fingia ver durante um certo tempo, para o convencer que tinha lido, e lhe devolvia a declarar

- Pois é                         

que não ofende ninguém e serve para tudo. Conto com milhares de

- Pois é

no meu currículo,

- Pois é

e

- Nem mais

são duas frases que têm sido importantíssimas na minha vida e de sucesso garantido, a calcular por respostas do género

- Nota-se logo que você é uma pessoa sensível

ou

- É extraordinário como compreendeu imediatamente

Eu que não compreendi coisa nenhuma, estava a milhas do que me comunicavam, apenas me espantava ser tão simples tornar um contemporâneo feliz. Se eu fosse político ganhava todas as eleições com um destes dois discursos, com os quais é difícil estar em desacordo. Os eleitores, ao chegarem a casa, se os interrogarem

- Que disse ele?

recebem em troca

- Disse nem mais o que prova que está de acordo connosco. Portanto votamos nele.

Quando estou bem-disposto substituo o

- Pois é

e o

- Nem mais

por

- Se fosse só isso

e apenas não insisto com mais frequência no

- Se fosse só isso

para que não me abracem à beira de lágrimas de gratidão e porque me horroriza a ideia de gramar audiências semanais com o Presidente da República, que também só diz

- Pois é

mas de maneiras compridíssimas, que é para isso que lhes pagam. Aliás pode lidar-se com as pessoas só com estas três frases e garanto, a quem as usar, um futuro de perpétua paz e permanente concórdia. Tive um tio que levou uma vida difícil por desconhecimento destes princípios simples. O que lhe saía da boca, em vez de

- Pois é

- Nem mais

e

- Se fosse só isso

era um fatal

- O problema não é bem esse

que é a expressão ideal para uma existência atormentada.

- O problema não é bem esse

até é capaz de ser verdade mas os humanos, que detestam a verdade, preferem o que consideram ter razão, que é uma coisa que não existe porque ninguém tem razão, tem somente vontade de ter razão e, aqui entre nós, o que custa dar-lhes essa prenda inestimável e inútil? A mim não me custa nada, ter razão não me interessa um pito, quero lá saber da razão. No fundo gosto muito mais de não ter razão nenhuma, adoro enganar-me, estar errado, passar ao lado das coisas, porque, no fundo, ter ou não ter razão que importância tem? Já repararam como é bom achar bonitas umas nádegas mal feitas e contentarmo-nos com elas? Basta pensar no que isso diminui a frustração e deixa as nádegas bem feitas para as criaturas mais minhoquentas acerca de assuntos no género e para a nossa inveja de não as ter por perto, por assim dizer ao alcance da mão; que se consola com redondezas mas não pode gastar o dia inteiro a explorá-las, há o emprego, a necessidade de comer, a revisão do carro, tudo assuntos muito mais inadiáveis e, custa-me dizê-lo, de maior importância. As nádegas bem feitas são relevantes durante os dez segundos de as vermos passar escutando o

- Já viste aquele cu?

de um amigo de língua demasiado solta e mão à frente da boca, porque não se apreciam nádegas aos berros, é mais o género de comentário que se rosna numa expressão de hiena, a menos que o problema não seja bem esse, o que é muito possível dado que os problemas nunca são bem esses, o meu, para não ir mais longe, é um dente que começou agora a incomodar-me, ainda não dor, a sensação de certeza de uma dor a aproximar-se, prestes a começar o seu trabalho embora os dentistas, à noite, durmam e não devia ser autorizado dormirem, deviam estar à nossa espera no consultório com o seu ar falsamente benigno

- Um molarzinho a aborrecê-lo, hã?

e a gente, claro

- Pois é

a gente

- Nem mais

já de babete e tubo na boca e portanto sem possibilidade do

- Se fosse só isso

final, tentando exprimir-se mas o tubo não deixa, mas a broca não deixa, mas a injeção da anestesia não deixa, tentando exprimir-se

- O problema não é bem esse

ou, antes

- O dente não é bem esse

enquanto o dentista tenta enfiar-nos à matroca o dente bom na gengiva para extrair o que dói, não consegue, são três da manhã, tem sono, do modo que ficamos com um espaço livre enorme aqui dentro, o que é pena não se ter passado quando estávamos na escola porque ganharíamos, na calma, todos os campeonatos de cuspidela e ainda hoje éramos citados, com respeito, pela turma inteira.

Crónica publicada na VISÃO 1124, de 18 de setembro | | 8 comentários

Da vida dos mortos

"Estamos em paz um com o outro, agora, e sucede-me sentir-lhe a presença, o cheiro do tabaco de cachimbo, o cheiro do que ele punha no cabelo, sucede-me sentir-lhe a voz, os passos, a maneira de subir as escadas a duas e duas, sentir, não me julguem idiota, que nos compreendemos muito melhor hoje em dia, ao ponto de, volta na volta, me saírem pela boca frases que não são minhas"

Nunca conheci ninguém que mudasse tanto como os defuntos, o que me leva a pensar que a morte não é nada do que eu imaginava, o que me leva, até, a questionar a sua existência. A minha relação com o meu pai, por exemplo, tão complicada e difícil, alterou-se imenso

(complicada e difícil dentro de mim, dele não posso falar)

começou a transformar-se nos últimos dez anos, depois de o meterem num caixão. Estamos em paz um com o outro, agora, e sucede-me sentir-lhe a presença, o cheiro do tabaco de cachimbo, o cheiro do que ele punha no cabelo, sucede-me sentir-lhe a voz, os passos, a maneira de subir as escadas a duas e duas, sentir, não me julguem idiota, que nos compreendemos muito melhor hoje em dia, ao ponto de, volta não volta, me saírem pela boca frases que não são minhas e palavras que não uso e que, só depois de ditas, compreendo pertencerem-lhe. Se lhe pertencem porque carga de água é de mim que saem? Com atenção encontro-o por toda a parte, em sua casa, quando vou ao Hospital de Santa Maria estou sempre à espera de o ver numa esquina do corredor, de capote e bata branca, a fumar, penso 

- Se o apanhasse aqui abraçava-me a ele nós que nunca nos abraçámos, que praticamente não nos tocávamos a não ser quando me dava porrada, e deu-me bastante, quando vou ao Hospital de Santa Maria procuro logo o automóvel no meio dos automóveis estacionados e desilude-me não o encontrar. Depois do tal episódio do caixão o nosso relacionamento foi adquirindo outras cores devagarinho (nada é mais imprevisível que o passado, escreveu Orwell) comecei, acho, a topá-lo melhor, a suportar sem dificuldade comportamentos e tiques que considerava intoleráveis, a não me ralar absolutamente nada com o menino mimado que sempre foi, os seus caprichos, a sua violência, o seu egoísmo feroz, a sua intolerância, a sua fraqueza em relação à lisonja mas também o seu extremo pudor, a sua capacidade de entusiasmo, a sua paixão pela beleza sob todas as suas formas. Se não fosse ele talvez não me tivesse tornado escritor: lia em voz alta para nós e obrigava-nos a ler, como nos obrigava a fazer cópias de Gauguin, como nos ensinou a ver pintura, a ouvir música, ordenava-me que lhe explicasse 

(lembro-me tão bem deste episódio)

porque razão Manet, é um supor, é bom e uma pintura de carrossel é má, porque motivo Tolstoi é um génio e Cesbron uma porcaria, eu, com treze ou catorze anos, lá ia tropeçando em raciocínios que ele desfazia numa frase, procurando ajudar-me quando eu imaginava que fazia pouco de mim. Tenho hoje a certeza que estava convicto de eu estar destinado a grandes coisas e a minha falta de agudeza crítica impacientava-o. Recordo-me de Almada Negreiros perguntando a Mário de Sá-Carneiro de que é que tinha mais medo na vida. Sá-Carneiro respondeu de imediato

- Da estupidez

e Almada

- Assim não vale: você já sabia isso de cor.

Isto de que falei agora acerca do meu pai podia continuá-lo indefinidamente com outras pessoas que encontrei, ao longo do tempo, nos acasos da vida. Família, amigos, desconhecidos também. Houve sessões de autógrafos em que, durante os momentinhos de rabiscar o nome de um homem ou uma mulher desconhecidos, tive a certeza de passar ao lado de encontros decisivos. Um senhor de barba branca que, na semana passada, me sorriu num restaurante. Goethe chamava a este género de coisas afinidades electivas. A maior parte, qual maior parte, penso que todos os meus amigos, que são muito poucos, os conheci assim: olha-se para alguém e ficamos irmãos. Por exemplo José Cardoso Pires. Encontrámo-nos num aeroporto e, a partir daí, falávamos praticamente todos os dias, quando era preciso, ou decidíamos que era preciso, com cruel sinceridade. Jamais houve uma nuvem entre nós e quem o conheceu sabe como podia ser irascível e violento. Ou Amos Oz, que é um escritor israelita. Ou Claudio Magris, italiano, de quem gostei num segundo. Ou Sigrid Löffler, a grande crítica austríaca. Ou Christian Bourgois, editor francês, talvez o maior que encontrei, entre tantos. Suponho que estes encontros foram os momentos mais importantes da minha vida. Talvez, como se diz, os amigos não morram: apenas não puderam vir hoje. Onde estarão? Estão comigo. Deram-me o que há de mais precioso: o afecto desinteressado. Em relação a um deles, o poeta Eugénio de Andrade, sinto um remorso horrível. Nunca fui visitá-lo ao Porto durante a doença que o levou. Contaram-me que, de tempos a tempos, dizia:

- Põe aí o meu casaquinho que um amigo vem ver-me.

E eu não fui. Era-me insuportável vê-lo destruído. De modo que as palmeiras da Foz hão-de continuar a baloiçar--se ao vento sem a gente os dois na janela a espreitá-las. Disso tenho remorsos e maça-me que, neste momento, o meu pai me esteja a ralhar por causa disso. Sinto o cheiro do tabaco do cachimbo e vejo a cabeça dele a acenar numa censura muda. Vá lá, pai, isso concedo-lhe: desta feita tem razão. E, já agora, uma pergunta: porque é que Charlie Parker é bom, e os cantores dos programas da manhã da televisão não? Ora aí tem um bom pretexto para dissertar acerca da beleza. Ora aí tem um bom pretexto para começar o seu discurso com as palavras habituais

- Bem vês

a ajeitar-se melhor na cadeira, movendo as mãos que eram a única coisa fisicamente bonita que tinha. As mãos e a voz. Por favor fale. 

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1122, de 4 de setembro de 2014 | | 4 comentários

Cara de um anjo

Ser menino do coro era uma chatice e pêras excepto durante a comunhão porque via as meninas perto de mim, de boca aberta e língua de fora. Depois lá recolhiam a mosca da hóstia que transportavam sem a mastigar, a fim de não magoarem Jesus com os dentes, à espera que Ele se dissolvesse no céu da boca como as pastilhas contra a azia, embora me fizesse confusão que o Filho de Deus fosse solúvel

O meu avô, o único patriarca que conheci, oferecia, aos sábados, uns almoços aos padres das redondezas, criaturas de batina com as quais ele, militar de cavalaria de palavrão fácil, se esforçava por ter conversas macias acerca de assuntos macios. Era Juiz da Irmandade do Santíssimo Sacramento e assistia à missa no altar-mor, de capa vermelha, com um genuflectório só para ele, para além de nos ter convencido a sermos meninos do coro. Para nós era óptimo porque, quando o sacristão cortava as hóstias para o prior, a gente comia os restos, que sabiam a papel cavalinho. Aos oito anos eu adorava comer papel cavalinho, ainda por cima de certeza que com um resto de Jesus lá dentro. Até hoje estou para saber porque é que adorava visto que aquilo era um bocado insonso. Também provei, às escondidas, da galheta do vinho e, se aquilo era o sangue de Deus, espantava-me que fosse tão pálido embora, ao segundo gole, desse uma tonturazinha agradável e tornasse os degraus do altar-mor desiguais. Tirando estes pormenores ser menino do coro era uma chatice e pêras excepto durante a comunhão porque via as meninas perto de mim, de boca aberta e língua de fora. Depois lá recolhiam a mosca da hóstia que transportavam sem a mastigar, a fim de não magoarem Jesus com os dentes, à espera que Ele se dissolvesse no céu da boca como as pastilhas contra a azia, embora me fizesse confusão que o Filho de Deus fosse solúvel. Por um lado mandar a gente para o Inferno e, por outro, desaparecer no cuspo, afiguravam-se-me actividades incompatíveis mas tentava não pensar no assunto porque era primogénito e a Bíblia era danada para matar primogénitos e egípcios. Mas voltando ao princípio, antes que venha por aí abaixo uma praga de gafanhotos, bichos que horrorizavam as minhas tias e o Céu usa com frequência incompreensível, o meu avô oferecia, aos sábados, um almoço aos padres das redondezas, priores das freguesias vizinhas, sempre de batina e colarinho de celulóide. Se somasse os botões daquela gente toda ainda hoje estava aqui a contá-los. Lembro-me de vários com uma nitidez absoluta, sobretudo de um que, se me apanhava no corredor, me apertava a cara entre os dedos a chamar-me

- Meu anjo loirinho

e tentava, espiando para os lados, introduzir-me as mãos nos calções. Não ia longe porque os calções, da autoria da minha mãe, eram apertados, e os dedos mornos do bondoso sacerdote me faziam cócegas. Mas estou a vê-lo de olhos fechados, a tentar, a tentar, respirando-me na orelha

- Meu anjo loirinho

e soltando-me logo que o meu avô aparecia, a murmurar

- Isto é um segredo nosso

que, por ser segredo, contei ao meu pai e o servo de Deus levou sumiço num rufo depois de uma conversa entre o meu pai e o meu avô de que só percebi a frase

- Dou-lhe cabo dos cornos

cujo significado não atingi bem mas que o meu avô resolveu por sua conta, depois de uma conversa amigável com a terna criatura que me recordo de ver com menos dentes, a ciciar as homilias por um cantinho da bochecha. Para aí durante um ano deve ter comungado por uma palha de laranjada. O meu avô, entre parênteses, pesava mais de cem quilos e a alcunha dele era Arranca Cabeças. Contava-se que uma vez andou à trolha com a filarmónica de Benfica inteira que, depois dos concertos, se entregava um bocadinho ao briol. Imagino como não se terá torcido o trombone de varas. Mas, tirando isso, o almoço com os padres não era desagradável: primeiro, enquanto ali estivesse nenhum diabo me levava para o Inferno, protegido que estava por tanta santidade; em segundo lugar escapava à bicha para a confissão. O meu avô dizia a um deles

 - Confesse-me aí a criança

seguia com o eleito para uma sala qualquer

(era uma casa grande)

normalmente aquela onde se jogava às cartas, o padre sentava-se numa poltrona, eu ajoelhava junto a um dos braços da dita, o padre perguntava

- Algum pecado dos grossos?

eu não achava nada que valesse a pena incomodar Deus

- Assim de repente não me lembro de nenhum

ele absolvia-me numa cruz rápida

- Podes ir

eu, inquieto

- E a penitência?

ele

- A penitência é comeres mais que estás magro com um palito

e ficava pronto para a hóstia no domingo, estendendo uma língua de camaleão onde o prior poisava o insecto divino que demorava séculos a evaporar-se e eu com aquilo lá dentro, sem poder falar, a exprimir-me por caretas, a minha mãe

- Pareces parvo

e infelizmente não podia explicar-lhe que a parvoíce vinha de não querer aleijar o Jesus em nenhuma parte do seu corpo e sofrer as consequências de haver arranhado a epiderme celeste. Além disso tinha uma reputação de anjo loirinho a defender e desejava ser considerado assim no Paraíso, um menino olhado, com igual enlevo, pelo padre que simpatizava com as minhas pernas e por Deus Todo Poderoso a quem a minha piedade impediria estátuas de sal e multidões de cidades desobedientes em fanicos. É que Lisboa podia estar na lista e não me apetecia morar em Jerusalém porque para soldados romanos de sandálias, francamente, já me bastam os turistas ingleses.

 

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1120, de 21 de agosto | | 16 comentários

A pontada

- Sentes alguma coisa aí?/e ele um gesto vago/- Não/mas é evidente que sentia alguma coisa ali, a mulher, que o conhecia de ginja, pronunciou a ameaça suprema/- Pelo sim pelo não vou telefonar ao doutor Ataíde/ e ele logo/- Nem pensar

Andava há dias com uma pontadazita nas costas, cá em cima, quase ao pé da omoplata, não uma dor, uma impressão que ia e vinha, o incomodava cinco ou dez minutos, desaparecia, quer dizer quase desaparecia, ficava um desconforto apenas que não o incomodava, ao ponto de se esquecer dele, e depois, a meio de qualquer coisa, no trabalho em casa, a pontada de regresso, um bocadinho mais forte, que demorava mais mas acabava também por amansar e portanto não se ralou muito, não disse à mulher que se iria alarmar logo, falar em médicos e ele detestava médicos, hospitais, consultas, remédios, e portanto calado, decidindo

- Um mau jeito que é uma questão de tempo

só que o mau jeito mantinha-se, piorava lentamente, difícil de massajar, passou a dormir sobre a omoplata sã, a mulher

- Voltas-me as costas agora?

ao cabo de um mês a pontada não só prosseguia como principiava a assemelhar-se a uma agulha cravada nas costas, entre a nuca e o ombro, dificultando-lhe o vestir do casaco, a mulher a reparar

- Pareces torto, tu

e não lhe respondeu mas lá que estava um bocadinho torto estava, na esperança de aliviar o mal-estar

(não aliviava)

a mulher, preocupada

- Sentes alguma coisa aí?

e ele um gesto vago

- Não

mas é evidente que sentia alguma coisa ali, a mulher, que o conhecia de ginja, pronunciou a ameaça suprema

- Pelo sim pelo não vou telefonar ao doutor Ataíde

e ele logo

- Nem pensar

mas acabou por conformar-se com o dr. Ataíde a partir de uma ocasião em que a pontada lhe paralisou uns segundos o braço assustando-o a sério, a mulher telefonou para o posto e o dr. Ataíde de férias, até os médicos têm direito a férias, ele, aliviado

- Já ganhei duas semanas receoso da conversa do doutor, mas a mulher e a empregada do posto acabaram-lhe com os alívios

- Se deixou um substituto, dona Adélia, marque-me o substituto e a dona Adélia, que simpatizava com a mulher

- Até pode ser amanhã, temos uma desistência ao fim do dia, não quer aproveitar?

e claro que a mulher queria aproveitar, ao fim do dia, depois do serviço, vinha mesmo a calhar, nem era preciso pedir dispensa no emprego, a mulher

- Espero por ti à entrada do escritório e seguimos logo

o homem ainda tentou argumentar que um substituto não era a mesma coisa que o doutor Ataíde, se fosse a mesma coisa não era substituto, era efectivo, a mulher respondeu que, para uma dor nas costas, qualquer médico é bom

- Se estivéssemos a falar do fígado já era outra música

e ele viu-se obrigado a dar-lhe razão, o fígado pedras, os inchaços e a cruz da vesícula como o irmão mais velho, condenado a repousos e dietas, peixinho cozido, cenouras cozidas, uma batatinha, tudo isto temperado por um nada de azeite

(vinagre nem cheirá-lo, o vinagre e a vesícula de relações cortadas)

e o irmão a empurrar o prato, não me apetece, com os fatos larguíssimos e o cinto no último buraco, a mulher

- Um cadáver ambulante, coitado

de baixa do trabalho, a maior parte do tempo sentado no sofá, sem conversar com as pessoas, quando muito

- O funeral já não tarda

de televisão desligada e sem olhar o jornal, a olhar as árvores das janela com uma cara de adeus, protestando de vez em quando

- O que me apetecia era um bife

e proibido de bifes

- O que me apetecia era um pudim instantâneo

o doutor Ataíde

- Se você quer matar-se

de modo que lá se contentava com a cenoura cozida e metade da batatinha, a sonhar com pezinhos de porco e outras maravilhas assassinas, de aliança no médio porque, do anelar, lhe caía, o doutor Ataíde, com pena dele

- Tem que ser que não há nada mais traiçoeiro que a vesícula

de modo que, na opinião do homem, ia morrer de fome, coitado, mas com a bílis cheia de saúde, o que sempre consola, haver saúde em qualquer parte nossa mais que satisfaz, alegra, e morrer de vesícula perfeita compensa.

O substituto do dr. Ataíde recebeu-os não ao fim da tarde, ao fim da noite, porque o que não falta neste mundo, infelizmente, são doenças, mandou-o despir o casaco, a camisola, a camisa, começou a passear-lhe os dedos na omoplata a repetir

- Pois é

apertou em cima da pontada, abaixo da pontada, dos lados da pontada, insistindo

- Pois é

no lugar da pontada por fim

- Cá estamos nós

e, ao carregar, o homem quase saltou na cadeira, a esclarecer

- É aí

o substituto do dr. Ataíde, ofendido

- Que é aqui sei eu

passeando de costela em costela, subindo ao pescoço, descendo ao ombro, fazendo uma incursão à coluna

- Pois é

lavando as mãos num lavatório de água avarenta e secando-as numa toalha de papel, sentando-se à secretária, olhando a mulher do homem, olhando o homem, decidindo

- É uma pontada

e a palavra pontada, na voz dele, terrível, o substituto a reflectir, a perguntar

- É irmão do doente da vesícula, não é?

a anunciar

Os problemas de vesícula são sempre terríveis acrescentado num suspiro

- Faça o favor de vestir-se

no tom em que podia ter anunciado

- Abatem-se cavalos por menos

enquanto o homem já se via com o seu peixinho cozido, as suas cenouras cozidas, a sua batatinha e o seu pingo de azeite, também saudoso de bifes e pudins instantâneos, de maneira que nem esperou pela opinião do substituto nem o ouviu dizer à mulher

- Basta friccioná-lo de manhã e ao deitar com uma pomadinha e em três dias está fino

sentado ao lado do irmão, pronto a começar a emagrecer e a usar a aliança no médio, perguntando-se qual dos dois faleceria primeiro.

António Lobo Antunes | | 23 comentários

O vazio

Sou eu que estou em paz com o meu pai ou o meu pai que está em paz comigo? Qual de nós mudou: ele, eu, os dois ou aquilo que nos rodeia?

No outro dia, em casa da minha mãe, pus-me a olhar os retratos nas cómodas, tentando compreender a diferença entre os mortos e os vivos. Nunca compreendi muito bem o que é estar morto, conforme não compreendo muito bem o que é estar vivo. Todas as fotografias continuam a falar, não em silêncio como eu pensava ou sou eu que falo nelas, por eles? A minha avó, criança, continua a ser assim ou transformou-se na senhora que depois conheci? Qual delas é, de facto, a mãe da minha mãe e qual das várias representações, que se convencionou ser eu, a sente como do seu sangue? E qual das representações do que sou escreve isto? A morte significará não estar ou, apenas, uma ausência episódica? Aqueles que se convencionou terem morrido e, portanto, haverem-se extinto, como se extinguiram dado que me aparecem nos sonhos, dado que existem na minha cabeça, dado que continuam a modificar-se em mim? Se, por exemplo, penso

- Agora estou em paz com o meu pai

sou eu que estou em paz com o meu pai ou o meu pai que está em paz comigo? Qual de nós mudou: ele, eu, os dois ou aquilo que nos rodeia? E como se compreende o facto das pessoas que faleceram continuarem a alterar-se? Em garoto pensava: morre-se, vai-se para baixo da terra, acabou, fica a saudade que se dissolve, com os anos, por seu turno: isto é, no mínimo, ingénuo e, claro, infantil. Como se explica o motivo de, ao ir a casa dos meus pais, encontrar sempre o meu irmão Pedro? Mesmo que outra pessoa se sente no seu lugar à mesa é o Pedro quem o ocupa e, como em geral não falo, fico a tentar ouvir as conversas, oiço-o a participar nelas e tenho a certeza que os meus outros irmãos também o ouvem. É impossível não ouvirem e isto não é um produto da minha cabeça ou a negação do seu desaparecimento: é uma realidade física, independente do que sinto ou imagino. Estamos todos juntos, reais, presentes e, de todos, dá-me ideia que sou o menos verosímil. Quem adoece, suponhamos, está mais longe ou mais perto de estar mais perto de nós? Quero dizer realmente perto, numa realidade muito mais absoluta que antes? E pergunto-me se a morte existe ou não passa de uma convenção, como os números ou as datas, onze de julho, três de maio, vinte e quatro de janeiro. Porquê esta necessidade de catalogar, seriar, inventar noções absurdas? Onze de julho é absurdo. Onze e julho que sentido possuem? Ou, para voltar à morte, afigura-se-me uma noção sem nexo decretar que o Pedro morreu e eu não. Onde começa a ausência e, antes ainda, o que é a ausência? A mão que escreve isto escreve de facto isto ou deixa um rasto no papel que a gente toma por isto? Tenho a sensação que a minha mãe entende o que estou a dizer. Na última vez que estive com ela pus a testa contra a sua testa e principiei a falar-lhe de tudo isto. O mais extraordinário é que começou a sorrir, isto é um sorriso esteve na sua cara o tempo inteiro e acenava que sim. Será que ela, que pensamos tão próximo da morte, compreende? Ou será que julgamos que ela próximo da morte porque compreende? Nunca estivemos muitas vezes de acordo e tive a impressão

(tenho receio de escrever certeza)

que, finalmente, nos entendíamos. A certa altura disse-lhe

- Apetece-me estar de novo na sua barriga

e o sorriso da minha mãe aumentou: apareceu-me na ideia que estava a comunicar-me que nunca saí de lá, e os retratos meus que para ali estão não são eu, ou são um eu a que se decidiu, ignoro porquê, chamar António. O verdadeiro António não existe, não nasceu, não cresceu, não escreve isto. Anda por aí apenas e não sei quem é. Andamos por aí apenas e não sabemos quem somos, inventados por quem e fazendo parte desse quem? Estas palavras estão a sair sem que eu tome parte nelas, sem uma emenda: não posso emendar porque não fui eu quem as fez, foram os retratos das cómodas, os que chamam mortos e os que chamam vivos ou outra instância que desconheço. António Lobo Antunes nem sequer é um conjunto de células confusas. É um número ou uma data que é todos os números e todas as datas ou nenhum número e nenhuma data, um acaso que se formou de súbito e se vai desfazer ao calar-se. O que fica depois? Nada que interesse: uma sala a anoitecer pela qual passou uma sombra fugaz que não pertence a ninguém. Não percebo isto porque não posso perceber isto e, muito menos, perceber o que sou, como sou, o que faço. Uma espécie de nada plasmado em molduras. Se as olharmos muito tempo desaparecem. O que fica depois? Uma sala com cómodas vazias, cadeiras vazias, um tempo sem tempo, sofás com marcas de corpos que não existem. Ou nada disto. A noite que começa apenas, mas haverá noite? Um espaço, mas haverá espaço? Um imenso silêncio de que ninguém faz parte? A barriga da minha mãe onde jamais estive porque ela jamais esteve igualmente? Sinto que a caneta vai parar. Que pára a pouco e pouco. Que parou. O que ficou nestes papelinhos? Acho que nada. Nada de nada. Apenas os vivos e os mortos que talvez andem por aí. Talvez andem por aí. Andem por aí. Por aí. Andem. ndem. Dem. Em. M. Para sempre. O vazio. Este texto nunca foi escrito.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1113, de 3 de junho | | 29 comentários
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