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O vazio

Sou eu que estou em paz com o meu pai ou o meu pai que está em paz comigo? Qual de nós mudou: ele, eu, os dois ou aquilo que nos rodeia?

No outro dia, em casa da minha mãe, pus-me a olhar os retratos nas cómodas, tentando compreender a diferença entre os mortos e os vivos. Nunca compreendi muito bem o que é estar morto, conforme não compreendo muito bem o que é estar vivo. Todas as fotografias continuam a falar, não em silêncio como eu pensava ou sou eu que falo nelas, por eles? A minha avó, criança, continua a ser assim ou transformou-se na senhora que depois conheci? Qual delas é, de facto, a mãe da minha mãe e qual das várias representações, que se convencionou ser eu, a sente como do seu sangue? E qual das representações do que sou escreve isto? A morte significará não estar ou, apenas, uma ausência episódica? Aqueles que se convencionou terem morrido e, portanto, haverem-se extinto, como se extinguiram dado que me aparecem nos sonhos, dado que existem na minha cabeça, dado que continuam a modificar-se em mim? Se, por exemplo, penso

- Agora estou em paz com o meu pai

sou eu que estou em paz com o meu pai ou o meu pai que está em paz comigo? Qual de nós mudou: ele, eu, os dois ou aquilo que nos rodeia? E como se compreende o facto das pessoas que faleceram continuarem a alterar-se? Em garoto pensava: morre-se, vai-se para baixo da terra, acabou, fica a saudade que se dissolve, com os anos, por seu turno: isto é, no mínimo, ingénuo e, claro, infantil. Como se explica o motivo de, ao ir a casa dos meus pais, encontrar sempre o meu irmão Pedro? Mesmo que outra pessoa se sente no seu lugar à mesa é o Pedro quem o ocupa e, como em geral não falo, fico a tentar ouvir as conversas, oiço-o a participar nelas e tenho a certeza que os meus outros irmãos também o ouvem. É impossível não ouvirem e isto não é um produto da minha cabeça ou a negação do seu desaparecimento: é uma realidade física, independente do que sinto ou imagino. Estamos todos juntos, reais, presentes e, de todos, dá-me ideia que sou o menos verosímil. Quem adoece, suponhamos, está mais longe ou mais perto de estar mais perto de nós? Quero dizer realmente perto, numa realidade muito mais absoluta que antes? E pergunto-me se a morte existe ou não passa de uma convenção, como os números ou as datas, onze de julho, três de maio, vinte e quatro de janeiro. Porquê esta necessidade de catalogar, seriar, inventar noções absurdas? Onze de julho é absurdo. Onze e julho que sentido possuem? Ou, para voltar à morte, afigura-se-me uma noção sem nexo decretar que o Pedro morreu e eu não. Onde começa a ausência e, antes ainda, o que é a ausência? A mão que escreve isto escreve de facto isto ou deixa um rasto no papel que a gente toma por isto? Tenho a sensação que a minha mãe entende o que estou a dizer. Na última vez que estive com ela pus a testa contra a sua testa e principiei a falar-lhe de tudo isto. O mais extraordinário é que começou a sorrir, isto é um sorriso esteve na sua cara o tempo inteiro e acenava que sim. Será que ela, que pensamos tão próximo da morte, compreende? Ou será que julgamos que ela próximo da morte porque compreende? Nunca estivemos muitas vezes de acordo e tive a impressão

(tenho receio de escrever certeza)

que, finalmente, nos entendíamos. A certa altura disse-lhe

- Apetece-me estar de novo na sua barriga

e o sorriso da minha mãe aumentou: apareceu-me na ideia que estava a comunicar-me que nunca saí de lá, e os retratos meus que para ali estão não são eu, ou são um eu a que se decidiu, ignoro porquê, chamar António. O verdadeiro António não existe, não nasceu, não cresceu, não escreve isto. Anda por aí apenas e não sei quem é. Andamos por aí apenas e não sabemos quem somos, inventados por quem e fazendo parte desse quem? Estas palavras estão a sair sem que eu tome parte nelas, sem uma emenda: não posso emendar porque não fui eu quem as fez, foram os retratos das cómodas, os que chamam mortos e os que chamam vivos ou outra instância que desconheço. António Lobo Antunes nem sequer é um conjunto de células confusas. É um número ou uma data que é todos os números e todas as datas ou nenhum número e nenhuma data, um acaso que se formou de súbito e se vai desfazer ao calar-se. O que fica depois? Nada que interesse: uma sala a anoitecer pela qual passou uma sombra fugaz que não pertence a ninguém. Não percebo isto porque não posso perceber isto e, muito menos, perceber o que sou, como sou, o que faço. Uma espécie de nada plasmado em molduras. Se as olharmos muito tempo desaparecem. O que fica depois? Uma sala com cómodas vazias, cadeiras vazias, um tempo sem tempo, sofás com marcas de corpos que não existem. Ou nada disto. A noite que começa apenas, mas haverá noite? Um espaço, mas haverá espaço? Um imenso silêncio de que ninguém faz parte? A barriga da minha mãe onde jamais estive porque ela jamais esteve igualmente? Sinto que a caneta vai parar. Que pára a pouco e pouco. Que parou. O que ficou nestes papelinhos? Acho que nada. Nada de nada. Apenas os vivos e os mortos que talvez andem por aí. Talvez andem por aí. Andem por aí. Por aí. Andem. ndem. Dem. Em. M. Para sempre. O vazio. Este texto nunca foi escrito.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1113, de 3 de junho | | 28 comentários

As amigas

E quando a Teresa, espantada, respondeu que sim, contou episódios cheios de piada à cerca da Colômbia, de criaturas que transportam a bagagem na barriga

Ontem almocei com a Teresa e divertimo-nos imenso. Depois devia apanhar o autocarro para casa

(havia um homem que não me tirava os olhos de cima mas demasiado velho, feio)

e não me divertir nada com a conta da luz. Abro sempre os envelopes da luz, do gás, da água de coração nas mãos. Com o que me pagam agora no trabalho vejo-me aflita, os descontos aumentam, o ordenado não sobe, o condomínio, esse, não o pago há meses, como é que eu posso? O administrador do prédio

- Assim não vamos lá, Rita

e, de facto, não vamos lá mas já cortei em tudo quanto posso, roupa, cinema, prendas, só se eu cortar a garganta, senhor Borges, e o administrador

- Desde que saia de lá a dívida do condomínio não me importo

a brincar mas a sério, que bem o conheço, com aquele corpanzil a mulher tem um medo dele que se pela. E depois as sobrancelhas grossas aumentam-lhe a ferocidade. Em contrapartida não parece estar mal, ainda há pouco comprou um automóvel novo, como é que ele faz não sei, parece que trabalha à noite, não percebo nada dessas coisas, uma empresa de segurança ou assim, com rapazes quase do mesmo tamanho que protegem discotecas, mas almocei com a Teresa ontem e divertimo-nos imenso, contou-me que está a pontos de trocar o Amadeu pelo Fernando, empregado no aeroporto, que ajuda uns colombianos com a bagagem que trazem na barriga, em vez de andarem com malas, que se podem perder, engolem as coisas, que assim não se perdem nos tapetes rolantes, enquanto o Amadeu vai penando num escritório, sempre com o risco de o mandarem embora porque, como o patrão lhe diz sempre, isto não está famoso, Amadeu, não está mesmo nada famoso, quem se interessa por electrodomésticos agora, vá pensando na sua vida que temos de reduzir o pessoal e o salão de beleza da minha esposa nem para metade das despesas dá, ao passo que o Fernando bijuteria, sapatos, a promessa de um andar em nome dela, com um jacuzi para endurecer as coxas, não quero essa carne mole acima dos joelhos, não quero esse umbigo a tremer quando ris. Mas divertimo-nos imenso ontem ao almoço, quando um sujeito bem parecido pediu para se sentar à nossa mesa porque não havia mais lugares na esplanada

(por acaso havia mas não falámos nisso)

nos fez rir com umas histórias divertidíssimas e, a certa altura, perguntou à Teresa

- Conhece um tal Fernando?

e quando a Teresa, espantada, respondeu que sim, contou episódios cheios de piada à cerca da Colômbia, de criaturas que transportam a bagagem na barriga, e que a Teresa e eu podíamos conhecer episódios com mais piada ainda se o auxiliássemos a descobrir onde despejavam eles a carga: a Teresa explicava-me a mim, eu explicava-lhe a ele e um jacuzi para cada uma que a infelicidade das coxas não poupa ninguém: deixava de ter problemas com a água e a luz e, além disso, o sujeito bem parecido possuía um amigo igualzinho a um actor de novelas que de certeza se iria embeiçar pela Teresa

- Como eu já começo a embeiçar-me pela sua amiga

e dois casamentos no mesmo dia até era coisa bonita, duas raparigas jeitosas com dois rapazes simpáticos, há lá coisa que se compare a relações felizes. Por acaso o tal amigo calhou passar na esplanada, o sujeito bem parecido chamou-o, ele sentou-se ali connosco um bocado, possuía uma voz de fazer desmaiar as pedras, a Teresa, a princípio desconfiada

- Não sei

depois menos desconfiada, sobretudo quando o actor de telenovelas lhe pegou na mão

- Talvez

depois, deixando-o entrelaçar-lhe os dedos nos dela

- Porque não?

depois de acabarmos de rir com uma anedota que metia inglês e um papagaio

- Está bem

os quatro juntinhos, a cochicharmos coisas simpáticas, a Teresa acabou por dizer que os colombianos entregavam os saquinhos que traziam no corpo no seu apartamento e que me dava alguns a guardar por uns dias, o actor de telenovelas para ela

- Começo a sentir-me apaixonado, acredita?

o sujeito bem parecido

- Tiraste-me as palavras da boca, meu malandro

os quatro, eles e nós, maravilhados, felizes, nunca tive um almoço assim, levaram-nos a entregarmos-lhes os sacos, esperámos que o Fernando chegasse a casa da Teresa, ouvimo-lo da porta a chamá-la

- Princezinha

o sujeito bem parecido e o actor de telenovelas puseram-lhe as algemas, puseram-nos a nós também, mas com bons modos, a elucidarem

- São as alianças de noivado

levaram-nos aos cinco para uma casa com um polícia à porta e vários sujeitos bem parecidos lá dentro, antes de nos fecharem cada qual num quarto diferente a Teresa perguntou

- Quando tornamos a ver-nos?

vimo-nos no tribunal, onde eles nos disseram ao ouvido

- Assim que as soltarem ficamos noivos

e a Teresa só teve pena que o Fernando ficasse na prisão durante quinze anos e não conseguisse estar presente na igreja, visto que a gente sete anos apenas, para se alegrar connosco pela nossa felicidade.

 

 

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1111, de 19 de junho | | 4 comentários

Orquídea

Conheces a minha cara de ginja, a minha maneira de mastigar enerva-te, a minha maneira de partir pão enerva-te
Quando, ao jantar, te pergunto

- Estás a pensar em quê?

respondes-me sempre

- Em nada

a estenderes a mão para o galheteiro e não é verdade, estás a pensar

- Porque é que o aturo?

a pensar

- Se não fossem os miúdos fazia a mala amanhã

a pensar

- Como é que eu me meti nisto?

tudo sem me olhares, é claro, conheces a minha cara de ginja, a minha maneira de mastigar enerva-te, a minha maneira de partir o pão enerva-te, a minha maneira de beber água enerva-te, o meu mindinho levantado enerva-te, o facto de espiar a televisão enerva-te

- Tem algum jeito essa porcaria?

até quando limpo a boca te enervo, ou conto histórias do emprego, ou informo que o meu pai piorou do enfisema, tu, calada

- E o que tenho a ver com isso?

achas-me desinteressante, monótono, chato, consolas-te pensando

- Se calhar são todos assim

respondes a ti mesma

- Não acredito que sejam todos assim

embora a maior parte das tuas amigas se lamentem do mesmo

- Já não há paciência, palavra

e, no entanto, continuam com os maridos como tu continuas comigo, a pretextar, na cama, dores de cabeça, sono, cansaço

- Um dia horrível no trabalho

e oxalá não me toque, não me beije, não me acaricie um ombro, oxalá me deixe em paz umas horas, ocupas o mínimo espaço possível na cama, se um dos meus pés te roça por acaso foges logo, quase que deves chegar a desejar-me a morte ou, pelo menos, que eu me evapore do quarto, a luz acesa do meu lado incomoda-te, tapas-te com o lençol, perguntas

- Vais ficar a ler muito tempo?

de modo que dobro o canto da página, poiso o livro na cabeceira, volto-me para apagar a luz e tu

- Importas-te de não puxares a roupa?

tu um novelo de cabelos na almofada que resmungam

- Que coisa

demoro a encontrar o interruptor

- É para hoje, ao menos?

o

- Ao menos

já no escuro, tu de rabo para mim e eu, de barriga para o ar, pensando

- E se te estrangulasse?

pensando na minha colega de gabinete, de madeixas ruivas e unhas de várias cores, sempre atenta, simpática

­- Parece mais novo hoje

com brincos grandes, cada qual, com o seu sininho, a tilintarem, cujo marido faleceu há dois anos não sei bem de quê, uma doença de família que o atacou de repente, a mesma coisa no coração que o tio e o avô, ainda ela não entrara neste emprego, nenhum filho, felizmente, mora com a irmã que trabalha lá em baixo, na contabilidade, também de madeixas ruivas, brincos com sininhos e unhas de várias cores mas mais gorda, mais feia, uma dessas gordas bem dispostas sempre a animarem as pessoas

- Ora viva quem é uma flor

que, nos jantares da empresa, acha graça a tudo, especialmente a um chefe de secção que lhe corresponde à simpatia, já os vi a lancharem no café, já lhes vi os risinhos e a intensidade dela a escutá-lo

- Que giro

já os vi, palma com palma, a compararem o tamanho das mãos e a divertirem-se com a diferença, a afastarem-se espiando em torno, o chefe de secção para ela

- Se sonhasse no que estou a imaginar

e a irmã da minha colega

- A calcular por mim aposto que imagino

eu a um canto a espiá-los, invejoso, a assistir à discussão sobre quem paga, o chefe da secção

- Desta vez sou eu, nem admito outra coisa, aceito que convide para a próxima

enquanto os brincos tilintam felizes, se eu tivesse uma esposa assim, em lugar de pensar em nada pensava imensas coisas, há gorduras agradáveis, há fealdades sedutoras, um dentinho fora do sítio, por exemplo, até aumenta o encanto, a minha colega para mim, preocupada

- Não está triste, pois não?

e eu

- Que ideia, Orquídea

com ganas de dizer-lhe que basta a companhia dela para me sentir melhor e não digo por vergonha, por acanhamento, por ser casado, talvez, e a fidelidade, e essas lérias, escuto os brincos a tilintarem ao meu lado enquanto abro o computador e apetece-me gritar

- Estou alegre

gritar muito alto

- Estou alegre

convidá-la para uma bica a seguir ao emprego, os dois numa mesinha de canto, com o meu joelho quase a tocar o seu, com o meu joelho a tocar o seu, com os meus dois joelhos a tocarem os seus, pegar nos pacotes de açúcar

- Muito ou pouco?

sorrir ao seu sorriso

- Muito

com os meus dois joelhos apertando os dela e, se a minha mulher, já agora

- Estás a pensar em quê?

eu

- Na Orquídea

no tom mais natural deste mundo

- Estou a pensar na Orquídea

e, enquanto ela

- Orquídea

enquanto ela

- Que história é essa da Orquídea?

a Orquídea e eu, palma com palma, a compararmos o tamanho das mãos e a divertirmo-nos com a diferença, a Orquídea e eu, felizes, de sininhos a tilintarem e oxalá me toque, oxalá me beije, oxalá me acaricie um ombro na pensão na rua abaixo do emprego, a compararmos o tamanho das cicatrizes das apendicites, a dela pequenina, bonita e eu, a descer Orquídea abaixo perguntando num murmúrio

- Importa-se que a beije aí?

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1109, de 5 de junho | | 26 comentários

Numa boa página de prosa ouve-se a chuva

Apetece-me sair voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis. 

Da janela vejo uma mulher tirar a roupa da corda, guardando as molas no bolso do avental. Empurra com o antebraço a madeixa de cabelo sempre a escorregar-lhe para os olhos. Adivinha-se uma criança por trás dela ou então sou eu que quero adivinhar uma criança por trás dela, me apetece oferecer-lhe um marido, uma cama de casal para reboliços ao domingo à tarde, alguma alegria, alguma paz, embora marido, cama e reboliços ao domingo à tarde não sejam propriamente os ingredientes da paz. Quais são? Olha, o meu avô sentado numa cadeira de lona no jardim, ao fim da tarde, por exemplo. Foi há muitos anos e ainda me lembro do sorriso e dos olhos que fitavam os canteiros, não vendo nada, satisfeito, tranquilo, de casaco de linho branco. Gostávamos muito um do outro. Às vezes punha-me a mão no ombro. A mulher acabou de tirar a roupa e sumiu-se com ela num alguidar de plástico vermelho. Não é bonita nem nova e, no entanto, a ideia de não tornar a vê-la, sei lá porquê, desagrada-me. Estou sempre a perder as pessoas. E, nisto, dou por mim a pensar no mar. Às vezes no verão, à noite, o som das ondas chegava ao meu quarto, ritmado, triste, juntamente com o menear dos pinheiros. Na cama sentia-me uma sementinha minúscula, perdida na imensidão da terra. Uma sementinha minúscula, uma partícula de nada. Estou quase em condições de começar um livro, preciso apenas de me esvaziar um pouco mais de mim mesmo, e que a voz que começo a escutar principie a ditar-mo. A primeira frase não me larga a cabeça, há outras que surgem e desaparecem, não se fixaram ainda: tremem ao longe, indecisas. Mas pode ser uma falsa partida. Cesso de escutar o mar.

Parece-me que escrevo esta crónica a fim de habituar a mão ao papel. "Numa boa página de prosa ouve-se a chuva."

Agora escureceu e os candeeiros acesos da rua empalidecem as folhas das árvores. Desde a infância a noite continua a ser um mistério para mim, e a chegada da manhã um lento milagre cor de rosa pálido. Quando estava internado no hospital, sem conseguir mexer-me, esperava por ela numa ansiedade inquieta, implorando, sem palavras

- Salva-me, salva-me.

Sofri bastante na enfermaria mas ninguém, creio, me escutou uma queixa. Estava a meio de um livro, custava-me imenso a ideia de não poder acabá-lo. Que eu consiga terminá-lo, era o que repetia para dentro, que ao menos consiga terminá-lo, cheio de tubos no corpo. Era O Meu Nome É Legião, salvo erro. Ao voltar para casa demorei séculos até ser capaz de pegar na caneta. Exausto. Cheguei ao fim daquilo feito em papas, no meio de quimioterapias e radiações. Numa boa página de prosa ouve-se a chuva. Eu ouvia apenas os gritos mudos da minha aflição. Consegui escondê-la mais ou menos.

A mulher da roupa na corda não voltou. Fico eu aqui, com este papel, este textinho. Que horas são? A luz do candeeiro aumenta a sombra das minhas mãos, a esferográfica ameaça falhar. Apetecia-me ter a minha tia Madalena perto de mim com o seu olhar terno

- Filho

que sempre me fez sentir amado e, portanto, indestrutível. Na rua uma discussão qualquer, passos que correm. As árvores imóveis nesta rua de prostitutas, travestis patéticos, minúsculos comércios, restaurantezitos modestos. O quiosque lá em cima, a estrangeira sem abrigo a pedir esmola num idioma incompreensível. A quantos invernos já sobreviveu, a pobre? Onde dormirá? Sozinha sempre, embrulhada em trapos miríficos. Onde come, o que come? Onde dorme? Passeia sem descanso de semáforo em semáforo, de palma estendida. Não insiste, vai-se embora. Um homem toda a tarde, em frente de um café vazio, naquela esplanada pequenina. Nunca o vi acompanhado.

O travesti de barriga ao léu, em roupa interior debaixo do casaco, que nenhum cliente procura. Aqui há semanas dois deles à pancada

- Vou fazer queixa ao meu marido, vou fazer queixa ao meu marido

e três ou quatro automóveis, com sujeitos dentro, a desfrutarem a cena. Depois de todos se irem embora a impressão, no meio do silêncio, de que a briga continua. Numa boa página de prosa, etc. A janela da corda de roupa fechada. Talvez para a semana comece o livro. Talvez nunca o comece. Apetece-me sair voando como os morcegos, a soltar gritos inaudíveis. Hoje almocei com a minha filha mais velha que, para mim, nunca cresceu. Sempre que me chama

- Pai

continuo a comover-me. Claro que não lhe menciono isso mas continuo a comover-me. Nunca crescem, os filhos. Digo

- Canhica

como, em Kimbundo, se mencionam as crianças

- Canhica

enquanto o senhor, por trás do balcão, fala da guerra em África. Sempre que o vejo apenas fala da guerra em África. Já me informou dúzias de vezes 

- O meu irmão embarcou a seis de janeiro, no mesmo barco que o doutor

como se esse facto criasse um laço especial entre nós. O irmão cozinheiro, ele apontador de metralhadora, evacuado para Lisboa a seguir a uma desgraça qualquer. Até hoje permanece lá. Numa boa página de prosa ouve-se chover. Aperto-lhe a mão, venho-me embora. Uns metros adiante demoro-me um pedaço a olhar os caixotes de legumes de uma mercearia. Sozinho. Se a sem abrigo aparecesse inventava uma língua especial para conversar com ela.

António Lobo Antunes | | 45 comentários

Todos nós temos na vida uma ilusão mais querida

Levaram-na ao cabeleireiro porque vinham os filhos jantar, puseram-lhe um anel no dedo, um broche no peito. Quando morrer vende-se esta casa e a casa da praia, a família acaba.
Ontem, já à mesa, perguntei à minha mãe como me chamava e, na cara dela, uma espécie de sorriso vazio, perplexo
- Como te chamas?
em busca do meu nome, que se vai diluíndo, a pouco e pouco, em si. Repetiu
- Como te chamas?
do seu deserto interior onde apenas, numa vaga escuridão, silhuetas imprecisas, distantes, que não reconhece
- Como te chamas?
suspensa num silêncio oco. Pergunto
- Como se chama o meu pai?
os seus dedos encontram os meus no braço da cadeira
- O teu pai?
Levaram-na ao cabeleireiro porque vinham os filhos jantar, puseram-lhe um anel no dedo, um broche no peito. Quando morrer vende-se esta casa e a casa da praia, a família acaba. O meu pai e o meu irmão Pedro morreram, cada vez me sinto mais entre destroços. Dentro em pouco estaremos distantes uns dos outros, na mesma cidade e distantes. Um telefonema de vez em quanto, raros encontros, esta sombra, que foi a nossa mãe, deixará de unir-nos. De súbito pronuncia o meu nome baixinho
- António
e afasta-se de novo, marchando no seu deserto, indiferente. O
- António
dela não tem o menino que fui dentro, o eco de um eco apenas, um ventinho sem significado remexendo poeiras, os dedos roçando nos meus, pequeninos, suaves. Porque é que deixou que isto acontecesse, mãe, como se ela tivesse culpa de se ir afastando de si mesma, da gente.
- Chamo-me António e o meu pai João
e o que parece um esboço de sorriso num esboço de cara. Recordo o meu pai morto na clínica, o seu perfil indiferente. Recordo o Pedro a acender um charuto. Recordo a minha mãe a cantar

Todos nós temos na vida
Uma ilusão mais querida
Uma ilusão de amor

e não sei se me comovo. Parece-me que mais surpresa do que emoção. Era afinada, ela, gostava de a ouvir. Dava-nos injeções quando estávamos doentes, punha-nos supositórios. O suplício
- Chega-te aqui à luz
de me cortar as unhas
- Não te mexas
e o meu pânico de ficar sem dedos, a tesoura, apesar de diminuta, atroz. Medo do escuro, gritar
- Mãe
e ela, invisível, longíssimo
- Que maricas.
Lembro-me de lhe afirmar, criança
- Sou escritor, sabia?
e a minha mãe um riso divertido, ela que ria pouco, a fitar-me de cima para baixo, onde eu existia
- Já a formiga tem catarro
e, passado um bocadinho
- Escritor, imagine-se.
O meu pai, à mesa
- Com que então escritor?
A cheirar a tabaco de cachimbo e a brilhantina. Não quero perder isto, não quero perder tudo isto.

Todos nós temos na vida
Uma ilusão mais querida
Uma ilusão de amor

e, em lugar da ilusão de amor, silhuetas imprecisas, distantes. Esta não é a minha mãe, estes não são os meus irmãos, este não sou eu. E a casa, meu Deus, tão velha agora: esta não é a minha casa, é o sítio onde a minha mãe tropeça, com uma senhora a tomar conta dela e a dar-nos notícias
- Um bocadinho confusa, coitada
e não é que esteja confusa, minha senhora, eu é que não entendo. Já não existe a capoeira, já não existe o limoeiro, o quarto onde dormi tantos anos com o João, o Nuno, de babete, abraçado a um Pluto de borracha. O meu pai no escritório, ao microscópio. Cigarros às escondidas. Uma cobra no jardim. O vizinho polícia
- Tão bonitos, tão loiros
o louco sempre com gaiolas de passarinhos, a taberna na rua que conduzia ao cemitério e que se chamava Na Volta Cá Os Espero. Houve protestos e passou a chamar-se A Tradicional Da Volta, eternamente cheia de bêbedos aos gritos, aos abraços, a sentarem-se no chão.
- A maré está alta
resmungavam eles
- Hoje a maré está alta
E nós mudávamos de passeio, assustados. A mercearia do Careca. O senhor Jardim, distinto, na drogaria, tão simpático. A empregada que me roubou o fio de oiro com a medalhinha de Santo António que o meu avô me deu em Pádua. Ao protestar gritou-me
- Vá meta isso no cu da sua mãe
e eu fui. Mas o fio desapareceu para sempre, conforme o meu nome desapareceu para sempre da cabeça dela. Silhuetas imprecisas, distantes. Chamo-me António. Julgo que me chamo António, quieto no meu deserto, indiferente. Quando acabar esta crónica levanto-me e, como a minha mãe, principio a andar ao acaso, cantando para dentro

Todos nós temos na vida
Uma ilusão mais querida
Uma ilusão de amor

Enquanto um miúdo loiro me observa em silêncio, maravilhado.
António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1105, de 8 de maio | | 15 comentários

A vida é um ai que mal soa

A equipa do Benfica estava toda encaixichada na parede, incluindo um médio chamado Alfredo, de alcunha o Três Pés, dois para jogar e o terceiro destinado a bater no osso

A minha avó, de quem eu gostava muito, morreu comigo em casa dela. Já era médico mas ainda não tinha ido à tropa e tentava tratá-la. Lembro-me da minha mãe a fazer-lhe festas nas mãos e na cara. Quando tudo acabou saí do prédio e fui a uma cervejaria próxima, chamada Prego de Oiro. Sentei-me num daqueles bancos altos do balcão, onde vários homens bebiam cerveja e comiam tremoços e pedi também uma cerveja e tremoços, para além de uma sanduíche de fiambre. Antes de me servir o empregado deu uma esfregadela no balcão com um pano e eu comecei a mastigar. Não pensava em nada. Juntamente com os outros fregueses estava ali o marido da irmã mais nova do meu pai, que era veterinário. Uns anos depois pedi-lhe para capar um gato que eu tinha, e ele mandou-me os testículos do gato dentro de um frasco, cujo rótulo dizia Pertencem ao dr. Lobo Antunes. Gostava dele. Por exemplo, antes de se ir embora explicava

- Para citar Alexandre Dumas estou farto

ou

- Como anunciava Victor Hugo boa noite a todos

e, para agradecer qualquer coisa, em lugar de

- Obrigado

desejava

- Deus nosso Senhor lhe dê saúde e boa sorte

e permanecia um momento a olhar para nós com um fervor triste. Era especialista em inseminação artificial de vacas e acompanhei-o muitas vezes aos domingos, a assistir àquilo. Havia um colega no consultório dele onde uma vez uma senhora apareceu com o canário doente e o colega pôs o termómetro debaixo da asa do canário. Embora fosse muito rico vestia-se à balda e nunca me aborreci com ele. Quando os meus irmãos e eu entrávamos, em matilha, na sala da minha outra avó, cumprimentava-nos sempre com a mesma saudação

- Ah cãzoada

e eu simpatizava com ele porque era diferente das outras pessoas e tinha paciência para mim. Enquanto comia a sanduíche no Prego de Oiro disse-lhe da morte e ele ficou que tempos a olhar-me atrás dos óculos, sem me tocar, com uma expressão que cheirava a abraço. Depois, com um sinal dos dedos, mandou que me trouxessem uma segunda cerveja. Jantei várias ocasiões em sua casa por ser uma das raras pessoas que conheci cujo silêncio era confortável. Nunca o vi zangado, e também nunca tinha visto a minha mãe fazer festas na mãe dela. Nem na mãe dela nem em ninguém, seca como um carapau. Agora está mal, bastante mal: nós, a cãzoada, andamos um bocado à brocha com aquilo. Até sou terno para ela, palavra de honra, e sinto que a minha família está a desfazer-se. Preciso de encontrar com urgência o frasco onde o marido da minha tia mais nova me meteu os testículos, dois penduricalhos a flutuarem no que supus ser álcool um bocadinho escuro. Recordo-me que o gato castrado engordou como um sultão. A cervejaria Prego de Oiro já não existe, com a sua alcatifa de cascas de tremoços e os clientes a falarem de bola e de gajas:

- Comeste-a, ao menos?

- Está quase

duas ou três semanas depois

- Já comi

umas palmadas nas costas para festejar

- Grande Domingos!

e festejar também o Benfica ter amandado três nuns paralíticos, segundo um sportinguista invejoso, que teimava

- Até de cadeira de rodas se ganha a esses artolas

convicto mas um bocado a medo porque a equipa do Benfica estava toda encaixichada na parede, incluindo um médio chamado Alfredo, de alcunha o Três Pés, dois para jogar e o terceiro destinado a bater no osso. Dizem que entrava em campo numa jaula e o sportinguista, só de pensar que o Alfredo podia atravessar o vidro, encolhia-se como um bicho da conta. Era tão terrível que ainda sei o nome inteiro dele, Alfredo Abrantes Abreu e nunca assisti a um jogo do Alfredo porque não varreram cadáveres no fim. Só o grande Domingos, que comeu a gaja, se permitia olhá-lo de igual para igual. Mas informou a rapaziada que a gaja comida tinha uma irmã que aconselhou em torno, inclusive a mim, com o melhor elogio que se pode fazer a uma mulher

- Dá ares de aquecer como um chá

enquanto um murmúrio esperançado percorria as cervejas. Portanto o dia da morte da minha avó foi cheio de emoções, comigo dividido entre a tristeza e o desejo, que a vida é assim mesmo: a minha mãe às festinhas à mãe dela e a rapaziada em ebulição. O Domingos, depois dos pêsames, animou-me

- Aqui o doutorinho é que era homem para ela, sempre todo pinoca

e o marido da minha tia mais nova foi suficientemente discreto para não mencionar os meus testículos no frasco. Ainda lhe estou grato por isso. Hei-de recuperá-los um dia porque nalguma gaveta hão-de estar. E então, todo armado, posso procurá-la nos bailes do Fójó

- Quer dançar?

com o Domingos, ao longe, a comprimir as palmas uma contra a outra na minha direção

- Aperte com ela, doutorinho

isto passado um mês de luto para não ofender ninguém, que há regras para tudo. Chamava-se Natércia e nunca mais a vi. Aliás não tinha direito àquilo. Primeiro por ser um bocado gorda e depois porque, comparado com o Três Pés, por exemplo, quem era eu? A juntar a isso dali a nada entrava na tropa e lá se me ia o cabelo. O funeral da minha avó teve bastante gente se incluirmos a cãzoada. Ainda chorei umas lágrimas e não me sentia inclinado a abraçar uma gorda e agradecer no fim

- Deus nosso Senhor lhe dê saúde e boa sorte

embora ela queixosa de a ter pisado uma porção de vezes. Para citar Alexandre Dumas não me apetecia.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1102, de 16 de abril | | 14 comentários

Dorme que eu velo sedutora imagem

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam
A vocação artística tem um forte componente genético que, em mim, é evidente: chegou-me direitinho do meu avô. Não é que lesse muito: para ser sincero nunca o vi ler livro nenhum, embora houvesse em casa meia dúzia de romances brasileiros, a terra de onde veio, Alencar, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Machado, Pompeia, que jamais saíram de uma estantezeca lá ao fundo, mas recitava à gente, seus netos, poesia de qualidade, que muito fez para me entusiasmar pela possibilidade de transmissão das emoções através das palavras. Pedíamos-lhe, trémulos de entusiasmo
- Ó avó recite lá
e ele, aumentando na cadeira

Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.

Diz-lhe um amigo: - Que louco para que queres isso tu?
- É para alegrar um pouco o triste olho do cu.

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam, velocidade acompanhada de um
- Francamente
escandalizado, o que prova como podem ser diversas as reações à beleza. A fim de tentar a unanimidade o meu avô iniciava, de imediato, um excerto do grande lírico do século dezanove, Tomás Ribeiro

Dorme que eu velo sedutora imagem
grata miragem que no ermo vi

que as agulhas pareciam aprovar, se não fosse o caso de o meu avô introduzir aqui o seu cunho tão pessoal, que torcia um tudo nada a estrofe:

Enquanto dormes uma dor me ataca
vou fazer caca pensando em ti

e, em resposta, os  
- Francamente
se multiplicarem, acompanhados de discursos acerca da vulnerabilidade das crianças e o perigo de futuros deletérios, de bebida e pecado, para as pobres crianças que éramos, para além de nos afastar da religião e do santo respeito pelas coisas sagradas como, por exemplo, quando íamos pela rua com ele, passava um grupo de freiras, nas suas vestimentas de andorinhas fúnebres, com  o crucifixo ao pescoço, o meu avô, sonoro

As Irmãs da Caridade
têm um buraco no cu
que lhes fez o padre cura
com a chave do baú

e a família, em escândalo, a pedir perdão ao Santíssimo, enquanto o meu avô, enorme, plantado no passeio, fumava ao mesmo tempo a boquilha e um sorriso, mal sonhando o futuro que o esperava, a arder, sem remissão, no inferno. No meu entender não lhe passavam pela cabeça as consequências, por vezes graves, da Arte. A título de exemplo, e gosto da expressão a título de exemplo que me aproxima da elegância formal dos nossos dirigentes, uma das filhas teve, finalmente, o primeiro, ia a escrever rebento, foi por pouco, o primeiro crianço e levou-o ao pai que, na sua ideia, ia vibrar de contentamento com mais aquela vergôntea da sua árvore. O meu avô estudou-o com atenção
- E como se chama ele?
a minha tia respondeu, com natural e legítimo orgulho
- Francisco António
O meu avô quedou-se paralisado na cadeira, a remoer memórias do seu Pará distante, com a família à espera da reação
(as reações do meu avô, em geral, eram inesperadas)
que tardou mas veio. O meu avô pôs-se de pé num pulo, com a cara cheia de infância, e fez tremer as paredes vociferando a seguinte cantilena

Francisco António da Costa Braga
nosso amigo e protector
para proteger os seus artistas
mandou fazer uma chapelaria a vapor

e, após uma pequena pausa, mais forte ainda
- Póróróró vapor.

Durante toda essa tarde, de cinco em cinco minutos, o meu avô berrava
- Póróróró vapor

até que lhe tiraram o Francisco António da frente. Mesmo assim um eco estupefacto
- Francisco António não lembra ao diabo
e, num fio
- Póróróró vapor
Durante anos, até à sua morte, quando eu tinha dezoito, volta e meia piscava-lhe o olho, inclinava-me para ele, segredava
- Póróróró vapor
e, por um bocado, palavra de honra que nos sentíamos felizes. Experimentem.
António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1100, de 3 de abril | | 5 comentários

Mercedes

Espreito a dona Mercedes com mais interesse e encontro os olhos dela fixos nos meus e uma espécie de suspiro a aumentar e diminuir o peito considerável

Desde que me reformei ando para aqui como um fantasma. Ligo a televisão, aborreço-me, desligo a televisão, abro o jornal, aborreço-me, poiso o jornal, deito-me para uma sesta, não durmo, levanto-me da cama, vou lá baixo ao café, peço um café, deixo-o esfriar sem dar por isso, volto para casa ou fico a olhar uma mesa de viúvas, uma delas de cãozito ao colo, a dar-lhe bocadinhos de biscoito, conversando de netos e doenças, que é mais ou menos a mesma coisa, ignorava que houvesse tanta criança inteligente e tanta angina em Portugal, as viúvas de cabelo pintado de loiro e o pó de arroz a flutuar-lhes em torno, não pegado à cara, com mais perfume do que carne, percebo que baixam a voz para falarem de mim

- Não é nada mal aquele

apesar de me faltar cabelo e da placa dos dentes, aperfeiçoo a gravata para ficar menos mal ainda, dou um jeito às têmporas, uma, a mais gordinha, não me tira os olhos de cima, usa anéis enormes, em quase todos os dedos e, de vez em quando, dá a impressão que me sorri. O dono do café, no meu ouvido

- A dona Mercedes parece que simpatiza consigo senhor Pinto

e, confidencial

- O marido deixou-a bem na vida

o que não me aquece nem me arrefece, mentira, aquece-me um bocado, faz sempre jeito, espreito a dona Mercedes com mais interesse e encontro os olhos dela fixos nos meus e uma espécie de suspiro a aumentar e diminuir o peito considerável, uma segunda viúva para a dona Mercedes

- O cavalheiro elegante simpatiza consigo

a dona Mercedes baixa os olhos, aumenta o pó de arroz das bochechas e fita-me de novo, uma terceira viúva

- Vai acabar em romance não tarda

volto para casa envergonhado, moro mesmo em frente do café, num prédio com o salão de beleza Recupere a Mocidade no primeiro andar e eu três assoalhadas por cima da mocidade recuperada, há quinze dias, na minha caixa do correio, para além da publicidade do costume e do aviso habitual das Finanças, que não tem mais nada que fazer senão incomodar-me, um sobrescrito cor de rosa com o meu nome no lado do destinatário, Mercedes Esteves, numa caligrafia caprichada, no lado do remetente, no interior uma página cor de rosa também, com um par de pombinhos azuis a segurarem, cada qual, a sua ponta de um laçarote branco e a mesma caligrafia caprichada

Exmo. Senhor o telefone da minha residência é o Tal e Tal, aguardo com esperança uma comunicação sua Respeitosamente Mercedes do Carmo Guerreiro Esteves, com um arabesco na ponta, que uma rosa terminava, e o baton de um beijo, ou não mencionando um cheiro tão espesso, tão forte, tão vivo, que tive de me encostar à parede para não cair. Deixei imediatamente de ser um reformado fantasma, subi as escadas numa leveza de vinte anos

(tenho setenta e cinco)

sem ligar à televisão nem ao jornal, não me deitei para uma sesta, não dormi, marquei o número

uma primeira vez, respondeu-me uma voz solene

- Agência o Céu é Seu, funerais, trasladações

percebi que tinha trocado um três por um nove, marquei de novo, com o coração irregular, uma criatura bem na vida prédios, terras, se calhar uma casa na praia, que são coisas que naturalmente perturbam os ventrículos, um

- Siiiiiiiiiiim?

de veludo transtornou-me a orelha, respondi num gaguejo

- Chegou-me uma carta

recebi uma pausa comovida em que se embrulhou um

- Estava com tanto medo que me tivesse esquecido

consegui a custo

- Como podia esquecê-la?

que continha dúzias de anéis e um sorriso no topo, e encontrámo-nos nessa tarde num café diferente, longe das restantes viúvas, eu a cabeleira loira e um vestido prateado que lhe acentuava os volumes, silenciosos um diante do outro, tímidos, nervosíssimos, a partilharmos um chazinho de tília, segurando a asa da chávena de mindinho em antena até os mindinhos se tocarem, se entrelaçarem, se prenderem, explicar-lhe

- Chamo-me José Pinto e sou reformado do Exército

sem acrescentar que no posto de sargento, não cheguei a oficial por preguiça, escutei a palavra

- Exército

num suspiro feliz, completado por um

- Um homem viril

e talvez viril, de facto, embora trabalhasse de escriturário, há escriturários marciais, capazes de se sacrificarem pela Pátria, o mindinho dela enrolou-se-me no pulso

- José

o meu mindinho enrolou-se no seu pulso

- Mercedes

a sentir, palavra de honra, o beijo do papel na minha boca, delicado, suave, um joelho contra o meu, um sapato a pisar-me com doçura

- Se sonhasse como me faz feliz, José

apesar de um dos anéis me trilhar um bocadinho a pele, o apartamento dela tão feminino, naperons, rendas, bonecos de loiça, quadros com ninfas, uma sereia quase de mármore, novelos de tricot num cestinho, um hamster a pedalar a sua roda, nós perto um do outro num sofazito de verga onde o decote aumentava, o cãozito estendido numa almofada a olhar-nos numa amizade compreensiva, e nisto um sujeito com o dobro do meu tamanho e metade da minha idade a puxar-me a gravata

- Quem é este moinante?

empurrando-me para o patamar

- Pisga-te

fazendo-me tropeçar nos degraus, desequilibrar-me, equilibrar-me, desequilibrar-me de novo, o sujeito a censurar a Mercedes

- Nunca mais tens juízo cretina?

a acrescentar

- É o quinto este mês

a Mercedes chorosa

- Já não posso receber amigos?

seguido de

- Não me deixes, Moisés

seguido de

- Juro que não volta a acontecer

e não me lembro de mais nada porque um vaso de flores, atirado pelo Moisés lá de cima, me acertou na cabeça. Aliás não tenho tempo de continuar a crónica: é hora de ir ao Centro de Enfermagem mudar a ligadura do penso.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1098, de 20 de março) | | 3 comentários

Cacilda

A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa

Se alugasse um dos quartos ajudava-me a pagar a renda da casa, se alugasse os dois dormia na sala mas ficava com a renda paga. Encolhendo-me dá para caber no sofá, o problema é a coluna, o médico preveniu

- Tem que dormir direita

e eu, de manhã, toda torcida, sem me conseguir mexer, afligida pela claridade que entra pelas persianas e me acorda logo de madrugada, puxando-me de sonhos confusos, com as pernas dormentes, não mencionando que os hóspedes têm que passar por aqui se querem ir à cozinha e o barulho dos chinelos, pssss, pssss, pssss, arrepia-me. Claro que finjo que continuo a dormir, claro que finjo não reparar nos gestos feios que atiram na minha direção e na palavra

- Velha 
que, sinceramente, aos cinquenta e seis anos me dói, embora concorde que pareço mais do que a minha idade, também é natural com a vida que tive, o trabalho de limpeza no armazém, o meu marido com o problema do álcool, que o vinho dava-lhe para a bruteza

- Andas a enganar-me sua vaca

eu que nunca o enganei, palavra de honra, aceitei uma ocasião um beijo de um vizinho e fugi logo, nem sei como aquilo aconteceu. O vizinho, que era viúvo, teve um ataque um mês depois, os bombeiros levaram-no e até hoje. Das duas uma, ou bateu a bota ou está, de boca à banda, num lar, sem conhecer as pessoas. Se aquilo acontecesse comigo o que preferia eu? Bater a bota ou ficar para ali, a receber uma sopinha que nem consigo engolir, de fraldas, a cheirar a comida azeda, no meio de colegas de fraldas, a cheirarem a comida azeda, ao lado de um sujeito que grita o tempo inteiro? Talvez bater a bota e ter sossego, mas quem me irá pôr flores na jarrinha da lápide? E quem me garante que não se ouvem, lá em baixo, as conversas dos vivos

- Sabe o que me disse o médico, dona Isaura?

ou

- Ao menos com ele ali quietinho tenho paz

e bengalas que se afastam no sentido do portão

- Caiu na asneira de confiar em doutores

misturadas com latidos de cães e aquelas máquinas infernais, de consertar passeios, a estremecerem o mundo, obrigando os ossos da gente a chocalharem sem fim. Isto optando por não referir a hipótese de esbarrar com o meu marido entre raízes

- Andas a enganar-me sua vaca?

à procura de um calhau perdido para me aleijar com ele, comigo a tentar escapar de campa em campa

- Deixa-me em paz, Dionísio

ou o vizinho do beijo, a cheirar a comida azeda

- Sua jeitosona sua jeitosona

prendendo-me a saia numa gargalhadinha feroz.

Portanto estou num dilema, como dizia o meu chefe

- Estou num dilema entre despedir o Cosme e não despedir o Cosme 

porque o Cosme se abotoou com uns dinheiros da caixa, a justificar-se

- É por conta dos três meses de ordenado que me deve

e, além disso, media um metro e noventa e tinha um cunhado polícia. Mas alugar um dos quartos ajudava-me a pagar a renda e almoçar de vez em quando uma postazita de peixe com grelos por causa da dieta

(o médico

- Peixinho, peixinho, que é mais saudável do que caviar)

mastigada sem pressa a fim de durar mais tempo. E depois pode ser que o hóspede deixasse umas sobras no balde, no meio de cascas e, com sorte, talvez descobrisse por lá um restito de febra. A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa. Já não me fiam na farmácia, a dona da mercearia faz que não me conhece, até se fartar de me ver palpar melões e me gritar

- Andor

ela que, durante anos, considerei uma amiga, casada com um homem no género do meu marido, permitindo-nos comparar más sinas e nódoas negras. Ainda pensei procurar o meu chefe mas quem aceita uma empregada de limpeza de cinquenta e seis anos, mesmo mostrando o bilhete de identidade

- Está aqui no cartão, repare

competente, educada, honesta? Talvez o melhor seja deixar esta casa com os tarecos e tudo, e sair para rua ao acaso. É capaz de haver lugares vagos debaixo das pontes ou nas entradas dos prédios, é capaz de existirem homens decentes

- Velha mas jeitosona

desejosos de dividirem comigo os cobertores, o caldo da paróquia e o sabão do balneário público, capazes de me oferecerem metade do seu degrau no coreto

- Agarradinhos cabemos

e dormimos um contra o outro, na eventualidade de não ressonarem muito, com um rafeiro, preso por uma corda, aos pés, aquecendo-nos os joanetes, e passarmos as tardes num banco de jardim, lado a lado, disputando migalhas aos pombos, apanhando-as com um prego espetado no fim de uma vara, ou até, com sorte, apanhando um pombo mais distraído e chamar-lhe faisão.

António Lobo Antunes, (comentário publicado na VISÃO 1096, de 6 de março) | | 1 comentário

A caixa das cinzas

Às vezes, a meio da noite, parece-me que tosse mas deve ser ideia minha. Fica na sala e não me puxa os cobertores nem me dá joelhadas. Também não tenta despir-me a camisa aos arrepelos. E encontro-o de manhã no seu esconderijo, sossegadinho, sem remexer na lata do café. A minha cunhada afirma que ele agora são cinzas inofensivas

O meu marido foi cremado anteontem e no fim deram-me uma caixa com ele lá dentro. Fiquei na dúvida se estava inteiro numa caixa assim pequena, porque era grande e gordo, apeteceu-me abrir a tampa para espreitar mas tive medo que uma das mãos lhe saltasse, no beliscão do costume

- Ai meu bonbom

de maneira que o deixei ficar lá dentro, sem me apertar a bochecha. Está ali na cómoda, quietinho, nem um ai, não me aborrece quando mudo o canal da televisão

- Põe-me essa porcaria na bola

e, pela primeira vez, assiste às novelas comigo sem protestar. Sem nenhum som aliás, nem sequer borbulha. Às vezes, a meio da noite, parece-me que tosse mas deve ser ideia minha. Fica na sala e não me puxa os cobertores nem me dá joelhadas. Também não tenta despir-me a camisa aos arrepelos. E encontro-o de manhã no seu esconderijo, sossegadinho, sem remexer na lata do café. A minha cunhada afirma que ele agora são cinzas inofensivas. Um dia destes uso uma pitada ou duas a fim de animar as sardinheiras, mas o beliscão

- Ai meu bonbom

retém-me e um jogo da bola com ele ao lado no sofá, a dar murros na almofada quando perdem um golo

- Olha-me aquela arbécola

retem-me mais ainda, porque às vezes o murro, em lugar da almofada, acerta-me na coxa enquanto, na novela, a rapariga, que não é uma actriz de confiança, troca a mãe doente pelo filho do patrão. Nunca foi boa rés, essa: ainda o ano passado, nas Rosas da Ignomínia, enquanto não obrigou a irmã gémea a emigrar não descansou. Depois, claro, casou com o engenheiro, que agora é padre e tenta compor as coisas, o que são as pessoas, enquanto a irmã gémea mudou de canal para não ter de emigrar de novo. Já a espreitei um episódio ou dois. Hoje é rica e faz a vida negra ao marido, que um acidente de automóvel atirou para uma cadeira de rodas e só quer o bem dela. Antes de se tornar paralítico foi pianista no Vamos Dançar? e cirurgião cardíaco no A Promessa do Céu, onde salvou a vida a uma rapariga com quem mais tarde casou. Com estas mudanças todas não estou certa que o casamento continue. Aí concordo com o meu marido, o futebol é mais simples: só arbécolas e um que ele chama o Grande Eurico, que marca os golos todos. Quando erra passa de Grande Eurico a Eurico de Merda. Ultimamente, antes de o meu marido se tornar cinzas era mais Eurico de Merda do que Grande Eurico. O meu marido começou a desprezá-lo.

- E perdes-me isso, e perdes-me isso?

E dali às cinzas foi um passinho. Se por acaso me cruzasse com o Eurico na rua não lhe falava mas, por sorte dele e minha, nunca nos encontrámos, que eu tenho o meu temperamento e, volta não volta, exalto-me. Ninguém me tira da cabeça que o futebol não é culpado da minha viuvez e da caixa das cinzas em cima da cómoda da sala. E deixei de ser bonbom para me tornar uma viúva que ninguém belisca. Nesse ponto a minha cunhada argumenta que viúvas de sessenta e três anos só são beliscadas por ceguinhos, para além do respeito que o luto inspira. Nem no autocarro nem no metro se encostam a mim, quanto mais beliscões. Ainda por cima a perna esquerda começa a arrastar-se e já não pinto o cabelo. Enraivece-me que a minha cunhada, da minha idade, esteja ali para as curvas, até as unhas pinta e anda lampeira que é um regalo. É injusto e estas desatenções de Deus fazem-me pensar que uns são filhos e outros enteados. Provavelmente se o meu marido fora da caixa nenhum

- Bonbom

para amostra, um resmungo

- Nem para atacadores já serves

a piscar olhinhos marotos à dona da capelista que me aponta com o dedo convencida que eu não topo. Topo mas engulo, não vá a palmada na cadeira passar do Grande Eurico para mim. O meu marido sempre foi um homem que sabe o que é ser homem e, apesar do meu temperamento, topo muito bem quando é preciso tirar os cavalinhos da chuva. Mesmo diante da caixa das cinzas contenho-me que a gente nunca tem a certeza do que o destino reserva. Ando cá a pensar em guardá-las na despensa, atrás dos boiões das compotas, a fim de me poder expandir um bocadinho no caso de me dar na gana, sem que o meu marido perceba. É que não estou muito a par do que se esconde dentro da caixa, se o

- Meu bonbom

se a palmada, que mais de uma ocasião passou da almofada para mim, o dentista que o diga. Mal eu entrava a porta perguntava logo

- O seu esposo excedeu-se outra vez?

e, no meio da broca, ouvia-o suspirar

- O que eu poupava de maçadas se fosse como ele

mas não era coitado: um lingrinhas raquítico que a mulher trocou pelo protésico e ele nem pio. Se calhar, pensando bem, talvez me desse boa vida. No caso de me aborrecer ordenava

- Calou

e ele, sem broca para se defender, manso que dava  consolo. E tinha alguém ao meu lado, à noite, na cama, sem me puxar os cobertores, deitado na outra bordinha para não incomodar. Se me chegasse a sede, às quatro da manhã, uma cotovelada

- Traz-me um copo de água

e ficava a ouvi-lo afastar-se na direcção da cozinha, voltando com a água e um pires por baixo. Acabava de beber, ordenava

- Põe isso tudo no sítio, não me apetece tralha por aqui

e pode ser que, de quando em quando, o deixasse tocar-me com a mãozinha hesitante. Mas ao de leve, claro, que já não me sobra paciência para poucas vergonhas e, além disso, sei lá do que a caixa das cinzas é capaz.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1094, de 20 de fevereiro | | 8 comentários
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