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Praça da Canção

Manuel, não imaginas quanto estiveste comigo em África e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca saímos de lá. E tu ajudaste-me naquele exílio muito mais do que imaginas

Passei a Faculdade a escrever. Não estudava, não ia às aulas, houve exames a que nem sequer compareci.

Ainda hoje me espanta a paciência com que o meu pai aturou isso tudo, ele que era muito autoritário e, por vezes, violento. Argumentava que queria ser escritor, não queria ser médico, soube muito mais tarde que o meu pai, para meu espanto, tinha a certeza que eu tinha talento embora não lhe mostrasse o que fazia: periodicamente queimava tudo junto à figueira do quintal, depois soube que ele ia lá sem me dizer nada, lia os restos que ficavam na cinza e copiava-os para um caderno verde. O meu pai possuía um respeito sagrado pelos artistas e talvez, na sua cabeça, pensasse que eu era um deles, enquanto eu, pouco mais do que um miúdo, vivia atormentado pelas minhas deficiências, sempre a dizer-me

- Ainda não é isto, ainda não é isto e levei vinte anos a encontrar o que seria a minha voz, quando me apareceu a Memória de Elefante. Disse

- Ainda não é isto mas acho que descobri o caminho.

E, depois, seguiu-se o trabalho de fazer crescer aquilo tudo. Mas, nessa altura, já havia terminado a Faculdade de Medicina, já havia passado mais de três anos na tropa, já vivera os horrores de África. Até então fora o tormento do curso, que o fez sofrer a ele e me aborrecia a mim. Mal começava a estudar pensava logo

- Devia estar a escrever e voltava aos poemas péssimos e à prosa mais do que medíocre de que então era capaz, certo que, escondido, morava em mim um grande talento. Não certo, certíssimo, ao ponto de sacrificar fosse o que fosse à literatura. Pai, agradeço-lhe a paciência que teve para comigo, peço-lhe perdão de o haver humilhado com a miséria das minhas notas, agradeço que no fundo de si, embora nunca mo dissesse, me haja compreendido. A certa altura, a meio do curso, aconteceu uma coisa que me abalou muito. Era o final dos anos 60, em que os estudantes se levantavam contra a ditadura: cargas policiais, violência, prisões. Tudo isto me passou um bocado ao lado, entregue, como estava, à minha luta com as palavras. Um colega, no hospital, entregou-me, com grandes pedidos de segredo, um maço de folhas policopiadas. Na primeira página estava escrito Praça da Canção e, por baixo, o nome do autor, que nada me dizia: Manuel Alegre. Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração. Num segundo

(pareceu-me que num segundo) tornou-se a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos.

Não me interessou a sua qualidade literária. Interessou-me a corajosa chama daqueles versos e o imenso coração do autor.

Claro que Manuel Alegre era um poeta, não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia.

A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho. Uma ocasião, na fronteira com a Zâmbia, morreu-me um camarada. Só sei dizer assim: morreu-me, porque me morreu de facto. De imediato veio-me à cabeça um poema de Manuel Alegre

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e comecei a chorar. Só quem passou por uma desgraça assim é capaz de entender isto até ao osso

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Esta, e outras passagens do livro, ficaram comigo para sempre, ficarão comigo para sempre: que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Foi Manuel Alegre que o escreveu, e é a Manuel Alegre que o devo, porque se trata de uma prenda que nenhum dinheiro paga. Faz cinquenta anos que o livro surgiu, cinquenta anos de gratidão da minha parte. O Poeta mandou-me um exemplar comemorativo do aniversário do livro, com uma dedicatória cuja generosidade me tocou imenso. Manuel, não imaginas quanto estiveste comigo em África e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca saímos de lá. E tu ajudaste-me naquele exílio muito mais do que imaginas. Tenho pena que já não fumes porque o brinde que queria fazer-te agradecendo o muito que deste sem o saberes, ao estudantezinho anónimo que eu era, ao militar anónimo que eu fui, seria estender o meu cigarro para ti, dizer-te olhos nos olhos

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e esconder uma lágrima de homem para homem num chupão imenso.

António Lobo Antunes | | 3 comentários

Pedro

Quando estava a pontos de a convidar para saírem o meu pai não dizia Margarida, dizia Margot, na voz sensualíssima que era a dele. Não deve ter sido um casamento fácil porque o meu pai era, muitas vezes, insuportável. Não acho isso um defeito pela simples razão que eu também sou

Quando o Pedro morreu e fomos dizer à mãe, os outros cinco, a única frase que escutámos foi

- Tenham misericórdia de mim

palavra que nunca tinha ouvido da sua boca. Mais tarde acrescentou

 - Uma mãe não tem o direito de estar viva quando o filho morreu

e passado pouco tempo, sem nenhuma doença que se lhe conhecesse, foi-se embora, tão magra que o corpo não fazia relevo sob o lençol do caixão. Estou certo que está com o filho agora, o seu único filho moreno, o mais calado de nós, o mais secreto. Falava pouco. Quase nada dizia de si mesmo. Eu gostava muito dele, ele gostava muito de mim. Pouco conversávamos porque não precisávamos de conversar. Aliás, de uma maneira geral, não precisamos conversar, os meus irmãos e eu, temos outras formas de nos entendermos. A maior parte das vezes sem olhares, sem gestos. Como se nada fosse. Em geral o pai também não falava muito. Para quê? O mesmo sangue andava em todos nós, ouvíamo--nos tão facilmente no silêncio. Pedro. Quando estava com o cancro disse-lhe

- Vou morrer, Pedro

E ele, que não chorava quase nunca

(vi-o chorar quando o pai se foi embora)

a sacudir-me furioso, cheio de lágrimas

- Não vais morrer, ouviste, não vais morrer

e a boca dele tremia, o Pedro que pouco mostrava as emoções, que quase nunca mostrava as emoções.

- Não vais morrer

porque a ideia da morte de um de nós era insuportável. E, no entanto, aconteceu. O Pedro, a mãe. O pai morreu em 2004, vi-lhe o perfil na cama do hospital. Aí também fomos juntos. Depois de cinco anos na terra cremou-se o que sobrava a fim de espalhar as cinzas no jardim da casa onde sempre viveu desde o casamento, onde fomos feitos, onde crescemos. Colocou-se o cilindro das cinzas numa mesa do quarto da minha mãe, na ideia de dias depois as deitarmos à terra. Para espanto meu, de cada vez que lá ia as cinzas continuavam ali. Até que perguntei a razão do pai ainda lá estar, naquela coisa discreta, castanha. E responderam-me

- Não podemos porque a mãe fala com ele.

Não estava tontinha, não sofria de doença alguma: falava com o marido simplesmente. Acho que nenhum de nós deu por eles a conversarem dado que sempre foram muito discretos. E, para pessoas que não eram expansivas, comunicavam bastante um com o outro. Volta e meia, quase até ao fim, saíam para fins de semana a dois, não imagino onde. A minha mãe começou a namorá-lo aos catorze anos, tinha ele dezassete. Durou setenta e dois anos, cada um na sua cabeceira da mesa e nós ao meio. Quando estava a pontos de a convidar para saírem o meu pai não dizia Margarida, dizia Margot, na voz sensualíssima que era a dele. Não deve ter sido um casamento fácil porque o meu pai era, muitas vezes, insuportável. Não acho isso um defeito pela simples razão que eu também sou. Uma ocasião eu

- Porque é que a mãe, que é tão bonita, casou com o pai que é tão feio?

Resposta:

- Porque ele tem um charme infinito e uma voz que me transtorna.

E acrescentou, em post scriptum

- Nenhum dos filhos herdou a voz do pai. Tirando tu, um bocado.

O que me aborreceu, claro: um bocado só é uma merda.

Ela ainda

- Desafio seja quem for a comparar os filhos com os meus, em beleza e em inteligência. Só têm um defeito: são mulherengos. Mas, hoje em dia, pergunto-me se isso será defeito.

Para o fim, quando o pai estava sempre na salita

(antigo quarto do João e meu)

com a grande fotografia de Charlie Parker na parede, a minha mãe para mim

- Vai ter com o teu pai que ele quer sempre falar contigo

eu lá me sentava, afastando livros e papéis, o meu pai baixava um bocadinho a música e fazia elogios à mãe, à sua inteligência, à sua beleza, a isto, àquilo e eu, parvo, a ouvir. De quando em quando era tão bruto e agora punha-se com mariquices. Mas claro que gostava. Há muitos pontos em que me pareço com ele mas acho que, no fundo, tinha um bocado de ciúmes. Isso e o facto das netas o adorarem. Adoravam-nos aos dois. Não há dúvida que tive muita sorte com a minha família. Porque é que morreram? Porque é que o Pedro morreu? Não quero morrer depois dos meus manos. Pedro Pedro Pedro Pedro Pedro, cabrão de merda, filho da puta, porque fizeste isto? Sinto uma falta horrível, não me conformo em tu não estares, nenhum dos nossos irmãos se conforma com tu não estares. Quando o João deu a última aula na Faculdade, apareceu no écran

À memória do meu irmão Pedro

e ele, em silêncio, curvou-se para estas palavras em homenagem a ti. Tão bonito o que fizeste, João, tão cheio de amor, tão sincero e tão digno

(foste sempre sincero e digno, entre muitas outras qualidades)

que me escondi nas mãos. A mãe tem razão; não há filhos como os dela. E no momento em que o João se curvou foi aquele em que, em toda a minha vida, me senti mais perto de ti. O nosso mano. O meu mano. Pedro, por favor promete que não voltas a pregar-nos partidas.

(Crónica publicada na VISÃO 1165, de 2 de julho) | | Comente

Oxalá o Egídio não volte

Com o falecimento do meu irmão a nossa vida, a da minha mãe e a minha, mudou. Agora sou só eu a trabalhar de limpezas e os fins de mês, às vezes, são difíceis mas, mais corvina menos corvina, lá nos vamos aguentando, sem falar nos almoços de domingo no Centro Paroquial

Com o falecimento do meu irmão a nossa vida, a da minha mãe e a minha, mudou. Vivemos os três desde que, há cerca de oito anos, o autocarro 32 apanhou o meu irmão na paragem, quando ele avançou um passo, de braço estendido, e os travões falharam, ainda esteve uns dias entre cá e lá no hospital, o médico preveniu-nos

- Mais lá do que cá vão-se preparando

apesar do soro, que é aquilo com que se curam as pessoas, o lá ganhou, veio imensa gente do emprego ao funeral o que agradou à minha mãe

- Todos gostavam dele, já viste?

incluindo a namorada que acabou por casar com um primo nosso e tem três meninas das quais a do meio, por sinal, é minha afilhada e por sinal é a mais feia mas não me interesso menos por ela derivado a esse facto, que culpa tem a miúda de entortar uma vista, e a minha mãe e eu ficámos uma com a outra, que o meu pai nem cheguei a conhecê-lo, sumiu-se na Venezuela antes do meu nascimento e, se continua à superfície, deve andar para lá a tocar boleros, mais que esquecido da gente. Se calhar qualquer dia aparece aí mas a minha mãe já me jurou mil vezes que o não recebe, dado que em todo este tempo nem um postal para amostra, quanto mais, e as venezuelanas, como todas as brasileiras, sabem prender os homens com sambas e feitiços. Magia negra, explicou-me a minha mãe, dessa que vem nos jornais com os retratos dos feiticeiros pretos ao lado, o Professor Kalunga, o Professor Karamba, o Professor Euá, uma dúzia deles, que aproximam pessoas e tratam pedras dos rins com orações e batuques, muito sérios, de gravata a sublinhar a competência. Por baixo dos nomes as moradas, normalmente em caves do outro lado do Tejo, suponho que cheias de manipanços terríveis, enfeitados com penas de galinha, a aliviarem a gente se não morrermos antes de medo, e eles a dançarem-nos em torno, nus da cintura para cima, dissolvendo as pedras aos berros, quando o vizinho de cima, por exemplo, grita com a esposa, a minha mãe já me confessou que lhe faz bem à gota e o vizinho de cima não é Professor nenhum, é reformado da Companhia do Gás. Portanto, voltando ao princípio, com o falecimento do meu irmão a nossa vida, a da minha mãe e a minha, mudou. Agora sou só eu a trabalhar de limpezas e os fins de mês, às vezes, são difíceis mas, mais corvina menos corvina, lá nos vamos aguentando, sem falar nos almoços de domingo no Centro Paroquial, que ajudam a equilibrar e, de vez em quando, sendo necessário, uma investigaçãozinha nos caixotes das redondezas onde há sempre qualquer coisita que se aproveita, restos de fruta, ossos de frango, uma ocasião um bebé mas isso nem pensar, pobres crianças, fechamos a tampa e seguimos, deve haver imensos meninos a crescerem assim aqui no bairro, ao crescerem saltam lá de dentro e começam logo a negociar em droga e a roubarem velhotas à saída da missa, que hoje em dia a juventude não tem educação alguma e foi-se perdendo o pouco respeito que havia. Como acabaram com o autocarro 32 e ninguém é atropelado as pessoas medram como cogumelos. Só nos entristece que a morte do meu irmão haja servido para isso, mas sempre vamos tirando um anel ou outro a um drogado que ressona num portal e o senhor Benvindo, que negoceia em oiro, às vezes dá-nos uns tostões por aquilo, que a gente transforma em cenouras nas casas de cambio das mercearias. Cenouras, cebolas, tomates, vitaminas diversas que nos têm prolongado a existência. Claro que, com o meu irmão por cá, não precisávamos porque sempre ganhava uns trocos como auxiliar de canalização, mas vamos aguentando. O meu medo é que os drogados mudem de poiso e deixe de haver bebés nos caixotes. Espero que não porque este bairro é pobre demais para interessar à polícia e não é preciso andar a encher de crianças os infantários do Estado, sobretudo com o preço a que o leite está, sem mencionar a roupa, a educação, as vacinas, as chupetas, as fraldas. Para quê se mais tarde ou mais cedo se tornam adultos e emigram para a Venezuela abandonando as famílias como o meu pai nos fez? Em todo o caso, na eventualidade de um retorno improvável, a minha mãe e eu temos uma tranca encostada à parede, junto à porta e, se por acaso um velho se aproximar, leva logo com aquilo na cabeça e põe-se ao fresco aos gemidos, protestando

- Sou eu, Cacilda, sou eu, Cacilda

ou seja o nome da minha mãe, e é da maneira que desaparece logo a insultar-nos em venezuelano, uma língua que os vizinhos não entendem. A mim tanto se me dá como se me deu mas a minha mãe é pessoa para ficar uns minutos na soleira a murmurar

- Egídio

num soprozinho de saudade, enquanto uma fúria lhe sobe à cabeça e tenho de segurá-la com força antes que se ponha a correr atrás do velho, pronta a estrangulá-lo, dá-me ideia que ainda ciumenta porque toda a gente sabe que as mulheres são assim.

António Lobo Antunes | | 2 comentários

O próximo livro

Onde está o meu irmão que morreu? Onde estão os outros que morreram? E, já agora, onde estão os vivos? Daqui a nada saio para almoçar, neste bairro pobre e feio. Não liguem: tudo é feio para mim, hoje. Vagos ruídos de vizinhos, uma ambulância muito ao longe, uma máquina qualquer, não sei onde, a consertar não sei quê. Apetecia-me ser pequeno, apetecia-me sorrir

Acabei um livro e não tenho a mínima ideia do que vou escrever a seguir. Não tenho a mínima ideia, sequer, se virá outro livro. Sinto-me como um cão à procura de um osso enterrado que não sabe onde está. Cavo aqui com as patas da frente, cavo acolá e nada. Se calhar acabaram-se os ossos, se calhar acabei. É sempre assim e o medo de não ser mais capaz é horrível. Um vazio, uma angústia. Não sei fazer mais nada, desde que me conheço não faço mais nada. Sento-me nesta cadeira, sento-me naquela. Eu só queria sentir qualquer coisa a inchar cá dentro, ainda não bem palavras, uma coisinha qualquer, mesmo mínima, que depois, pouco a pouco, se transforma, cresce, ganha sentido, vai aparecendo. Então costumo marcar uma data e começo. Começo com horas quieto diante do papel até que uma frase surge, a princípio torta, lenta, lá principia a andar, ganha velocidade, vai arranjando forma. Não tenho plano, não sei o que é: é uma voz que dita e eu sigo-a. A mão move-se e a cabeça, longe, a vigiar. O material aperfeiçoa-se página a página, os diversos elementos estruturam-se, os parágrafos adquirem forma, vão nascendo mais vozes, o livro articula--se aos solavancos. Agora falta-me tudo. Levanto a cabeça, vejo o sol na varanda, árvores, o prédio em frente, todas as janelas fechadas. Como não alcanço a rua tudo parece deserto, tudo está deserto. Um pássaro às vezes, as folhas quase imóveis. Se ao menos eu. Se ao menos eu o quê? Ponho estas sentenças porque tenho de fazer a crónica. Duas por mês. Ponho as sentenças sem alma nenhuma. A quem podem interessar? Sardinheiras na varanda, imóveis também. Pontitos brancos a flutuarem junto às árvores, não pássaros, sementes ou assim. Onde está o meu irmão que morreu? Onde estão os outros que morreram? E, já agora, onde estão os vivos? Daqui a nada saio para almoçar, neste bairro pobre e feio. Não liguem: tudo é feio para mim, hoje. Vagos ruídos de vizinhos, uma ambulância muito ao longe, uma máquina qualquer, não sei onde, a consertar não sei quê. Apetecia-me ser pequeno, apetecia-me sorrir. A doença de um amigo preocupa-me. Olha, lembrei-me de Angola. Foi assim uma recordação fugidia que desapareceu logo. Mas a cor da terra, mas os cheiros, mas a população com latas, junto ao arame farpado, a pedir comida. Províncias ultramarinas - Portugal uno e indivisível do Minho a Timor. Como era possível uma frase destas? Eu uno e indivisível do Minho a Timor. Catongueses, sul-africanos, o raio que os parta, tudo aos tiros. ?O capitão

- Você é do contra.

Ele não era do contra, os militares fazem o que lhes mandam e eu a ferver de raiva.

- Acha que sim?

A estupidez da violência. Chega de Angola, chega da fronteira com a Zâmbia: passaram tantos anos. Mentira: não passaram. Adiante. E o livro nada. E eu nada igualmente. Fuma um caricoco,  rapaz, fuma um caricoco.

A manhã, na janela, principia a crescer. O sol nos ramos. O ruído da ambulância sumiu-se há que tempos. Que silêncio. No outro dia fui ao hospital. Está tudo bem. Comovi-me por estar tudo bem, julgo que consegui não mostrar. Há alturas em que a gente não se importa de não existir. Importa-se. Temos medo. O silêncio dos médicos, depois de nos observarem, antes de começarem a falar. O que irão dizer? Aquela pausa arrepia um bocadinho, nós fingimos que não, calados, sérios. Pegar numa lata ferrugenta, do outro lado do arame farpado, não a pedir comida, a pedir saúde. Voltar com a saúde para a palhota,  comê-la com os dedos, chupá-los no fim. No restaurante não são latas, são pratos: será assim tão diferente? Batas, batas, batas, macas, macas, macas, gente a dar com um pau.  

- Tome lá mais um bocadinho de vida

ou seja restos de vida no meio da ferrugem.

- Como correu lá no hospital?

- Correu bem

enquanto se mastiga. Correu bem. Enquanto se engole

- Correu bem

ao limpar a boca

- Correu bem.

ao afastar a lata

- Correu bem.

Mais uns tempos ainda até que

- Há aí um problema, temos que ver melhor.

Um problema, o que será um problema? E o livro sem vir. Se me propusessem

- Damos-lhe mais cem anos se abdicar dos seus livros

não aceitava. Mesmo doente escrevia. Oxalá continue a escrever, oxalá as palavras comecem a vir, oxalá não demorem muito tempo. É que não tenho mais nada.

António Lobo Antunes | | 7 comentários

Isto é tudo a brincar

O vento antes da chuva, o céu negro às quatro da tarde, dúzias de relâmpagos secos antes das cordas de água. Não são memórias tristes nem angustiadas, é uma zanga feroz

O toque a mortes no Mosteiro da Batalha, junto ao túmulo do Soldado Desconhecido, e a certeza que era também por mim que soava. Nunca ouvi nada tão bonito, tão dilacerante, tão profundamente triste, ecoando, até ao fundo do meu sangue, a dor do mundo. As salvas de tiros de quando o Ernesto, de quando o Zé morreram. Lembro-me de ver o Boaventura a chorar, lembro-me do sabor de uma lágrima minha e, no interior da lágrima, a canção acerca do falecimento de Sofia Rosa. Uma manada de elefantes a fugir do nosso aviãozito. Centenas de mandris na Pecagranja, horrivelmente humanos. Os crocodilos do Cambo, só olhos. De tempos a tempos tudo isto regressa e o milho do Ninda desata a murmurar. Acordo sem saber onde estou, com uma queimada no fundo da chana e alguém, que não vejo, a sossegar-me

- É só África, senhor doutor, é só África

é só a fronteira com a Zâmbia logo ali, é só África. Porque razão tudo isto continua a perseguir-me, não me deixa, me magoa? Toma nota destas papázinhas, me magoa. Horizontes infinitos, o soba Chiúme a coser à máquina, os Katangueses, de lenço vermelho ao pescoço, a matarem sem fim, o seu grito de

- Uhuru

e o oficial deles a comer um rato. Cabiris minúsculos a ladrarem. Tudo isto regressa, ou antes tudo isto não deixou de permanecer em mim. O pobre diabo do comandante cagado em frente do general. O capelão com galões de tenente, tão atrapalhado, tão civil. O major para ele

- Você, no dia em que se vier, afoga-nos a todos

isto numa gargalhada imensa e Sofia Rosa morreu. A canção

Quem morreu

Foi Sofia Rosa

Sofia

Uá uá.

Que lindo nome para uma mulher. No Kimbo de António Miúdo Catolo comíamos o funge da Domingas. Sindicato Caputo, filho do soba Caputo, convidou-me para padrinho do seu filho. Nome: Crítico. Se o meu pai se chamasse Sindicato eu provavelmente Crítico também.

- Como é que você se chama?

- Crítico

e aposto que gostava. Crítico. Acordo a meio da noite e se

- Como te chamas?

anunciava com orgulho

- Crítico

e casava com uma rapariga de nome Martelo, que era o que não faltava por ali. Os morcegos imensos das mangueiras. A estátua do deus Zumbi.

- Chama mosca, chama mosca

para o helicóptero dos feridos. A jiboia com metade de uma cabra dentro dela. O major para o capelão

- Ó capelão ao pé de mim segure-se

e o capelão todo agarradinho às partes a obedecer. De tempos a tempos, estou muito bem a dormir e aparece de roldão isto tudo. Há quanto tempo foi? Não: há quanto tempo é? O vento antes da chuva, o céu negro às quatro da tarde, dúzias de relâmpagos secos antes das cordas de água. Não são memórias tristes nem angustiadas, é uma zanga feroz. O túmulo majestoso do Zé do Telhado, perto de Dala-Samba. Foi um herói por ali, todo amor, todo bondade, como dizia João de Deus, o que as pessoas mudam. Os túmulos sagrados dos sobas antigos em montanhas a que arrancaram as árvores, deixando só um tufo de palmeiras lá em cima. Um dia vim-me embora. A minha mãe, espantada

- Não mudaste nada

e tem razão, senhora, não mudei nada, sou o mesmo, sinto-me óptimo. O que se passa às vezes, a meio da noite, não tem importância nenhuma, quem não sonha? O que se passa às vezes, a meio do dia, não tem importância nenhuma também, coisas que passam pela cabeça e se desvanecem em seguida. É apenas o toque a mortos no Mosteiro da Batalha, junto ao túmulo do Soldado Desconhecido que me incomoda. Há bocado, quando disse que era também por mim que tocavam estava a brincar. Como está farta de saber sou uma criatura divertida. E, já agora, não escuta o milho do Ninda a murmurar?

António Lobo Antunes, (Crónica publicada na VISÃO 1159, de 21 de maio) | | 1 comentário

A lição de anatomia

A pouco e pouco, eu que não queria muito ser médico, queria escrever apenas, interessei-me pelo barro de que aqueles corpos eram feitos, pelo barro de que eu era feito, barro, mau cheiro, repugnância

Eu tinha dezasseis anos quando me matriculei em Medicina, as aulas começavam mais ou menos um mês depois de completar dezassete e nunca havia posto o olho em cima de um cadáver quando o ensino prático, no teatro anatómico, começou. Depois de esperar com os colegas, de bata e luvas, arrepiadinho de medo, num compartimento que dava para uma sala enorme, cheia de pias compridas, de pedra, os mortos começaram a entrar numa espécie de macas metálicas, com rodas que chiavam, nus, de dedo grande do pé munido de um cartão com o nome, amarelos, direitos como paus. Uns empregados, com uma espécie de guarda-pó, também de luvas, transferiam-nos para as pias num pivete de formol. O que parecia o chefe dos empregados, o senhor Joaquim, gordo e bexigoso, veio anunciar

- Está a sopa na mesa

e nós lá fomos, acanhadíssimos, tentando não olhar

(pelo menos eu tentava não olhar, numa vontade louca de fugir a sete pés)

à medida que nos iam distribuindo pelas pias, em redor daqueles corpos amarelos, com o formol a encher-nos de lágrimas. Lembro-me do senhor Joaquim perguntar

- Que tal a sopinha meus senhores?

a um rebanho de miúdos mais ou menos apavorados, a quem ele vendia os esqueletos que era necessário comprar para estudar os ossos. Não comprei nenhum: o meu pai conservava em casa, numa mala de vime, os ossos que arranjara em estudante, recordo-me do maxilar inferior ainda com dentes, da caveira, dos ossos mais delicados da cabeça, embrulhados em papel de seda para não se quebrarem, de um monte de costelas e de tíbias, perónios, fémures, destinados a uma aprendizagem decente, consoante me recordo da desilusão do senhor Joaquim comigo, porque tinha um negócio de venda daquelas coisas aos estudantes, que lhe arredondava os fins de mês. Um sócio dele, coveiro, entregava-lhos no cemitério, à percentagem, o senhor Joaquim, que morava numas águas furtadas, punha a mercadoria a secar no telhado, até perder os fiapos de tendões e músculos que sobravam, limpava-os, lavava-os, secava-os, juntava-os em sacos que nos vendia e lá se apanhava o autocarro a chocalhar aquilo. Perguntei-lhe como fazia para separar os ossos da cabeça e o senhor Joaquim, engenhoso, explicou-me que, pelo buraco occipital, enchia os crânios de favas, despejava-lhes água dentro, tapava o buraco com uma espécie de rolha e os ossos iam-se afastando uns dos outros à medida que as favas inchavam. Continuo sem entender a razão pela qual os vizinhos não protestavam com o fedor: se calhar todo o Campo de Santana, onde ele habitava, colaborava nos esqueletos, não sei, a realidade era que o senhor Joaquim não parecia viver em conflito com ninguém. Tinha um filho que o visitava às vezes, todo torcido, e ele nos apresentava com orgulho

- O meu rapaz, parkinsonista

dava ideia que contente com a doença:

- Não é para qualquer um.

No meio disto apareciam os assistentes, que nos distribuíam bisturis a fim de começarmos a familiarizar-nos, numa pestilência de formol, com corpos com séculos de frigorífico em que tudo se confundia num lodo castanho, ao pé do qual o parkinsonista me parecia muito mais elegante que o Apolo Musageta ou a Madona da Caldeirinha. O teatro anatómico durava das duas às seis da tarde

(seis ou sete?)

até eu o trocar por um cinema de sessões contínuas na Praça do Chile

(numa rua por trás da Praça do Chile)

com um colega que conhecia a senhora que vendia os bilhetes. Pedia à senhora

- Dê-me dois lugares bons

a senhora, com um piscar de olhos entendido, colocava-nos ao lado de espectadoras solitárias, da idade da minha mãe, que encostavam docemente os joelhos aos nossos no escuro e nos davam a mão durante os filmes. Habitavam nas redondezas e convidavam-nos a acompanhá-las até casa para um chazinho, onde nos faziam festas na cara, nos davam beijos e introduziam dedos sábios nos intervalos dos botões da camisa, a suspirarem

- Ai menino, menino

e a experimentarem-nos a pele da barriga

- Que suave

enquanto a maior parte dos meus colegas se debatiam com os cadáveres no teatro anatómico, procurando a artéria radial numa lama confusa. A pouco e pouco, eu que não queria muito ser médico, queria escrever apenas, interessei-me pelo barro de que aqueles corpos eram feitos, pelo barro de que eu era feito, barro, mau cheiro, repugnância, e custava-me admitir que tudo aquilo tivesse vivido da maneira que eu vivia, até um dia me metamorfosear numa criatura de nudez horrível, cujos olhos abertos escutavam o vazio, não observavam o vazio, escutavam o vazio em que se tornaram, cortados pelos bisturis dos assistentes. A evidência da minha morte arrepiava-me: apenas uma questão de algum tempo e ossos, músculos, articulações, nada. Não um defunto: nada. Ficariam os livros que eu imaginava ir escrever, não ficaria, se calhar livro nenhum. Nem um dedo de senhora

- Que suave

a explorar-me a pele da barriga numa altura em que já não teria pele: apenas o que fora um corpo, com um cartão com o meu nome amarrado ao dedo do pé. Um nome que não dizia fosse o que fosse a ninguém, retalhado, inútil, explicando aos alunos o absurdo que eu era, deitado no telhado do senhor Joaquim, de ossos brancos ao léu e, no interior do meu crânio, favas a rebentarem com os pombos de Lisboa em torno.

António Lobo Antunes, (Crónica publicada na VISÃO 1157, de 7 de maio) | | 9 comentários

Assim assim

Às vezes olho os dois palitos, quietos, inúteis, e dá-me ideia que se parecem com o meu marido e comigo, cada qual inclinado para a sua banda
Acho que o meu marido já não gosta de mim. Acho que já não gosto do meu marido. Mas depois há as crianças, logo três, e a ideia da separação custa-me por causa delas, para além da reação dos meus pais que, há quase quarenta anos, se aturam um ao outro. Praticamente nem se falam. A frase que lhes oiço mais vezes é

- Passa-me o sal

e a passagem do sal de um para o outro é o único traço de união entre eles, aquele frasquinho pequeno de vidro facetado, com uma tampa cromada. Dantes havia também os palitos

- Passa-me os palitos

mas o dentista mandou-os substituir por fio dental e o paliteiro, de plástico, um prisma triangular com um buraco numa das pontas, levou sumiço da mesa e habita agora no aparador, entre um gato de loiça e a fotografia da minha sogra. O gato de loiça tem bigodes pintados a doirado e a ponta da cauda partida. O paliteiro dois palitos solitários dentro. Às vezes olho os dois palitos, quietos, inúteis, e dá-me ideia que se parecem com o meu marido e comigo, cada qual inclinado para a sua banda. Antes do fio dental virava-se o paliteiro de buraco para baixo, a bater com o indicador na ponta oposta até sair um lá de dentro. O meu marido usava-os com as mãos à frente, como quem toca gaita de beiços, e eu tinha sempre a impressão de ir ouvir música enquanto ele escarafunchava, de olhos no vazio. Se calhar ainda gostávamos um do outro nesse tempo. Quando acabava de os usar partia-os em dois pedaços, depois em quatro, depois em oito e formava poliedros com aquilo. Mas fartava-se depressa da geometria, apanhava tudo e deitava-os no prato no meio dos restos de comida, a olhar para mim de banda como se fosse eu que jogasse fora. E dessa maneira comecei a perceber que tínhamos deixado de gostar um do outro. Se calhar, se pudesse, fazia o mesmo comigo, de modo que, ao deitá-los fora, me sentia fazer parte das espinhas do goraz. A seguir o meu marido agarrava no prato, levava-o até à cozinha, carregava com o bico do pé no pedal do balde dos sobejos, cuja tampa se abria num salto, inclinava-o para o interior do balde e entornava lá dentro, empurrando com o garfo, as sobras do peixe

(como eu ouvia o barulho do garfo a raspar na loiça)

tirava o bico do pé do pedal, cuja tampa descia numa prontidão de vergonha, poisava o prato e o garfo no lava-loiças e sentava-se na sala, no outro sofá

(sempre no outro sofá)

a olhar para a janela, não para além da janela, a olhar para a janela, de perna cruzada e mãos dadas consigo mesmo a pensar

(percebia-se logo)

- O que é que eu faço aqui?

Julgo que nenhum de nós sabia muito bem o que fazia ali, perto do outro e tão distantes: planos de assassinato? Ideias de partir? Pensamentos do género

- Como é que eu embarquei neste casório?

planos sem solução do tipo

- de que maneira me livro disto?

enquanto as crianças, logo três, iam e vinham entre o quarto e a sala, lembrando-nos um passado que não devia ter existido, entregues a ocupações que nenhum de nós entendia e a conversas que mal escutávamos, parecidas com ele, parecidas comigo, já sonolentas, já maçadoras, uma delas, a semana passada

- O pai gosta da mãe?

e o meu marido a fingir que não ouvia, a rapariga, que nasceu entre os dois irmãos, e a precisar que eu lhe cortasse as unhas, resolvendo o problema

- Os pais gostam sempre um do outro

numa indiferença despachada, comigo, protegida por uma revista, a questionar-me

- E agora?

o meu marido sorriu-lhe

 - Pois claro

o

- Pois claro

mais pálido que já existiu neste mundo, sentindo o peso da aliança no dedo como uma algema sem remédio, eu, num grito de alma sumido

- Estamos aqui não estamos?

a lembrar-me de um rapaz de dezoito ou dezanove anos que, há quinze, me esperava à saída das aulas, meio decidido, meio tímido, e me acompanhava quase até casa, a conversar comigo já nem me recordo de quê. O que se seguiu foi simples e relativamente rápido: o primeiro beijo, assim assim, mais beijos assim assim, a apresentação aos meus pais, a apresentação aos pais dele, os cursos acabados, os primeiros empregos, as contas à soma dos dois ordenados feitas num canto de papel, as contas às despesas, as intimidades assim assim em quartos de pensão baratos, uns

- Amo-te

dispersos no final, a gravidez inesperada e o casamento um pouco à pressa, com os sogros de ambos desconfiados até que, na semana passada, tudo se esclareceu finalmente: acabado o jantar calhou coincidirmos, cada qual com o seu prato, diante do balde dos sobejos, prontos a empurrá-los com o garfo lá para o fundo, um de nós a perguntar

- Qual despeja o outro primeiro?

sem respondermos despejámo-nos ao mesmo tempo e, como estávamos cansados, fomos logo para a cama, afastados um do outro, enquanto as crianças continuavam por ali. Não sentiste que era como se estivéssemos de novo num quarto de pensão? Não achaste que foi assim assim, ambos de barriga para cima a olharmos o tecto às escuras? Não sei porque carga de água passada meia hora repetimos a dose e assim assim de novo. Juntos no balde até ao fim da vida. Pensando bem abrir a tampa e irmo-nos embora, cada qual numa direção diferente, para quê?

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1154, de 16 de abril | | 2 comentários

Parafusos e porcas

Conhecia-os mais ou menos a todos porque pertenciam ao mesmo bairro que eu e a maior parte deles, nos intervalos das excursões, eram pacíficos e cordatos. Trabalhavam por ali, em oficinas e coisas assim, e depois do trabalho, antes do jantar, passavam pelo tasco da sede do Grupo

Quando eu era miúdo, na periferia de Lisboa onde fui feito e onde cresci, um subúrbio pobre, havia um grupo de excursionistas chamado GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS, do qual faziam parte só homens, que passavam um domingo por mês num autocarro cheio de litros de tinto, partiam de manhã e regressavam ao fim da tarde, completamente grossos, a lutarem com a maré alta do passeio, a gritarem, a abraçarem-se, a rirem, a empurrarem-se, na panóplia completa dos bêbados, no meio de quedas, discussões, insultos e cantorias, dispersando-se aos tropeções, alguns de gatas, uns calmos, outros impetuosos, outros coléricos, alternando abraços com empurrões e juras de amizade eterna com tentativas de pancadaria, entre vómitos e tropeços. Conhecia-os mais ou menos a todos porque pertenciam ao mesmo bairro que eu e a maior parte deles, nos intervalos das excursões, eram pacíficos e cordatos. Trabalhavam por ali, em oficinas e coisas assim, e depois do trabalho, antes do jantar, passavam pelo tasco da sede do Grupo para um copo fraterno, muitas vezes silencioso e soturno. Nas excursões não eram permitidas mulheres. Dos lados do autocarro havia dois lençóis estendidos, amarrados com cordas, anunciando

GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS

por baixo do

GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS

a frase, em letras gordas

AS PORCAS FICARAM EM CASA

e, de facto, não se via uma só porca nas redondezas, parafusos apenas, às palmadas nas costas uns dos outros, felizes pelos delirium tremens que se aproximavam, transportando a alegria em garrafões, ainda pausados e calmos. Meia dúzia de porcas, inquietas, vigiavam a partida de longe, na certeza de uma noite tempestuosa, escondendo santinhos e bonecos de barro nos quintaizecos das traseiras porque, dali a horas, viria um temporal de cacos, cuja violência era celebrada durante dias, com frases de felicidade no género

- Grande domingo: apanhámos cá uma bebedeira...

isto dito, claro, com orgulho e natural satisfação, mudando de conversa a fim de cumprimentarem, com solenidade, as senhoras que passavam, tirando o boné numa educação lenta, já de alma apontada ao próximo passeio. O autocarro, quase podre, andava uns quilómetros, poucos, na direção de uma berma propícia, e gastavam o dia aos encontrões, a mamarem dos gargalos, enquanto as porcas escondiam bibelôs, retratos e mobília mais frágil. Partiam de gravata e casaco e regressavam de fralda da camisa de fora, com a gravata amarrotada no bolso, ao mesmo tempo joviais e comovidos, até as porcas os pastorearem para casa a tropeçarem nos próprios sapatos. À medida que os tempos iam mudando e os parafusos envelhecendo

(começaram a aparecer bengalas, muletas, bocas tortas, um bracinho defunto, uma perna que se arrastava, as primeiras mortes

- Os fígados gastam-se, amigos)

o GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS deu em diminuir e as porcas, mais resistentes, a ganharem força. A frase, em letras gordas

AS PORCAS FICARAM EM CASA

desapareceu dos lençóis, e as ditas porcas começaram a acompanhá-los nas excursões de domingo onde havia agora água mineral e almofadas para os rabos cansados dos parafusos que já não discutiam, não se abraçavam, não riam, acocorados em pedras à beira da estrada, enquanto as porcas conversavam umas com as outras e lhes davam ordens, transformando vinho em água-pé primeiro e confiscando-o finalmente, atentas às queixas

- Mijei-me todo

ou

- Não consigo segurar as fezes

equilibrando-os com dificuldade e uma página de jornal na mão, a puxá-los

- Anda lá, anda lá

para trás de uns arbustos, nos quais se distinguia uma cabeça vencida. O autocarro acabou, sem pompa, num baldio do bairro, os domingos terminaram, e os parafusos principiaram a permanecer no bairro, em banquitos ao acaso, com bóinas coçadas a cobrirem as calvícies, e as bocas desmobiladas a chuparem cigarrinhos meio apagados. Elas levavam-nos para casa equilibrando-lhes os sovacos

- Mexe-te, emplastro

e agarrando-os pelas calças que amoleciam. Quando me tornei adolescente já poucos sobravam, sem diálogos, sem interesses, sem júbilo algum, a engolirem os comprimidos que elas lhes estendiam numa obediência mansa. No caso de um deles perguntar

- O Jorge?

uma voz respondia

- Morreu o ano passado

e o queixo do que perguntara descaía um bocado, numa aceitação melancólica. As porcas, essas, iam aumentando de autoridade

- Estás cada vez mais um farrapo

e o GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS dissolveu-se, substituído, progressivamente, por idosas enérgicas, a quem eles se submetiam num cansaço desarticulado. Deviam trocar-se os letreiros por cartazes que anunciassem

GRUPO EXCURSIONISTA AS PORCAS

com outro por baixo

OS PARAFUSOS ESTÃO QUASE TODOS NO CEMITÉRIO

enquanto elas faziam crochet no murozito da estrada, a contarem histórias dos netos, que os parafusos sobreviventes nem escutavam. Talvez, quando muito

- O Jorge morreu mesmo?

seguido de um chichi desolado pelas tíbias abaixo, um lamento de mulher

- O que eu aturo

o que os dois ou três parafusos que resistiam já nem conseguiam ouvir. O tasco é agora uma butique que vende roupa feminina a pessoas para quem os parafusos não significam nada.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1152, de 2 de abril | | 1 comentário

Carta aos meus pais

Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto

Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem

- Pega nos talheres como deve ser

ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta

- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?

ou a resposta

- Um dia falamos sobre isso

quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:

 - Porque é que as mulheres fazem por uma escova?

e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo

- João

e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor

(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)

não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico

 - E depois, nos intervalos, escreves

como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:

- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.

Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género

O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada

ou, comparando-me com o meu irmão

- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.

Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos

- O António tem faísca, o António tem faísca

e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:

- Tenham misericórdia de mim.

Sentada na sua cadeira, na sua sala:

- Tenham misericórdia de mim.

Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios

- Lembras-te daquela história da escova?

e o meu pai a responder

- Ah

que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1150, de 19 de março | | 6 comentários

O Sherpa Ten-Sing (croniquinha para meninos grandes)

Aquilo tudo tem um aspecto pouco limpo, não cheira especialmente bem, há muita coisa barata e talvez inútil amontoada ao acaso mas gosto de mudar de passeio e entrar lá dentro para que me falem do Evereste
Da janela vejo o minimercado dos nepaleses, tão simpáticos, tão doces, com caixotes de fruta e botijas de gás na rua. Vieram de Katmandu e estabeleceram--se nesta loja de pobres, numa esquina pobre de uma rua pobre, miudinhos, calmos, delicados, de uma simpatia que me enternece sempre. Têm sorrisos tão bonitos. Vivem com muito pouco e nunca se queixam, são, de certeza, muito difíceis para eles os fins do mês, e atravessam-nos com uma dignidade exemplar e um cachecol do Benfica na parede. Aquilo tudo tem um aspecto pouco limpo, não cheira especialmente bem, há muita coisa barata e talvez inútil amontoada ao acaso mas gosto de mudar de passeio e entrar lá dentro para que me falem do Evereste. Faço-lhes dúzias de perguntas, respondem invariavelmente sem se aborrecerem, numa paciência infindável. Sem nunca lá ter estado, claro, quase me oriento sozinho nas ruas de Katmandu, daqui a uns tempos conheço a cidade inteira. Não perguntam seja o que for em troca. Ainda não me atrevi a apertar-lhes a mão, ainda não me sinto digno disso. Olham-me nos olhos sempre, vão-me explicando o Nepal, e gosto da comida deles, da sua leveza, da sua atenção, da harmoniosa elegância dos gestos. Se calhar acham-me um homem estranho, um intrometido, mas nunca me censuram nem parecem aborrecidos. Aliás é impossível para mim perceber no que estão a pensar. A loja à direita, também pequenina, também humilde, pertence ao cunhado de um deles, que costuma estar na rua a olhar para dentro. Vir para fora no intuito de olhar para dentro encanta-me, é esse, um pouco, o meu trabalho. O cunhado usa um chapéu esquisito, parecido com uma chaminé curta, que lhe cobre a cabeça numa exactidão de cápsula, com desenhos ao mesmo tempo complicados e simples. Pela maneira como se adaptam um ao outro, o chapéu e o crânio, imagino que já nasceu com ele e foram crescendo juntos. Tem um anel de prata trabalhada

(para mim é prata mas talvez seja de metal barato)

com o qual deve ter nascido igualmente. À noite somem-se todos numa pontinha minúscula, em passitos mansos. Como é que se sonhará ao pé do Evereste? Isso tão pouco me atrevo a perguntar. De resto se eu não perguntar nada fitam-me a sorrir, numa lentidão cheia de eternidade. Falo-lhes no Sherpa Ten-Sing, a primeira pessoa a subir o Evereste, juntamente com Sir Edmond Hillary e, após uma pausa infinita, eles

- Ten-Sing

numa ligeira curvatura respeitosa. Só o conheço de fotografias antigas mas gostava de vê-lo para o admirar à vontade. Pergunto

- E de Katmandu vê-se o Evereste?

eles em coro, como perante uma evidência 

- Vê-se o Evereste.

O que eu não dava para trepar o Evereste, chegar lá cima, tocar no céu. Riem-se

- Tocar no céu

olhando para mim como se olha uma criança. Falam na língua deles, até aquele com quem tenho mais intimidade segredar

- Ten-Sing está em toda a parte.

Experimento:

- Mesmo aqui?

e ele, após uma pausa longa

- Mesmo aqui

a trocar uma maçã de sítio, o que significa que a conversa acabou. Despeço-me

- Até amanhã

respondem

- Até amanhã

na paz de sempre, e mudo de passeio quando o sinal fica verde para os peões, comigo e um velhote enrugado à espera. Só no outro lado, ao vê-lo afastar-se, compreendo quem é. Chamo

- Sherpa Ten-Sing

digo, mais alto

- Como é o céu Sherpa Ten-Sing?

insisto

- Pode entrar-se lá dentro?

e só então reparo, triste, que ele desapareceu para sempre. Fico com a esperança de logo, quando adormecer, o encontrar sentado no pico mais alto da montanha, à minha espera:

- Ainda queres tocar no céu, tu?

E talvez, cá em baixo, vocês nos vejam aos dois, o Sherpa ?Ten-Sing e eu, de dedinho no ar.

António Lobo Antunes, (crónica publicada na VISÃO 1148, de 5 de março) | | 3 comentários
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