Convite aos Leitores: Deixe aqui a sua Opinião
Página inicial | Opinião | António Lobo Antunes

Página 1 de 18 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |

Dorme que eu velo sedutora imagem

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam
A vocação artística tem um forte componente genético que, em mim, é evidente: chegou-me direitinho do meu avô. Não é que lesse muito: para ser sincero nunca o vi ler livro nenhum, embora houvesse em casa meia dúzia de romances brasileiros, a terra de onde veio, Alencar, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Machado, Pompeia, que jamais saíram de uma estantezeca lá ao fundo, mas recitava à gente, seus netos, poesia de qualidade, que muito fez para me entusiasmar pela possibilidade de transmissão das emoções através das palavras. Pedíamos-lhe, trémulos de entusiasmo
- Ó avó recite lá
e ele, aumentando na cadeira

Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.

Diz-lhe um amigo: - Que louco para que queres isso tu?
- É para alegrar um pouco o triste olho do cu.

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam, velocidade acompanhada de um
- Francamente
escandalizado, o que prova como podem ser diversas as reações à beleza. A fim de tentar a unanimidade o meu avô iniciava, de imediato, um excerto do grande lírico do século dezanove, Tomás Ribeiro

Dorme que eu velo sedutora imagem
grata miragem que no ermo vi

que as agulhas pareciam aprovar, se não fosse o caso de o meu avô introduzir aqui o seu cunho tão pessoal, que torcia um tudo nada a estrofe:

Enquanto dormes uma dor me ataca
vou fazer caca pensando em ti

e, em resposta, os  
- Francamente
se multiplicarem, acompanhados de discursos acerca da vulnerabilidade das crianças e o perigo de futuros deletérios, de bebida e pecado, para as pobres crianças que éramos, para além de nos afastar da religião e do santo respeito pelas coisas sagradas como, por exemplo, quando íamos pela rua com ele, passava um grupo de freiras, nas suas vestimentas de andorinhas fúnebres, com  o crucifixo ao pescoço, o meu avô, sonoro

As Irmãs da Caridade
têm um buraco no cu
que lhes fez o padre cura
com a chave do baú

e a família, em escândalo, a pedir perdão ao Santíssimo, enquanto o meu avô, enorme, plantado no passeio, fumava ao mesmo tempo a boquilha e um sorriso, mal sonhando o futuro que o esperava, a arder, sem remissão, no inferno. No meu entender não lhe passavam pela cabeça as consequências, por vezes graves, da Arte. A título de exemplo, e gosto da expressão a título de exemplo que me aproxima da elegância formal dos nossos dirigentes, uma das filhas teve, finalmente, o primeiro, ia a escrever rebento, foi por pouco, o primeiro crianço e levou-o ao pai que, na sua ideia, ia vibrar de contentamento com mais aquela vergôntea da sua árvore. O meu avô estudou-o com atenção
- E como se chama ele?
a minha tia respondeu, com natural e legítimo orgulho
- Francisco António
O meu avô quedou-se paralisado na cadeira, a remoer memórias do seu Pará distante, com a família à espera da reação
(as reações do meu avô, em geral, eram inesperadas)
que tardou mas veio. O meu avô pôs-se de pé num pulo, com a cara cheia de infância, e fez tremer as paredes vociferando a seguinte cantilena

Francisco António da Costa Braga
nosso amigo e protector
para proteger os seus artistas
mandou fazer uma chapelaria a vapor

e, após uma pequena pausa, mais forte ainda
- Póróróró vapor.

Durante toda essa tarde, de cinco em cinco minutos, o meu avô berrava
- Póróróró vapor

até que lhe tiraram o Francisco António da frente. Mesmo assim um eco estupefacto
- Francisco António não lembra ao diabo
e, num fio
- Póróróró vapor
Durante anos, até à sua morte, quando eu tinha dezoito, volta e meia piscava-lhe o olho, inclinava-me para ele, segredava
- Póróróró vapor
e, por um bocado, palavra de honra que nos sentíamos felizes. Experimentem.
António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1100, de 3 de abril | | 5 comentários

Mercedes

Espreito a dona Mercedes com mais interesse e encontro os olhos dela fixos nos meus e uma espécie de suspiro a aumentar e diminuir o peito considerável

Desde que me reformei ando para aqui como um fantasma. Ligo a televisão, aborreço-me, desligo a televisão, abro o jornal, aborreço-me, poiso o jornal, deito-me para uma sesta, não durmo, levanto-me da cama, vou lá baixo ao café, peço um café, deixo-o esfriar sem dar por isso, volto para casa ou fico a olhar uma mesa de viúvas, uma delas de cãozito ao colo, a dar-lhe bocadinhos de biscoito, conversando de netos e doenças, que é mais ou menos a mesma coisa, ignorava que houvesse tanta criança inteligente e tanta angina em Portugal, as viúvas de cabelo pintado de loiro e o pó de arroz a flutuar-lhes em torno, não pegado à cara, com mais perfume do que carne, percebo que baixam a voz para falarem de mim

- Não é nada mal aquele

apesar de me faltar cabelo e da placa dos dentes, aperfeiçoo a gravata para ficar menos mal ainda, dou um jeito às têmporas, uma, a mais gordinha, não me tira os olhos de cima, usa anéis enormes, em quase todos os dedos e, de vez em quando, dá a impressão que me sorri. O dono do café, no meu ouvido

- A dona Mercedes parece que simpatiza consigo senhor Pinto

e, confidencial

- O marido deixou-a bem na vida

o que não me aquece nem me arrefece, mentira, aquece-me um bocado, faz sempre jeito, espreito a dona Mercedes com mais interesse e encontro os olhos dela fixos nos meus e uma espécie de suspiro a aumentar e diminuir o peito considerável, uma segunda viúva para a dona Mercedes

- O cavalheiro elegante simpatiza consigo

a dona Mercedes baixa os olhos, aumenta o pó de arroz das bochechas e fita-me de novo, uma terceira viúva

- Vai acabar em romance não tarda

volto para casa envergonhado, moro mesmo em frente do café, num prédio com o salão de beleza Recupere a Mocidade no primeiro andar e eu três assoalhadas por cima da mocidade recuperada, há quinze dias, na minha caixa do correio, para além da publicidade do costume e do aviso habitual das Finanças, que não tem mais nada que fazer senão incomodar-me, um sobrescrito cor de rosa com o meu nome no lado do destinatário, Mercedes Esteves, numa caligrafia caprichada, no lado do remetente, no interior uma página cor de rosa também, com um par de pombinhos azuis a segurarem, cada qual, a sua ponta de um laçarote branco e a mesma caligrafia caprichada

Exmo. Senhor o telefone da minha residência é o Tal e Tal, aguardo com esperança uma comunicação sua Respeitosamente Mercedes do Carmo Guerreiro Esteves, com um arabesco na ponta, que uma rosa terminava, e o baton de um beijo, ou não mencionando um cheiro tão espesso, tão forte, tão vivo, que tive de me encostar à parede para não cair. Deixei imediatamente de ser um reformado fantasma, subi as escadas numa leveza de vinte anos

(tenho setenta e cinco)

sem ligar à televisão nem ao jornal, não me deitei para uma sesta, não dormi, marquei o número

uma primeira vez, respondeu-me uma voz solene

- Agência o Céu é Seu, funerais, trasladações

percebi que tinha trocado um três por um nove, marquei de novo, com o coração irregular, uma criatura bem na vida prédios, terras, se calhar uma casa na praia, que são coisas que naturalmente perturbam os ventrículos, um

- Siiiiiiiiiiim?

de veludo transtornou-me a orelha, respondi num gaguejo

- Chegou-me uma carta

recebi uma pausa comovida em que se embrulhou um

- Estava com tanto medo que me tivesse esquecido

consegui a custo

- Como podia esquecê-la?

que continha dúzias de anéis e um sorriso no topo, e encontrámo-nos nessa tarde num café diferente, longe das restantes viúvas, eu a cabeleira loira e um vestido prateado que lhe acentuava os volumes, silenciosos um diante do outro, tímidos, nervosíssimos, a partilharmos um chazinho de tília, segurando a asa da chávena de mindinho em antena até os mindinhos se tocarem, se entrelaçarem, se prenderem, explicar-lhe

- Chamo-me José Pinto e sou reformado do Exército

sem acrescentar que no posto de sargento, não cheguei a oficial por preguiça, escutei a palavra

- Exército

num suspiro feliz, completado por um

- Um homem viril

e talvez viril, de facto, embora trabalhasse de escriturário, há escriturários marciais, capazes de se sacrificarem pela Pátria, o mindinho dela enrolou-se-me no pulso

- José

o meu mindinho enrolou-se no seu pulso

- Mercedes

a sentir, palavra de honra, o beijo do papel na minha boca, delicado, suave, um joelho contra o meu, um sapato a pisar-me com doçura

- Se sonhasse como me faz feliz, José

apesar de um dos anéis me trilhar um bocadinho a pele, o apartamento dela tão feminino, naperons, rendas, bonecos de loiça, quadros com ninfas, uma sereia quase de mármore, novelos de tricot num cestinho, um hamster a pedalar a sua roda, nós perto um do outro num sofazito de verga onde o decote aumentava, o cãozito estendido numa almofada a olhar-nos numa amizade compreensiva, e nisto um sujeito com o dobro do meu tamanho e metade da minha idade a puxar-me a gravata

- Quem é este moinante?

empurrando-me para o patamar

- Pisga-te

fazendo-me tropeçar nos degraus, desequilibrar-me, equilibrar-me, desequilibrar-me de novo, o sujeito a censurar a Mercedes

- Nunca mais tens juízo cretina?

a acrescentar

- É o quinto este mês

a Mercedes chorosa

- Já não posso receber amigos?

seguido de

- Não me deixes, Moisés

seguido de

- Juro que não volta a acontecer

e não me lembro de mais nada porque um vaso de flores, atirado pelo Moisés lá de cima, me acertou na cabeça. Aliás não tenho tempo de continuar a crónica: é hora de ir ao Centro de Enfermagem mudar a ligadura do penso.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1098, de 20 de março) | | 3 comentários

Cacilda

A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa

Se alugasse um dos quartos ajudava-me a pagar a renda da casa, se alugasse os dois dormia na sala mas ficava com a renda paga. Encolhendo-me dá para caber no sofá, o problema é a coluna, o médico preveniu

- Tem que dormir direita

e eu, de manhã, toda torcida, sem me conseguir mexer, afligida pela claridade que entra pelas persianas e me acorda logo de madrugada, puxando-me de sonhos confusos, com as pernas dormentes, não mencionando que os hóspedes têm que passar por aqui se querem ir à cozinha e o barulho dos chinelos, pssss, pssss, pssss, arrepia-me. Claro que finjo que continuo a dormir, claro que finjo não reparar nos gestos feios que atiram na minha direção e na palavra

- Velha 
que, sinceramente, aos cinquenta e seis anos me dói, embora concorde que pareço mais do que a minha idade, também é natural com a vida que tive, o trabalho de limpeza no armazém, o meu marido com o problema do álcool, que o vinho dava-lhe para a bruteza

- Andas a enganar-me sua vaca

eu que nunca o enganei, palavra de honra, aceitei uma ocasião um beijo de um vizinho e fugi logo, nem sei como aquilo aconteceu. O vizinho, que era viúvo, teve um ataque um mês depois, os bombeiros levaram-no e até hoje. Das duas uma, ou bateu a bota ou está, de boca à banda, num lar, sem conhecer as pessoas. Se aquilo acontecesse comigo o que preferia eu? Bater a bota ou ficar para ali, a receber uma sopinha que nem consigo engolir, de fraldas, a cheirar a comida azeda, no meio de colegas de fraldas, a cheirarem a comida azeda, ao lado de um sujeito que grita o tempo inteiro? Talvez bater a bota e ter sossego, mas quem me irá pôr flores na jarrinha da lápide? E quem me garante que não se ouvem, lá em baixo, as conversas dos vivos

- Sabe o que me disse o médico, dona Isaura?

ou

- Ao menos com ele ali quietinho tenho paz

e bengalas que se afastam no sentido do portão

- Caiu na asneira de confiar em doutores

misturadas com latidos de cães e aquelas máquinas infernais, de consertar passeios, a estremecerem o mundo, obrigando os ossos da gente a chocalharem sem fim. Isto optando por não referir a hipótese de esbarrar com o meu marido entre raízes

- Andas a enganar-me sua vaca?

à procura de um calhau perdido para me aleijar com ele, comigo a tentar escapar de campa em campa

- Deixa-me em paz, Dionísio

ou o vizinho do beijo, a cheirar a comida azeda

- Sua jeitosona sua jeitosona

prendendo-me a saia numa gargalhadinha feroz.

Portanto estou num dilema, como dizia o meu chefe

- Estou num dilema entre despedir o Cosme e não despedir o Cosme 

porque o Cosme se abotoou com uns dinheiros da caixa, a justificar-se

- É por conta dos três meses de ordenado que me deve

e, além disso, media um metro e noventa e tinha um cunhado polícia. Mas alugar um dos quartos ajudava-me a pagar a renda e almoçar de vez em quando uma postazita de peixe com grelos por causa da dieta

(o médico

- Peixinho, peixinho, que é mais saudável do que caviar)

mastigada sem pressa a fim de durar mais tempo. E depois pode ser que o hóspede deixasse umas sobras no balde, no meio de cascas e, com sorte, talvez descobrisse por lá um restito de febra. A falta de dinheiro é um problema, tenho a luz em atraso, tenho o gás em atraso, esta semana, depois de escurecer, vou andar para aí a bater nas paredes, palpando o ar à cata do sofá e magoando a barriga na esquina da mesa. Já não me fiam na farmácia, a dona da mercearia faz que não me conhece, até se fartar de me ver palpar melões e me gritar

- Andor

ela que, durante anos, considerei uma amiga, casada com um homem no género do meu marido, permitindo-nos comparar más sinas e nódoas negras. Ainda pensei procurar o meu chefe mas quem aceita uma empregada de limpeza de cinquenta e seis anos, mesmo mostrando o bilhete de identidade

- Está aqui no cartão, repare

competente, educada, honesta? Talvez o melhor seja deixar esta casa com os tarecos e tudo, e sair para rua ao acaso. É capaz de haver lugares vagos debaixo das pontes ou nas entradas dos prédios, é capaz de existirem homens decentes

- Velha mas jeitosona

desejosos de dividirem comigo os cobertores, o caldo da paróquia e o sabão do balneário público, capazes de me oferecerem metade do seu degrau no coreto

- Agarradinhos cabemos

e dormimos um contra o outro, na eventualidade de não ressonarem muito, com um rafeiro, preso por uma corda, aos pés, aquecendo-nos os joanetes, e passarmos as tardes num banco de jardim, lado a lado, disputando migalhas aos pombos, apanhando-as com um prego espetado no fim de uma vara, ou até, com sorte, apanhando um pombo mais distraído e chamar-lhe faisão.

António Lobo Antunes, (comentário publicado na VISÃO 1096, de 6 de março) | | 1 comentário

A caixa das cinzas

Às vezes, a meio da noite, parece-me que tosse mas deve ser ideia minha. Fica na sala e não me puxa os cobertores nem me dá joelhadas. Também não tenta despir-me a camisa aos arrepelos. E encontro-o de manhã no seu esconderijo, sossegadinho, sem remexer na lata do café. A minha cunhada afirma que ele agora são cinzas inofensivas

O meu marido foi cremado anteontem e no fim deram-me uma caixa com ele lá dentro. Fiquei na dúvida se estava inteiro numa caixa assim pequena, porque era grande e gordo, apeteceu-me abrir a tampa para espreitar mas tive medo que uma das mãos lhe saltasse, no beliscão do costume

- Ai meu bonbom

de maneira que o deixei ficar lá dentro, sem me apertar a bochecha. Está ali na cómoda, quietinho, nem um ai, não me aborrece quando mudo o canal da televisão

- Põe-me essa porcaria na bola

e, pela primeira vez, assiste às novelas comigo sem protestar. Sem nenhum som aliás, nem sequer borbulha. Às vezes, a meio da noite, parece-me que tosse mas deve ser ideia minha. Fica na sala e não me puxa os cobertores nem me dá joelhadas. Também não tenta despir-me a camisa aos arrepelos. E encontro-o de manhã no seu esconderijo, sossegadinho, sem remexer na lata do café. A minha cunhada afirma que ele agora são cinzas inofensivas. Um dia destes uso uma pitada ou duas a fim de animar as sardinheiras, mas o beliscão

- Ai meu bonbom

retém-me e um jogo da bola com ele ao lado no sofá, a dar murros na almofada quando perdem um golo

- Olha-me aquela arbécola

retem-me mais ainda, porque às vezes o murro, em lugar da almofada, acerta-me na coxa enquanto, na novela, a rapariga, que não é uma actriz de confiança, troca a mãe doente pelo filho do patrão. Nunca foi boa rés, essa: ainda o ano passado, nas Rosas da Ignomínia, enquanto não obrigou a irmã gémea a emigrar não descansou. Depois, claro, casou com o engenheiro, que agora é padre e tenta compor as coisas, o que são as pessoas, enquanto a irmã gémea mudou de canal para não ter de emigrar de novo. Já a espreitei um episódio ou dois. Hoje é rica e faz a vida negra ao marido, que um acidente de automóvel atirou para uma cadeira de rodas e só quer o bem dela. Antes de se tornar paralítico foi pianista no Vamos Dançar? e cirurgião cardíaco no A Promessa do Céu, onde salvou a vida a uma rapariga com quem mais tarde casou. Com estas mudanças todas não estou certa que o casamento continue. Aí concordo com o meu marido, o futebol é mais simples: só arbécolas e um que ele chama o Grande Eurico, que marca os golos todos. Quando erra passa de Grande Eurico a Eurico de Merda. Ultimamente, antes de o meu marido se tornar cinzas era mais Eurico de Merda do que Grande Eurico. O meu marido começou a desprezá-lo.

- E perdes-me isso, e perdes-me isso?

E dali às cinzas foi um passinho. Se por acaso me cruzasse com o Eurico na rua não lhe falava mas, por sorte dele e minha, nunca nos encontrámos, que eu tenho o meu temperamento e, volta não volta, exalto-me. Ninguém me tira da cabeça que o futebol não é culpado da minha viuvez e da caixa das cinzas em cima da cómoda da sala. E deixei de ser bonbom para me tornar uma viúva que ninguém belisca. Nesse ponto a minha cunhada argumenta que viúvas de sessenta e três anos só são beliscadas por ceguinhos, para além do respeito que o luto inspira. Nem no autocarro nem no metro se encostam a mim, quanto mais beliscões. Ainda por cima a perna esquerda começa a arrastar-se e já não pinto o cabelo. Enraivece-me que a minha cunhada, da minha idade, esteja ali para as curvas, até as unhas pinta e anda lampeira que é um regalo. É injusto e estas desatenções de Deus fazem-me pensar que uns são filhos e outros enteados. Provavelmente se o meu marido fora da caixa nenhum

- Bonbom

para amostra, um resmungo

- Nem para atacadores já serves

a piscar olhinhos marotos à dona da capelista que me aponta com o dedo convencida que eu não topo. Topo mas engulo, não vá a palmada na cadeira passar do Grande Eurico para mim. O meu marido sempre foi um homem que sabe o que é ser homem e, apesar do meu temperamento, topo muito bem quando é preciso tirar os cavalinhos da chuva. Mesmo diante da caixa das cinzas contenho-me que a gente nunca tem a certeza do que o destino reserva. Ando cá a pensar em guardá-las na despensa, atrás dos boiões das compotas, a fim de me poder expandir um bocadinho no caso de me dar na gana, sem que o meu marido perceba. É que não estou muito a par do que se esconde dentro da caixa, se o

- Meu bonbom

se a palmada, que mais de uma ocasião passou da almofada para mim, o dentista que o diga. Mal eu entrava a porta perguntava logo

- O seu esposo excedeu-se outra vez?

e, no meio da broca, ouvia-o suspirar

- O que eu poupava de maçadas se fosse como ele

mas não era coitado: um lingrinhas raquítico que a mulher trocou pelo protésico e ele nem pio. Se calhar, pensando bem, talvez me desse boa vida. No caso de me aborrecer ordenava

- Calou

e ele, sem broca para se defender, manso que dava  consolo. E tinha alguém ao meu lado, à noite, na cama, sem me puxar os cobertores, deitado na outra bordinha para não incomodar. Se me chegasse a sede, às quatro da manhã, uma cotovelada

- Traz-me um copo de água

e ficava a ouvi-lo afastar-se na direcção da cozinha, voltando com a água e um pires por baixo. Acabava de beber, ordenava

- Põe isso tudo no sítio, não me apetece tralha por aqui

e pode ser que, de quando em quando, o deixasse tocar-me com a mãozinha hesitante. Mas ao de leve, claro, que já não me sobra paciência para poucas vergonhas e, além disso, sei lá do que a caixa das cinzas é capaz.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1094, de 20 de fevereiro | | 8 comentários

Tudo cinzento na janela

Hoje jantar em casa dos meus pais sem o Pedro, não faz sentido jantar em casa dos meus pais sem o Pedro. O lugar dele é à direita da mãe. Quem o ocupará? Eu sento-me na cadeira do meu pai e o mundo é muito diferente visto dali. Normalmente pouco digo, pouco oiço. Hoje penso que vou ouvir-te o tempo todo, mais o que existe nos intervalos das frases, ou seja, o principal

Tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste. Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. E eu sentado nesta mesa, à espera de uma crónica que não aparece. Vou enchendo a página de palavras na esperança de que alguma salte como um peixe. Não salta. Ficam no fundo do papel, escondidas, nem a sombra lhes vejo. Se calhar acabaram-se, as palavras. Penso no Pedro. Desde que morreu, no dia vinte e um de dezembro, nem há um mês ainda, é quase só o que faço, pensar nele. Não estou a escrever, estou a acabar de corrigir um livro, que é um trabalho diferente, posso fazer com o Pedro à beirinha. Aliás ele sempre foi calado, sou eu que pago a conversa. Estamos aqui, estamos em Torres Novas, estamos noutros sítios por onde andámos juntos e, como quase sempre, o nosso diálogo é feito de silêncios, com uma frase ocasional de vez em quando. Custa-me redigir isto, mas lá vou coxeando. Tudo cinzento na janela. Há anos, estávamos sozinhos os dois, à noite, na rua, o Pedro caiu em coma à minha frente. Era um derrame na cabeça, o João operou-o e salvou-se. Desta vez morreu na voz do João, que recebeu a notícia pelo telefone e, de repente, o dia principiou a coxear. Até hoje nem um deixou de coxear. Eu não percebo a morte. Provavelmente também não percebo a vida. Existirá alguma coisa para perceber? E, no que se refere a isto ter acontecido ao meu irmão, então aí não percebo nada. Árvores, casas, tudo triste, já se inventou coisa pior do que janeiro? Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. Se uma pontinha de sol, ao menos. Hoje jantar em casa dos meus pais sem o Pedro, não faz sentido jantar em casa dos meus pais sem o Pedro. O lugar dele é à direita da mãe. Quem o ocupará? Eu sento-me na cadeira do meu pai e o mundo é muito diferente visto dali. Normalmente pouco digo, pouco oiço. Hoje penso que vou ouvir-te o tempo todo, mais o que existe nos intervalos das frases, ou seja, o principal. E o principal, o único, é a tua ausência. O que me é insuportável é que a tua ausência vai continuar a existir. Para sempre. E é muito difícil pensar que não estarei mais contigo.

A gente, claro, conhece-se desde que tu nasceste. Temos o mesmo sangue. Quando te trouxeram para casa, numa alcofa, eu era uma criança de três anos e estava doente dos pulmões. Tuberculose. Lembro-me de te mostrarem a mim e eu ficar a arder de ciúmes, porque me davam menos atenção. Recordo-me tão bem disso. A arder de ciúmes, furioso. Recordo-me e espanto-me porque não sou ciumento. Também não sou invejoso. Algumas qualidades havia de ter, caramba. Nem são qualidades sequer, quando muito ausência de defeitos. Pedro. Moreno. De cabelo escuro, ao contrário dos teus irmãos loiros e de olhos azuis, os já nascidos e os que viriam a nascer. E depois, a pouco e pouco

(tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste)

uma grande ligação entre nós foi crescendo. Possuo cartas tuas da guerra, cheias de amor contido. Foste primeiro do que eu, voltaste antes da minha partida. Depois conheci uma rapariga e levei-te para ta apresentar. Achei que te calhava bem. Calhou. A gaita é a vida inteira durar tão pouco tempo.

Começa a anoitecer agora. Nem uma janela acesa no outro lado da rua. Eu aqui a fazer isto. Trago tanto para te contar que não consigo contar nada, tanto para contar de ti que não consigo contar nada. Aqui entre nós para quê? Tu sabes tudo o que eu poderia escrever e, o resto, a quem interessa? E depois existem coisas só nossas, íntimas, secretas, sem interesse para os outros, creio. E o que já não podemos partilhar porque morreste para sempre, porque vou morrer para sempre. Ficam aqueles que prolongarão o nosso sangue, cada vez mais diluído no sangue dos outros. Até o nosso sangue, que era um só, desaparecerá. E, depois, nada.

Tanto frio, Pedro, hoje. Já não distingo as árvores, distingo, na rua, um candeeiro desfocado. Só um. Ambos moramos em sítios feios e tristes, nesta cidade hoje feia e triste. É quinta-feira. Dia de jantar nos pais. Não te vou encontrar e, todavia, sei que passarei o tempo à tua espera.

- Porque carga de água o Pedro não veio hoje, ele que vinha sempre?

E não vou entender. E ficarei incapaz de entender. E ir-me embora sem entender. Nem sequer que morreste entenderei. Até ao fim dos meus dias não entenderei nunca. Diz-me lá uma coisa: achas que isto faz algum sentido? Achas que isto é justo? O que era cinzento na janela negro agora. Não faz sentido nem é justo. E não me acenarás do teu carro à medida que te afastas, não fazes a curva nem te afastas de mim. Não és. Não voltarás a ser. E, pior do que tudo, realmente o pior de tudo, acabará a tua mão no meu ombro, acabou a tua mão no meu ombro. Ou fui eu, mano, que deixei te ter ombro?

António Lobo Antunes | | 7 comentários

Adeus

Enquanto o comboio do jornal passa em baixo, enquanto a água quente arrefece na selha, enquanto alguém dá à bomba junto ao poço, enquanto a vejo dançar o charleston na cozinha  

Não acendas a luz. Não é que queira dormir, não quero, mas não acendas a luz nem me toques quando te deitares, apetece-me a sensação de estar sozinho, de olhos abertos no escuro, sem pensar em nada, a ouvir o silêncio, a esquecer-me do silêncio, a ouvi-lo de novo e, no fundo do silêncio, uma voz que não sei a quem pertence e me chama. Ou não é a mim que chama, não chama por ninguém, existe apenas. Não percebo que idioma fala, julgo que não se me dirige, murmura somente, interrompe-se, recomeça. Não a entendo, não me interessa entendê-la, dou por ela e pronto. Hoje fui visitar a minha mãe ao hospital. Tão pequena, tão magra, quase nem um relevozinho nos lençóis. Fez-me festas na mão. Depois vim-me embora. Era a única pessoa no elevador. A seguir um átrio enorme, vazio, com uma empregada longíssimo, atrás de um balcão. Poltronas. Um ou outro letreiro cheio de setas. Um pátio com meia dúzia de automóveis de médicos, os carros dos doentes não podem entrar. Uma ambulância de aspecto abandonado e lanterna apagada no tejadilho. Ruazinhas. Em qual delas deixei a porcaria do Volvo? Ninguém nas ruazinhas, é domingo, excepto um cão além, a coxear. A minha mãe lá em cima, confundindo as coisas. Não se lembra dos nomes dos filhos. Informo-a

- Sou o António

que ela repete, num eco vazio

- O António.

Pergunto-lhe

- Quais são os nomes dos meus irmãos?

Faz um esforço para se recordar, desiste:

- Não sei

sem interromper as festinhas, brandas, lentas:

- O António

e, depois

- Pai

porque o pai dela António igualmente, um homem silencioso de que me recordo mal. A ideia de um sorriso vago, o jornal lido na varanda, que chegava no comboio do meio-dia. Via-se do alto da casa a atravessar os campos numa respiração custosa, e eu com uma caixa de fósforos, com joaninhas dentro, no bolso dos calções. Castanheiros, granito, a garagem inundada por bicicletas velhas. A minha mãe

- O António

dava-nos banho numa selha, com um balde de água aquecido no fogão. Isto antes do jantar, que comíamos de pijama. O meu avô a mastigar calado, um dos meus tios a rir-se. Qual deles?

- Quem era o tio que ria, mãe?

e ela, na cama do hospital, ou antes, da clínica

- Não sei

a alisar os dedos nos meus, sem descanso

- Não sei

nem sequer perplexa, nem sequer aflita, num vagar monótono

- Não sei

a beber por um tubinho, a procurar-me, sem me encontrar, com os olhos cegos, o que é feito do seu corpo, senhora, nem um relevozinho no lençol, sabia, enquanto o comboio do jornal passa em baixo, enquanto a água quente arrefece na selha, enquanto alguém dá à bomba junto ao poço, enquanto a vejo dançar o charleston na cozinha, a gente pedia

- Dance um bocadinho de charleston, mãe

você dançava e, à medida que dançava, ia-se afastando de mim, deitada no hospital, na clínica sem ninguém no átrio, sem ninguém na rua

(é domingo)

excepto um cão manco, um cão manco, um cão manco, um cão, parecido comigo, que se afasta como eu, um cão que, se o chamasse

- António

talvez olhasse para trás antes de continuar a ir-se embora sem procurar o Volvo, de focinho, rente às pedras, a cheirar o passado que, de certeza, não encontra

- Quem roubou as minhas joaninhas?

que, de certeza, encontra mas onde que o não distingo, se ao menos a minha voz

- Chega aqui, cão

e não chega, perdi-o, estou tão longe agora, mãe, tão longe, começo a descer uma travessa para o rio, não oiço nenhum

- António

que me faça parar, nenhum

- António

que me faça voltar atrás, nenhum

- António

que me espere, nenhuma mão na minha, nenhuma mão na minha cabeça, no meu lombo, na minha cauda, não a oiço, mãe, debruçada para a selha

- Deixa-me tirar-te o sabão das costas

porque não me rala o sabão, não me rala o comboio do jornal, não me ralam os castanheiros, não me rala não haver nenhum adeus, rala-me apenas a ideia de acenderes a luz e eu ao teu lado sem pensar em nada, a ouvir o silêncio e a dar-me conta de uma mulher nova a dançar o charleston na cozinha, sorrindo para um sujeito que não sou eu, que não conheço, que detestaria conhecer, colocando-se à minha frente, impedindo-me de alcançá-la, para dançar consigo.

 

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1088, de 9 de janeiro | | 20 comentários

Mirita

Ou faleceu ou foi com o Cândido para a Venezuela, hipótese em que não acredito porque, na sua idade, o clima de África perigoso, a não ser que a Venezuela fique noutro sítio qualquer, nunca tive facilidade em Geografia

Sempre vivi neste andar, primeiro com os meus pais, depois com o gato, depois sozinha e, nestes anos todos, praticamente nada mudou, nem sequer o papel de parede, nem sequer os tapetes, a gente habitua-se às coisas e depois custa ficar sem elas, mesmo envelhecidas, gastas. Também nada mudou praticamente na rua, as fachadas dos prédios, o que vejo dentro das casas quando as luzes se acendem. As pessoas envelhecidas e é tudo, menos cuidadas na maneira de vestir, mais lentas. Talvez algumas cortinas diferentes, um ou outro estore mudado. Até as lojas são praticamente as mesmas, a mercearia, o talho, o quiosque dos jornais, só que a senhora do quiosque o cabelo branco agora e um balanço ao andar desde que partiu a perna. Continua a chamar-me Mirita e eu continuo a chamála dona Assunção. O marido faleceu dos diabetes, ele que vinha às vezes ajudá-la a colocar os taipais. Não me recordo de o ouvir falar. Depois iam-se embora, não lado a lado, ele à frente e ela atrás, uns dez ou quinze metros, como se não se conhecessem. Conhecer-se-iam? Foi por essas e por outras que nunca quis casar-me apesar de ter havido pelo menos o Cândido, tão simpático, tão tímido, sem se atrever a conversar comigo, plantado no passeio em frente a olhar-me a varanda.

A seguir ao jantar, quando fechava o reposteiro do quarto, ia-se embora, notava que a conversar sozinho, uma ocasião percebi

- Sou tão parvo

e, a partir de certa altura, desapareceu para sempre. Disseram-me que emigrou para a Venezuela, não sei, contaram-me que tinha por lá uns parentes. Como será?

- Sou tão parvo

em venezuelano? Trabalhava numa companhia de seguros, vivia com a madrinha que, quando me encontrava, me segurava o braço, ficava um bocado em silêncio, murmurava

- O meu Cândido

largava-me o braço e afastava-se a acenar que não. Depois de o Cândido se sumir foi a altura dela desaparecer para sempre e, das duas uma, ou faleceu ou foi com o Cândido para a Venezuela, hipótese em que não acredito porque, na sua idade, o clima de África perigoso, a não ser que a Venezuela fique noutro sítio qualquer, nunca tive facilidade em Geografia. O Gabão, por exemplo, é onde? Ou Andorra? E não me venham com capitais que, aí então, é uma desgraça. Mas cozinho bem, engomo de uma forma que dava orgulho aos meus pais e a minha compota de ameixa faz lamber os dedos até ao cotovelo. Há pessoas que nascem para isto, pessoas que nascem para aquilo, eu nasci para as ameixas, o meu pai, a meu respeito

- Para as ameixas nunca vi igual

orgulhoso de mim e dá-me pena que, hoje em dia, seja só eu a comê-las. Se o Cândido aqui estivesse até era capaz de lhe oferecer um boião, palavra de honra, sem segundas intenções, claro, porque a ideia de um homem comigo assusta-me, cama a meias, discussões, o pavor de certas coisas de que me envergonha falar, não era capaz de confessá-las ao padre e ele, estou daqui a ver tudo, mandava o sacristão pôr-me fora da igreja, com a minha mãe lá no céu, ela tão religiosa, desiludida comigo, que é uma situação que nem suporto pensar. Sempre fiz os possíveis por não desiludir ninguém, o Cândido foi um caso à parte mas que alternativa tinha? Não se pense que não me custou, custou-me, e a prova está em que ainda hoje penso nisso, com um bichito no estômago a roer-me, a roer-me. Tinha um sinal na bochecha direita, gaguejava um bocadinho e agora, se calhar por minha causa, lá está na Venezuela, o infeliz, no meio dos elefantes, enquanto eu sempre neste andar, primeiro com os meus pais, depois com o gato, depois sozinha. O gato nem sequer faleceu de doença, faleceu de velhice, uma ocasião olhou para mim

(dávamo-nos bem, quantas tardes inteiras ao meu colo)

com o que me pareceu pena, coitado, e ficou-se como um passarinho. Ao princípio nem dei por nada, continuei a fazer-lhe festas, nisto percebi que já não estava entre nós e continuei a fazer-lhe festas durante muito tempo. Depois fui ao merceeiro pedir uma caixa de fruta vazia, embrulhei-o num cobertor, fechei a caixa, deixei-a no passeio e voltei para esta cadeira, sempre a fazer festas num animal que não havia. É que não possuo mais ninguém e é inverno. O inverno é sempre triste para mim, noite cedo, chuva, frio, a despensa cheia de frascos de compota de ameixa que não como, que ninguém come. Não me apetece chorar, mesmo que me apetecesse chorar não conseguia chorar. O mais que consigo é ouvir o Cândido a ir-se embora

- Sou tão parvo

olhando a minha varanda, lá ao fundo, da esquina, e quem se sente parva sou eu. Se ele aqui estivesse podíamos conversar os dois. Não sou grande espingarda em conversas mas gosto de ouvir. Falem do que falarem gosto de ouvir. Mesmo que o Cândido não falasse ouvia na mesma. Talvez repetisse o meu nome

- Mirita

e me sorrisse. Talvez, se me sorrisse, eu sorrisse também. Há alturas em que sou capaz de sorrir. Palavra. Não assim um sorriso muito grande, um sorriso discreto, mas um sorriso. Escutava

- Mirita

e sorria. Sorria contente, juro: há quantos anos não oiço o meu nome? Mirita, não sei o que acham, mas não é assim tão feio, pois não? E julgo que me sentiria feliz, que o Cândido se sentiria feliz, e que trazia um boião de compota de ameixa, da despensa, para comermos os dois, enquanto a sombra do meu pai lhe explicava, orgulhoso

- Para as ameixas nunca vi igual

com o Cândido a dar-lhe razão.

António Lobo Antunes | | 15 comentários

O último abraço que me dás

Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me

- Abrace-me porque é o último abraço que me dá

durante o abraço

- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento

e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.

Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:

- Estou aqui para lutar

e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.

A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido

- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento

porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.

O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:

- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.

Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.

Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

António Lobo Antunes | | 19 comentários

O Rabo

Eu que vinha da guerra, me achava um homem, à custa de haver crescido na mata durante dois anos

- Doutorinho, doutorinho

disse ela. Era uma senhora de noventa anos, com uma bengala na mão direita e um saco de plástico na esquerda, a arrastar os pés difíceis. A boca tremia ao falar, tinha pouco cabelo, não a reconheci.

- Não se lembra de mim, pois não?

e não lembrava, tão idosa, tão lenta. Lembrava-se ela

- Foi há tanto tempo, doutorinho

a segurar a placa com a língua. Roupa antiga, chinelos, as pernas estreitas, demoradas, duas alianças coladas uma à outra, os olhos meio sumidos na algibeira das pálpebras. A partir de certa altura a cara ganha bolsos que vão engolindo as feições. Um casaquinho de malha a que faltava um botão, um camafeuzito ao pescoço. E, no entanto, qualquer coisa nela que não me era inteiramente estranha, mas o quê? Ajudou-me

- Era enfermeira no hospital na altura em que o seu paizinho lá trabalhava, ainda apanhei o doutorinho quando para ali entrou

e a qualquer coisa que não me era estranha a aumentar, os noventa anos a transformarem-se numa mulher entre duas idades, ainda bonita, com um sorriso que, na altura, lhe enchia a cara toda. Faltava-me o nome, a senhora ajudou-me

- Sou a Estela

e, escondida nas rugas e na dentadura, a Estela de facto, a Estela de súbito, despachada, direita, a dar de comer a uma doente, a entrar no refeitório do pessoal com as colegas, a informá-las

- Aquele doutorinho é filho do senhor doutor

a informar-me

- Não se zangue comigo, doutorinho, mas apertando-lhe o nariz ainda sai leite

eu que vinha da guerra, me achava um homem, à custa de haver crescido na mata durante dois anos, tinha uma filha bebé, considerava-me uma pessoa crescida, e logo esta criatura a destruir-me as ilusões

- Apertando-lhe o nariz ainda sai leite

reduzindo-me a um crianço definitivo. Enfermeira Estela: tão baixinha agora, tão mirrada. Perguntei-lhe

- Acha que ainda me sairá leite do nariz?

e, na cara dela, inesperado, o tal sorriso que a enchia toda

- Qual é a dúvida?

e dúvida nenhuma, a enfermeira Estela mesmo, sempre de saltos altos, a quem o meu chefe apreciava o rabo

- Olhe-me para aquilo

não pela boca, pelo interior do cigarro

- Olhe-me para aquilo

comigo a concordar por educação, a concordar mesmo sem ser por educação, na verdade o rabo, ao jantar, em casa do meu pai, séculos depois, não sei porque carga de água, a enfermeira Estela apareceu na conversa, o meu pai, de garfo suspenso

- Eu não devia falar nisso mas tinha cá um rabo

de olhinho sonhador, a equilibrar o peixe

- Um rabo e pêras

a seguir ao rabo e pêras a enfermeira Estela evaporou-se até regressar agora, sem rabo algum, de bengala e saco plástico, reduzida a uma marioneta penosa

- Doutorinho, doutorinho

conquistando cada passo numa vitória duramente ganha. O marido enfermeiro também, de bigode galante, preferindo qualquer outro rabo ao rabo dela

- O seu marido, senhora enfermeira?

e a enfermeira Estela, a encaixar melhor a dentadura com o indicador

- Os diabetes levaram-no nem eu sei já quando

se calhar na época em que o seu rabo ainda exaltava os médicos, se calhar depois, quando já não exaltava ninguém, primeiro mole, a seguir inexistente e a enfermeira Estela, viúva do marido e do traseiro, uma vidinha de viúva num apartamento qualquer, com o retrato do bigode galante à cabeceira, para quem não devia olhar, a reunir-se à tarde com colegas cada vez mais decrépitas, para chazinhos num cafezeco ao pé de casa, conversando disto e daquilo, conversando de quê, até as colegas desaparecerem uma a uma

- Só cá estou eu, doutorinho

viúvas igualmente, caminhando no céu, de bengala e saco de plástico, a estenderem deditos incertos para a tília que São Pedro lhes deve servir a meio da tarde.

- Olhe que não mudou nada, doutorinho

retribuí-lhe o galanteio, de rabo na ideia

- A senhora enfermeira também não

a boca tremeu-lhe com mais força

- Não troce de uma velha

e pareceu-me que uma espécie de lágrima na algibeira da pálpebra, se calhar imaginação minha, sou dado a fantasias, se calhar verdade

- Não troce de uma velha

porque a bengala um arabesco no ar antes de cravar-se no passeio em busca de equilíbrio, acrescentando baixinho

- Ainda se recorda do meu rabo?

e eu a fingir que não ouvia, a fingir que não ouvia, a fingir que não ouvia, a arranjar uma desculpa para me ir embora depressa, misturada com um

- Então não recordo?

se calhar não tão saudoso como ela desejava, como eu desejava, como o meu pai desejaria, ao virar a esquina o meu chefe, apreciativo

- Que pedaço de perdição

e tive quase a certeza que a espécie de lágrima, nem acredito no que escrevo, em mim.

 

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1081, de 21 de novembro | | 5 comentários

Um Dó Li Tá

Existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé?

Perguntam-me muitas vezes por que motivo nunca falo do governo nestas crónicas e a pergunta surpreende-me sempre. Qual governo? É que não existe governo nenhum. Existe um bando de meninos, a quem os pais vestiram casaco como para um baptizado ou um casamento. Claro que as crianças lhes acrescentaram um pin na lapela, porque é giro

- Eh pá embora usar um pin?

que representa a bandeira nacional como podia representar o Rato Mickey

- Embora pôr o Rato Mickey?

mas um deles lembrou-se do Senhor Scolari que convenceu os portugueses a encherem tudo de bandeiras, sugeriu

- Mete-se antes a bandeira como o Obama

e, por estarem a brincar às pessoas crescidas e as play-stations virem da América, resolveram-se pela bandeirinha e aí andam, todos contentes, que engraçado, a mandarem na gente

- Agora mandamos em vocês durante quatro anos, está bem?

depois de prometerem que, no fim dos quatro anos, comem a sopa toda e estudam um bocadinho em lugar de verem os Simpsons. No meio dos meninos há um tio idoso, manifestamente diminuído, que as famílias dos meninos pediram que levassem com eles, a fim de não passar o tempo a maçar as pessoas nos bancos, de modo que o tio idoso, também de pin

- Ponha que é curtido, tio

para ali anda a fazer patetices e a dizer asneiras acerca de Angola, que os meninos acham divertidas e os adultos, os tontos, idiotas. Que mal faz? Isto é tudo a fazer de conta.

Esta criançada é curiosa. Ensinaram-me que as pessoas não devem ser criticadas pelos nomes ou pelo aspecto físico mas os meninos exageram, e eu não sei se os nomes que usam são verdadeiros: existe um Aguiar Branco e um Poiares Maduro. Porque não juntar-lhes um Colares Tinto ou um Mateus Rosé? É que tenho a impressão de estar num jogo de índios e menos vinho não lhes fazia mal. No lugar deles arranjava outros pseudónimos: Touro Sentado, Nuvem Vermelha, Cavalo Louco. Também é giro, também é americano, pá, e, sinceramente, tanto álcool no jardim escola preocupa-me. A ASAE devia andar de olho na venda de espirituosas a menores. Outra coisa que me preocupa é a ignorância da língua portuguesa nos colégios. Desconhecem o significado de palavras como irrevogável. Irrevogável até compreendo, uma coisa torcida, e a gente conhece o amor dos pequerruchos pelos termos difíceis, coitadinhos, não têm culpa, mas quando, na Assembleia, um deles declarou

- Não pretendo esconder nem ocultar

apesar da palermice me enternecer alarmou-me um nadita, mau grado compreender que o termo sinónimo seja complicado para alminhas tão tenras. Espíritos tortuosos ou manifestamente mal formados insinuam, por pura maldade, que os garotos mentem muito, o que é injusto e cruel. Eles, por inevitável ingenuidade, não mentem nem faltam às promessas que fazem: temos de levar em conta a idade e o facto da estrutura mental não estar ainda formada, e entender que mudar constantemente de discurso, desdizer-se, aldrabar, não possui, na infância, um significado grave. A irrealidade faz parte dos cérebros em evolução e, com o tempo, hão-de tornar-se pessoas responsáveis: não podemos exigir-lhes que o sejam já, é necessário ser tolerante com os pequerruchos, afagá-los, perdoar-lhes. Merecem carinho, não crítica, uma festa na cabecinha do garoto que faz de primeiro-ministro, outra na menina que eles escolheram para as Finanças e por aí fora. Não é com dureza desnecessária e espírito exageradamente rígido que os educamos. No fundo limitam-se a obedecer a uns senhores estrangeiros, no fundo, tão amorosos, que mal fazem eles para além de empobrecerem a gente, tirarem-nos o emprego, estrangularem-nos, desrespeitarem-nos, trazerem-nos fominha, destruírem-nos? São miúdos queridos, cheios de boa vontade, qual o motivo de os não deixarmos estragar tudo à martelada? Somos demasiado severos com a infância, enervam-nos os impetuosos que correm no meio das mesas dos restaurantes, aos gritos, achamos que incomodam os clientes, a nossa impaciência é deslocada. Por trás deles há pessoas crescidas a orientarem-nos, a quem tentam agradar como podem à custa daqueles que não podem. Os portugueses, e é com mágoa que escrevo isto, têm sido injustos com a infância. Deixem-nos estragar, deixem-nos multiplicar argoladas, deixem-nos não falar verdade: faz parte da aprendizagem das mulheres e homens de amanhã. Sigam o exemplo do Senhor Presidente da República que paternalmente os protege, não do senhor Ex-Presidente da República, Mário Soares, que de forma tão violenta os ataca e, se vos sobrar algum dinheiro, carreguem-lhes os telemóveis para eles falarem uns com os outros acerca da melhor forma de nos deixarem de tanga. Qual o problema se há tanto sol neste País, mesmo que não esteja lá muito certo de o não haverem oferecido aos alemães? E, de pin no casaco que nos fanaram, isto é, de pin cravado na pele

(ao princípio dói um bocadinho, a seguir passa)

encorajemos estes minúsculos heróis com um beijinho, cheio de ternura, nas testazitas inocentes.

António Lobo Antunes, Crónica publicada na VISÃO 1078, de 31 de outubro | | 9 comentários
Página 1 de 18 1 | 2 | 3 | 4 | 5 |
 
PUBLICIDADE
Visão nas Redes