O pai falecera há vinte anos, mentira, vinte e um, ainda novo, de um aneurisma, numa época em que a mãe andava, embora de bengala
Vivia com a mãe, que estava paralisada numa cama há onze anos. Dava-lhe de comer, mudava as fraldas, tratava de tudo, tinha um divãzito à cabeceira, onde se sentava à noite, junto dela, a assistir à televisão. Dormia ali também, não fosse preciso qualquer coisa a meio da noite, um copo de água, uma bolacha, um comprimido. E passavam dias a fio sem uma palavra: para quê? Saía de credo na boca para o supermercado, pagar as contas, essas coisas. Às vezes demorava mais tempo nos Correios, quando havia muita gente na bicha, para receber a reforma, e o facto da mãe poder precisar dela em tais alturas inquietava-a. Arranjava-se para esses momentos, pintava-se, punha uma boininha vermelha. De dois em dois meses viajava até ao cabeleireiro umas esquinas acima, a colorir o cabelo de loiro, e lia as revistas de casamentos e divórcios de reis, cantores, jogadores de futebol e actrizes de novelas, pessoas importantes. Uma ocasião, ao voltar para casa, viu passar, de automóvel, a apresentadora do programa da tarde e ficou parada a olhar, feliz. Graças a Deus um semáforo vermelho manteve-a ali trinta segundos. Sorriu à apresentadora, que não lhe sorriu em troca, contudo o facto de lhe ter sorrido bastou-lhe. Não podia trabalhar por causa da mãe, mas a pensão do pai, com cuidado, ia chegando, pode poupar-se sempre aqui e ali, não comiam muito, a senhora da farmácia aceitava que comprasse os medicamentos a prestações, e era um ponto de honra para ela não falhar nenhuma. O pai falecera há vinte anos, mentira, vinte e um, ainda novo, de um aneurisma, numa época em que a mãe andava, embora de bengala. Quis Deus que tivesse sido uma morte sem sofrimento. Estava muito bem a ler o jornal, olhou para elas, disse
- Ai que porra
(de quando em quando soltava uma inconveniência ou outra, era homem)
poisou a cabeça na gravata e pronto. Tirando o
- Ai que porra
foi tranquilo. Só a incomodava um bocadinho o facto de, ao pensar nele, o
- Ai que porra
lhe manchar um tudo nada a lembrança. De certeza que a mãe se sentia igualmente incomodada com isso, uma senhora, não usava, é lógico, a expressão urinar, usava verter, por exemplo
- Ajudas-me a ir lá dentro verter?
e ajudava e a mãe vertia, que se escutavam as gotas a cantarem. As pessoas finas parece que têm um canário na bexiga, que agora, claro, não cantava, as fraldas, logo ali de sentinela, impediam-lhe a música. Ocasionalmente um ruído intestinal, porém as fezes não cantam, tocam trombone de varas e, depois de concertos mais demorados, dava um trabalhão limpar aqueles bemóis todos e colocar o creme a fim de impedir que a vocação artística assasse as nádegas. A mãe, que se desinteressara há séculos das claves de fá, permanecia imóvel, nem um dedo para amostra mexia, ela que dantes pegava na chávena de chá com o mindinho e o anelar em arco, educadíssima. Não dizia gaita, dizia maçada, não dizia chato, dizia importuno. Contudo apavorava-a a hipótese da mãe, dado que as pessoas são imprevisíveis, uma noite destas lançar um
- Ai que porra
inesperado e ficar-se como um passarinho. Sob esse aspecto, e era o único que tinha a apontar-lhe, o pai podia ter sido uma má influência, o pai no resto exemplar, ao entalar-se numa gaveta não exclamava palavrão nenhum, gemia
- Safa
e metia o dedo debaixo da água morna da torneira. Só mesmo encostando a orelha à boca dele, e nunca, claro, encostou a orelha à boca dele, daria pelo cicio de um
- Foda-se
que ela escutara em nova, amplo, imenso, ao electricista que apanhou um choque, lá em casa, a consertar um curto-circuito num interruptor. O electricista, envergonhadíssimo, para a mãe dela
- Desculpe, dona Floripes
e a mãe, uma verdadeira princesa
- Esteja à vontade, senhor Borges
como se o
- Foda-se
constituísse o seu alimento quotidiano e não constituía de forma alguma, mesmo quando os pais eram novos e ela dormia no quarto ao lado, registava, aos sábados à noite, os ténues protestos da cama que nenhum subtil e piedoso
- Ai Jesus
acompanhava, embora não se perceba lá muito bem o que o
- Ai Jesus
tem a ver com o ímpeto da Carne. De qualquer das maneiras, para citar os políticos, a nudez da mãe, nesta altura do campeonato
(nova citação dos mesmos)
era, não mencionando o trombone de varas, total. Engolia a sopinha e ficava a esmoer, diante da apresentadora do programa da tarde, entretida a acompanhar o Chefe Morais num apontamento culinário sobre Faisão a la Não Sei Quê que ninguém da assistência provaria a menos que atravessasse de cabeça o vidro do ecrã, misturando o bicho com válvulas e fios. Mas estava sol lá fora, era maio e, com tanta luz no mundo, a vida fervia de promessas. Só não entendia quais porque, dentro dela, novembro durava o ano inteiro e o que recebia do pai não chegava para ligar o calorífero. Porém aí a gente põe uma mantinha nos joelhos e aguenta. Não temos aguentado até agora?
É bonito. Sempre morei aqui e continuo a achar bonito
Como estou quase sempre sozinho arranjei o hábito de falar alto comigo mesmo. Por exemplo, de manhã, quando vou a sair para comprar o jornal, sinto que me falta qualquer coisa, pergunto
- Que é do relógio, estúpido?
que de facto não está no pulso e lá vou eu
- Hás-de ser sempre parvo
à mesa de cabeceira buscá-lo. Quem diz o relógio diz as chaves de casa ou a carteira, distraio-me, vivo na lua, perco os anos da minha afilhada, o dia em que a minha tia morreu, as coisas que é preciso comprar para comer. No supermercado previno-me constantemente
- Atenção Varela, atenção Varela
porque ou é o sal, ou é o pão, ou é a garrafa de rosé e voltar a fazer o caminho e a perder séculos na bicha da caixa, francamente, é um bocado aborrecido e as pernas já pesam. Pesam da idade e pesam dos diabetes, ao acordar ordeno-me logo
- Verifica os açúcares, Varela
faço o exame para controlar os comprimidos, enquanto faço o exame
- A consulta é quando?
confiro no papelinho, fixo a data, esqueço-a, escrevo-a no bloco da mesa da cozinha, em maiúsculas, para me lembrar
- Dia vinte e três às nove, cretino
volta e meia uma espiadela de confirmação
- Dia vinte e três às nove
e, de confirmação em confirmação, consigo estar na sala de espera do hospital como manda a sapatilha, de gravata porque um médico é um médico, já a minha mãe se arranjava para mostrar as varizes, eu, rapaz novo
- Vai toda triques para o doutor
como se fosse um baptizado ou assim, a minha mãe, a pregar o broche na lapela
- Um médico é um médico
e estes pormenores, parecendo que não, ficam, os meus pais, graças a Deus, ensinaram-me a educação e o respeito, sento-me diante da secretária a ajeitar a gravata, sem cruzar a perna, claro, e inclinado para a frente, não pergunto como está a tensão depois de me tirarem o aparelho do braço, espero que o médico informe
- Podia andar mais baixa mas vá lá
não estendo a mão para me despedir, espero que ma estendam e, se ma estenderem, aperto-a nem com muita força nem com pouca, com uma veniazita, verifico a nova data no papel antes de me despedir
- Até onze de junho, senhor doutor
pergunto da porta
- Quer que feche ou que deixe encostada?
e apanho o autocarro direito à farmácia, a recomendar-me
- A farmácia antes do ninho, Varela
a aviar a receita, coloco os medicamentos na prateleira da cozinha, depois de lhes escrever a maneira de tomar na embalagem porque vivo na lua, não me fio na memória, assim escrito não me engano, e sento-me meia hora no sofá com a televisão, todo catita ainda, antes de mudar de roupa para fazer o almoço, dado que um pingo deixa nódoa e as minhas mãos são dois cepos, a minha mãe
- As tuas mãos são dois cepos, não sei a quem sais assim que o teu pai tinha dedos de relojoeiro
embora fosse empregado de escritório como eu. Faleceram os dois há uma porção de anos, primeiro o meu pai, que tinha o coração fraco, depois ela de um problema nos rins de modo que tenho a casa toda para mim agora, três assoalhadas, marquise fechada, os móveis de sempre, uns retratos, o quadro com uma vista de praia, com duas senhoras estendidas na areia, debaixo de um guarda-sol, e no mar, de frente, um paquete ao longe, dos grandes, cheio de passageiros que não se vêm. O paquete é amarelo com uma listra azul e, na janela, os prédios fronteiros, umas árvores. É bonito. Sempre morei aqui e continuo a achar bonito. A seguir ao almoço a loiça para lavar, uma sestazita e, à tarde, a pastelaria com os jornais em cima da caixa grande dos gelados. Cumprimento uma pessoa ou duas, bebo um chá sem açúcar
- Não esqueças a pastilha, Varela
engulo a pastilha tirada de um coraçãozito de metal que pertenceu à minha mãe e me recorda sempre ela
- Mãezinha
pequena
(eu sou alto)
simpática, remexida, com a mania das limpezas mas pronto, toda a gente tem as suas manias
- Vai lá fora e esfrega outra vez os sapatos no capacho
de forma que, ainda hoje, vou sempre lá fora esfregar os sapatos no capacho, volto às sete, preparo o jantar e, depois de tudo arrumado, o corpo já não me puxa para sair outra vez. A televisão de novo, recordações de quando trabalhava, a lembrança da Mena com quem acabei por não casar, não por esta razão ou aquela, estava escrito, a minha mãe
- Está tudo escrito no livro da vida
e talvez tenha sido melhor assim, não sei, vivo na lua, sempre a dar preocupações às pessoas e, solteiro, não preocupo ninguém, às onze outra pastilha
- Não esqueças a outra pastilha, Varela
e cama, não a dos meus pais, a minha, a deles é deles e pronto, e fico, de candeeiro apagado, à espera do sono. Umas ocasiões vem depressa, outras ocasiões demora, sobretudo se pensar na Mena, tento não pensar na Mena, que habita sei lá onde, cheia de netos, pergunto-me se, cruzando-me com ela agora, a reconheceria, no caso de reconhecer cumprimentava
- Olá Mena
e andor, pode ser que me respondesse
- Olá Varela
pode ser que não, o tempo muda as pessoas, a pouco e pouco a Mena desvanece-se-me da ideia e, ao acordar, não penso nela. Quer dizer, acontece-me pensar mas é raro. Quer dizer, não é assim tão raro. Os olhos dela claros, o sorriso tímido. Estava escrito. A minha mãe, que sabe
- Está tudo escrito no livro da vida
e, no livro da minha vida, Deus riscou a Mena e eu aceito. Será que me sinto sozinho? Um dia destes vem o coração ou o rim e pronto. Confesso que me entristece, não bem tristeza mas como chamar-lhe, a Mena não vir a saber de nada, ninguém lhe contar
- Lá se foi o Varela
mas, no fim de contas, que importância tem que o Varela se vá?
"Ela sozinha, ela independente, ela livre, professora numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se, as covinhas também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da mão, quem te deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar assim, o que vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer"
Passados muitos anos ela disse-lhe
- Sempre gostei de ti, sabias?
e ele espantado: nem sonhava, era muito novo, quinze ou dezasseis anos, não reparava nessas coisas. Ficou a olhá-la, sem acreditar
- A sério?
e o que via era uma senhora de cinquenta anos que engordara, ganhara rugas, pintava o cabelo, mantinha, quando muito, uma sombra do sorriso de dantes no sorriso de agora, as mesmas covinhas nas bochechas, os mesmos olhos redondos mas com pálpebras diferentes, pregas injustas no pescoço, essas sardas que, a partir de certa altura, começam a aparecer nas costas das mãos, pernas espessas, sem tornozelos, onde pernas estreitas dantes, a cintura substituída por um relevo redondo. Espantou-se também com isso, com a crueldade das mudanças dela, esquecido, por instantes, da crueldade das mudanças dele, o cabelo ralo, os óculos, a cicatriz da operação a uma coisa na pele a que torceram o nariz no hospital e, no entanto, correu bem, ficou o lábio um bocadinho repuxado, ficou uma órbita mais redonda do que a outra, mas agora só precisava que o vissem de ano a ano
- Teve muita sorte
e ele grato à sorte às vezes, outras nem por isso, ao pensar
- No fundo qual é a piada de estar vivo?
e a arrepender-se logo da frase, não fosse o destino tomá-lo à letra e mandar-lhe outra coisa na pele ou noutro sítio qualquer, o que não falta numa pessoa são sítios para as doenças, a quantidade de tralha que a gente tem cá dentro. E agora, de repente, salta-lhe do passado, sem mais nem menos, aquela rapariga
(rapariga?)
com uma pergunta que o deixou banzo
- Sempre gostei de ti, sabias?
ele que tinha a certeza que ela nem reparava, a cochichar com as amigas, toda segredos e alegrias, na sua ideia indiferente a ele, indo-se embora sem o olhar sequer. Lembrou-se de uma ocasião lhe terem deixado uma prata de chocolate azul no livro de Geografia, de se demorar na prata a pensar - Quem meteu isto aqui?
saltou-lhe, quase sem querer
- Foste tu quem meteu uma prata de chocolate no meu livro de Geografia?
e a rapariga à sua frente
(rapariga?)
a corar, que estranho como, apesar da idade, as mulheres ainda coram, ainda apertam os dedos uns nos outros, ainda perguntam
- A sério que nunca deste por nada?
e claro que nunca deu por nada, acabou por deitar a prata fora, que patetice, ele com uma vontade súbita de reaver a prata, tirá-la da carteira, por exemplo, e mostrar-lha
- Olha
e ela mais corada ainda, apertando mais os dedos uns nos outros, erguendo um ombro, ela enternecida, quase à beira das lágrimas que se percebia pela tremura das pálpebras, ela, feliz
- Obrigada
porque afinal ainda existia, ainda era nova, ainda tinha esperança, ela divorciada
- Há séculos
um neto com dois anos do filho emigrado na Holanda
- Casou com uma holandesa, é engenheiro
e portanto ela sozinha, ela independente, ela livre, professora numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se, as covinhas também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da mão, quem te deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar assim, o que vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer, ela
- E se a gente almoçasse um dia destes?
ele a concordar com entusiasmo para dentro e, no entanto, calado porque as pernas, porque os tornozelos, ela a compreender melhor do que ele pensava
- Alterei-me muito, não foi?
e a tremura das pálpebras a aumentar, uma lágrima, desta feita presente, a embaciar-lhe o sorriso
- Sempre gostei de ti
a frase não jovial, trémula
- Sempre gostei de ti
a lágrima apanhada com o mindinho
- Interessa-me lá como tu és agora
não lhe interessava a ela como ele era agora mas interessava-lhe a ele como ela era agora, meu Deus o que faço eu com o convite do almoço, desculpou-se
- O melhor é dares-me o teu telefone e eu depois ligo
e não ligar, é evidente, sobretudo não ligar, gordura, rugas, as raízes do cabelo grisalhas, nem pensar em ligar, para quê, para sentir pena de si mesmo, para sentir pena dela, recebeu uma página de agenda com um número escrito e enfiou-o na algibeira sem olhar para ele
- Assim que nos separarmos vai fora
não lhe entregou o seu, claro, cair numa asneira dessas nem sonhar, ainda me chama mesmo e depois, separaram-se com um par de beijinhos castos que ele desejaria mais rápidos e nem olhou para trás, quais cinquenta anos, cinquenta e cinco no mínimo, que horror tudo isto, que pesadelo, que estranho e, ao mesmo tempo as covinhas, o sorriso, os olhos redondos, que lindos os olhos redondos porém agora as pálpebras diferentes e as sardas nas costas das mãos, o que lhe repugnavam sardas nas costas das mãos, a avó dele assim e o susto dela lhe tocar, ele a implorar calado
- Por favor não me toque, senhora
de maneira que amarrotou a página da agenda no bolso antes de puxá-la para a deitar fora e só ao abrir discretamente
(era a favor da higiene nas ruas)
a palma para que a folha com o número caísse no chão reparou que era uma prata de chocolate azul.
Tornámos a encontrar-nos no dia seguinte, tornámos a encontrar-nos mais vezes, convidei-a a visitar-me em casa, conversámos disto e daquilo, fomos ganhando amizade, dormimos juntos a verificar os oitos que conseguimos mais ou menos, um bocado tremidos mas conseguimos mais ou menos, a amizade deu lugar à afeição, a afeição deu lugar ao, não direi amor
- O dinheiro não traz a felicidade mas acalma os nervos, explicou ela. Foi uma colega minha quem me ensinou isto. Sobretudo os nervos do rapaz que lhe tomava conta do negócio
Não sei qual é a sua idade mas dá ideia de pensar que são vinte anos menos. Encontro-a na esplanada, às vezes, diante de um galãozito claro, com os vinte anos menos dentro de um vestido demasiado curto, que descobre as pernas magríssimas. Dois ou três anéis enormes fazem os possíveis por tapar os dedos deformados. Nunca vi uma pessoa com tantas veias ao léu, no pescoço, nos braços com enfiadas de pulseiras, nas têmporas até, a baterem, a baterem. Também teve um rapaz que lhe tomava conta do negócio, agora vive de esmolas:
- Por acaso não traz no bolso uma nota de vinte a mais que me empreste?
Dorme num quartito que uma sobrinha lhe empresta, uma rapariga enérgica que trabalha num bar de alterne: é uma vocação de família, essas coisas herdam-se, o sangue fala sempre mais alto. A rapariga enérgica grita
- Pensa que ganho o suficiente para a sustentar a galões?
dado que o rapaz que toma conta da sobrinha exige justificativos para cada cêntimo, visto o pessoal da segurança, quase todos polícias, ser meticuloso nas percentagens e prestar vassalagem mais acima, a um inspector que a Judiciária demitiu por ninharias deste género. O dono da esplanada, a quem a minha amiga faz uns favores ocasionais, pelo modo como se mexe um bocado empenado, interessa-se
- Como vai dona Ema?
derivado a que o osso da anca iniciou uma revolta contra ela, a que o colesterol aderiu. Felizmente o coração, por enquanto, mantém-se neutro e o médico anda em diligências diplomáticas na esperança de evitar que os ventrículos tomem partido
- São impulsivos os ventrículos, previne ele à dona Ema, as aurículas em geral pacíficas, os ventrículos é o que lhes dá na tola
e a dona Ema, é natural, preocupada com a tola dos ventrículos. Quase oitenta anos se calhar, sei lá, o osso da anca arrasta-se ao andar. Mas anda. Pelo menos por enquanto anda. Anda ela e andam os pombos no passeio em torno da esplanada. Sempre os achei parecidos com chefes de secção, sempre achei que, quando chegam, o mundo fica cheio de funcionários públicos. A dona Ema, a olhar para a minha tosta mista:
- Você o que é que faz como trabalho?
que é uma pergunta sempre difícil para mim. Não vou dizer que escrevo, tenho pudor, não vou dizer que sou médico porque já não faço medicina e os impulsos dos ventrículos escapam-me. Fico a olhar a tosta com ela e parecemos duas pessoas fixadas num quadro de museu. Respondo
- Ando por aí
e a dona Ema a subir da tosta até mim, desconfiada, não vá eu fazer parte do grupo do inspector e encontrar-me na esplanada em trabalho, investigando desvios aos regulamentos de conduta das raparigas do alterne, por vezes dominadas por impulsos autonomistas de País Basco, que umas bofetadas a tempo, graças a Deus, corrigem. As mulheres, largadas à solta, são todas como aquelas de que falava um senhor espanhol: a morte do marido transtornou-a tanto que, de um dia para o outro, o cabelo tornou-se-lhe loiro, e portanto convém andar em cima da fruta. A dona Ema, esperançosa
- Pediram-lhe que se ocupasse de mim?
e eu, não querendo desiludi-la
- Mais ou menos
fazendo-a sonhar com música, penumbra, mesas discretas e clientes sussurrantes, de joelhinho empreendedor, a sonharem com uma hora de ginástica sueca numa pensão a jeito. O problema da dona Ema era a anca
(- Será que aguenta, será que não aguenta?)
que o resto é como andar de bicicleta, não se esquece nunca, e até faz oitos se for preciso. A dona Ema hesitou nesse ponto, a vacilar
- Ainda conseguirei um oito?
e há-de conseguir, dona Ema, se o coração se mantiver neutro é canja.
Tornámos a encontrar-nos no dia seguinte, tornámos a encontrar-nos mais vezes, convidei-a a visitar-me em casa, conversámos disto e daquilo, fomos ganhando amizade, dormimos juntos a verificar os oitos que conseguimos mais ou menos, um bocado tremidos mas conseguimos mais ou menos, a amizade deu lugar à afeição, a afeição deu lugar ao, não direi amor, que oitenta anos sempre são uma barreira, a afeição deu lugar a uma ternura sólida, não cozinha mal, não limpa mal, tem-me o andar arrumado e, acerca de dois meses, mandei-a trazer os tarecos para aqui. Não me sinto aborrecido: tenho companhia à noite e massaja-me os ombros quando chego cansado. Não me trata por Hernâni, trata-me por Nani como a minha madrinha me tratava e uma noite ou outra damos um pulinho ao bar de alterne, onde me apresentou um militar reformado, um pouco a cair da tripeça mas lúcido, que me declarou com entusiasmo
- Tem aí uma pérola
e sem ofensa, até tenho. A idade a gente esquece e também não olho muito para ela. Sento-me no sofá, fecho os olhos, a dona Ema traz-me uma almofada para apoiar a cabeça
- Não estás melhor assim, Nani?
e realmente até estou. Descalço e confortável, com a dona Ema ao lado. De longe em longe um oitozito, basta-me pensar na sobrinha e aí vou eu. Ofereço-lhe uns trocos
(poucos)
para os alfinetes dela, que a dona Ema merece, dedicada, cúmplice. Quando o visitamos o médico o doutor segreda-me
- Um dia destes fica-lhe como um passarinho
mas enquanto fica e não fica vivo em sossego. No caso de ficar o meu cunhado, que trabalha no ramo, já me prometeu um funeral em conta. E no dia seguinte lá estarei na esplanada, certo de que no meio dos pombos algum galãozito claro há-de aparecer.
A minha avó, de quem eu gostava muito, triunfava de júbilo perante tanta vela, tanta medalhinha, tanta compressa, tanta perna ligada, tanto rastejar esperançoso. Assinava o jornal Novidades, diário católico que nunca vi fora da cinta, o Almanaque da Sãozinha, que celebrava os feitos de uma adolescente que deu a vida em troca da conversão dos pais
Esta crónica é dedicada ao meu querido Frei Bento Domingues, Homem de Deus e dos homens.
Quando eu andava no liceu e era mau aluno a minha avó prometia a Nossa Senhora levar-me a Fátima se eu passasse o ano. Devido à intercessão dos Pastorinhos, decerto muito ouvidos por Deus em matérias escolares, eu lá me salvava rés vés Campo de Ourique, graças à influência celeste dos ditos Pastorinhos e também, em menor grau, de um amigo do meu avô, professor no meu liceu, que coadjuvava as Doces Crianças mediante uns lamirés às pessoas certas
- Tem paciência, pá, dá lá um jeito ao rapaz
os mestres, sensíveis ao Divino, davam o jeito transformando os oitos em doses, sob o patrocínio atento, junto à túnica do Senhor, dos Excelsos Meninos, que decerto metiam
(quem discute isso?)
a sua colherada providencial, Deus acabava por ceder, por bondade ou cansaço
- Pronto, ele que não chumbe, larguem-me
e a minha avó, em lugar de ir comigo, em peregrinação, à casa do amigo do meu avô, que permanecia numa sombra discreta, pronto a actuar no ano seguinte
- Se os Pastorinhos estiverem de acordo a coisa arranja-se
metia-se numa camioneta comigo e transportava-me, durante horas que me pareciam intermináveis, ao Lugar Sagrado, a fim de agradecer convenientemente o milagre.
(Ainda hoje, homem de pouca Fé que sou, me surgem dúvidas acerca do papel dos Abençoados Infantes na minha carreira de estudante.)
E lá entrava eu em Fátima, que sempre se me afigurou
(serei um mal agradecido?)
um lugar lúgubre, cheio de gente de joelhos a arrastar-se, substituindo as infelicidades que os trouxeram ali por catástrofes nas rótulas, pastoreadas por freiras de fé inoxidável e senhoras voluntárias de crença à prova de bala. Não entendia tanta gratidão combinada com tanta esfoladela, não entendia tanta muleta, à beira de um ataque cardíaco, reconhecidas por graças confusas, o marido que deixou de beber, o adolescente, com problemas nos olhos, que agora via mosquitos na outra banda, padecentes em macas, a quem os hospitais desenganaram, mirando-me a meia pálpebra, já do outro lado do Mundo, no qual entrariam decerto, consolados por um bispo com pressa, no caminho do regresso, cheios de corda, nos sapatos da alma, a caminho do Céu.
Eu era uma criança e aquilo tudo pasmava-me, ou seja uma mistura de feira de província, com imagens da Virgem em vez de leitões e caçarolas de barro e fregueses escalavrados a comerem bifanas nas tendas de industriais da restauração, a quem as Virtudes Teologais ajudavam a amaciar financeiramente a existência. Perguntava à minha avó
- Tem a certeza que Deus está aqui?
e ela tinha, férrea, tenaz, inamovível, a rezar terços com um grupo de amigas igualmente férreas, tenazes, inamovíveis, jurando que Deus frequentava com agrado aquelas lamentosas paragens.
Padres de palma macia afagavam-me aprovadoramente o queixo
- De pequenino é que se torce o pepino
quando a mim se me afigurava torcerem-no no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, enviando a minha minúscula alma para um Inferno decerto mais incandescente mas menos terrível de dor inútil e sofrimento vão. A minha avó, de quem eu gostava muito, triunfava de júbilo perante tanta vela, tanta medalhinha, tanta compressa, tanta perna ligada, tanto rastejar esperançoso. Assinava o jornal Novidades, diário católico que nunca vi fora da cinta, o Almanaque da Sãozinha, que celebrava os feitos de uma adolescente que deu a vida em troca da conversão dos pais
(ela morreu e eles converteram-se, viva o luxo, ora toma, e dedicaram anos e anos à descrição minuciosa dos milagres da filha que, ao tomar-lhe o gosto os multiplicava às dúzias e em comparação com os quais o ressuscitar dos mortos era uma proeza ao alcance de qualquer ilusionista em baixo de forma)
e o Não Sei Quê de Santa Zita, patrona das criadas de servir, que as ensinava, com afectuosa firmeza, a obedecerem aos patrões e a não servirem a sopa com o polegar lá dentro. Eu perdoava isto tudo à minha avó e não compreendia nada, possuído da ideia esquisita que a Fé era outra coisa que nada tinha a ver com a multidão de sacerdotes que o meu avô convidava para almoçar aos sábados, um dos quais me empurrava para cantos discretos a chamar-me
- Cara de um anjo
e a enfiar-me os dedos pelos calções acima, em busca das pequenezas secretas que eu tinha por ali.
(Tanto quanto me lembro nunca as alcançou, pelo menos que eu sentisse, mas bem se esforçava apertando-me contra ele.)
E por gostar muito da minha avó, dizia eu, perdoava-lhe isto tudo e não compreendia nada, possuído da ideia esquisita que a Fé era outra coisa, a senhora viúva que levava a Sagrada Família de casa em casa, dentro de uma redoma para estadias de uma semana com flores ao pé, pequenina, magra, acho que com pouco dinheiro, que não rojava joelhos no chão, caminhava nas ruas de Benfica num passito igual e com quem eu simpatizava
(chamava-se D. Maria Salgado, nunca a esqueci)
sei lá porquê. Como era menino do coro via-a às vezes rezar sozinha na igreja quase deserta, sem bifanas, a olhar o Sacrário de frente e talvez Deus fosse aquilo, Alguém que se olha de frente numa nave gelada, duas pessoas que conversam, de igual para igual, buscando uma na outra o segredo do mundo, e o professor amigo do meu avô
(também não esqueci o seu nome, doutor Oliveira Simões)
que me sorria de um modo que me agradava, convencido que eu era um garoto que pensava noutra coisa. Aí acertou em cheio, senhor doutor. Continuo a ser um garoto que pensa noutra coisa, morrerei sem dúvida a pensar noutra coisa, espero encontrar um céu sem pastorinhos, muletas e bifanas, apenas um espaço com uma mesa a um canto, à qual possa sentar-me a escrever. Há um provérbio judeu muito antigo que me persegue há séculos: o homem pensa, Deus ri. Não imagino um Paraíso com falta de humor, não imagino dissolver-me um dia numa mentira horrível. Prefiro a descrição do escritor Júlio Dantas, que não é tão mau como os ignorantes pensam, a contar a chegada do poeta Bulhão Pato ao céu, "poisando a mão no ombro formidável de Deus e a perguntar-lhe
- Rapaz! como estás tu?"
Que adjectivo estupendo, que frase bem balançada. E é uma coisa mais ou menos desse género que penso. É pouco provável que poise a mão no ombro formidável de Deus
(não toco muito nas pessoas e há alturas em que gostava tanto)
e lhe pergunte
- Rapaz! como estás tu?
porque sou tímido. Mas, se fosse capaz de perguntar, gostaria que me respondesse
- Menos mal, filho, menos mal
e me deixasse andar onde me apetecesse porque a Sua casa, não é verdade, porque a Sua casa, e desta certeza não saio, é minha também.
- E eu estou a pensar em quê?, a pensar na frase escrita na parede, Love My Life, que sempre me deu volta à tripa. Fica a meditar um minuto, olha-me, deixa de olhar-me, olha-me de novo, - Sei lá, você é doutor, tem poderes. E escreve livros, não é?
Conhecemo-nos faz muitos anos. Estava internado no hospital com um diagnóstico de esquizofrenia, ouvia vozes, passeava em solilóquios no pátio, nalgumas alturas era agressivo, noutras pedinchava cigarros, quase ninguém da família se interessava por ele ou o visitava, passou anos na enfermaria, davamo-nos bem. Às vezes, quando estava mais violento, sentava-o no meu colo. Começava por oferecer porrada, acabava abraçado a mim, a chorar. Depois secava as lágrimas, levantava-se e punha-se na alheta:
- Você não é má pessoa, doutor
garantia ele
- Você não é má pessoa.
Ontem encontrei-o na rua. Um frio do caraças e ele vestido de trapos, com um barrete esquisitíssimo na cabeça. Eram duas e meia da tarde e não tinha comido nada:
- Ainda hoje não comi nada, doutor
de maneira que ficou à espera que eu acabasse o cigarro para se banquetear com a beata porque
- Uma beata conforta, doutor, você não imagina como uma beata conforta.
Dorme no degrau de uma igreja
(eu
- E a almofada?
ele
- Não preciso, ponho o cotovelo por baixo)
com um cobertor que traz num saco de pano a desfazer-se e que os colegas do degrau volta e meia lhe roubam. Alimenta-se de esmolas, não toma banho, passeia pelas ruas
(- Por acaso hoje está fresquinho)
não se queixa de nada. É daquelas pessoas que tem uma sobrancelha só, mesmo por cima do nariz os pêlos continuam, cheira mal que tresanda. As vozes, na sua cabeça, vão e vêm:
- Não me chateiam muito, não necessito de bater em ninguém
e, entretanto, começa a chover e a gente os dois a molharmo-nos. Recuamos para debaixo de uma varanda. Declara
- No hospital era porreiro, comida quente, cama
e lá me vieram à cabeça os plátanos, a miséria daquilo, uma inscrição torta num muro: Love My Life. Sempre que a olhava passava-me. Love My Life. E gatos vadios, e pombos. Love My Life, porra. Ele para mim
- Uma coisa é certa, doutor, não sou infeliz.
Não sorri mas não é infeliz. Também não chora. Anda pela cidade
- Não tomo injeções nem comprimidos mas não faço mal a ninguém
até ao dia em que as vozes lhe dêem uma ordem qualquer
- Quero isto, quero aquilo
e ele se torne violento de novo. Meto a mão no bolso para lhe entregar dinheiro, ele recusa, com ar severo
- Basta-me a sua amizade, doutor
acrescenta
- Os amigos são para outras coisas
fixa-me com severidade, com censura.
Respondo
- Quais outras coisas, parvalhão?
e amacia um bocado:
- Você sabe
murmura ele
- Você sabe.
E, de viés:
- Neste momento você topa tudo o que eu penso
e não topo nada do que ele pensa porque ele não está a pensar seja o que for. Mal terminei a frase e já está a atirar-me
- Ora vê?
a sublinhar
- Ora vê como topou logo que não penso?
Experimento
- E eu estou a pensar em quê?
a pensar na frase escrita na parede, Love My Life, que sempre me deu volta à tripa. Fica a meditar um minuto, olha-me, deixa de olhar-me, olha-me de novo
- Sei lá, você é doutor, tem poderes. E escreve livros, não é?
Junta à pergunta uma promessa solene
- Para a semana compro um porque até aos quinze anos andei a estudar.
Lembro-me mal da história da vida dele, tenho ideia da mãe, de tempos a tempos, com um cestinho de fruta. Uma senhora pobre, que pedia desculpa de existir:
- Sou viúva.
Eu
- A mãezinha?
Pela primeira vez abriu-se:
- Está bem, doutor
a medir se avaliou em condições: acha que sim, abre-se mais:
- Desde há três anos no Alto de São João. Pelo menos quando a gente morre deixam de chatear-nos a molécula.
E aqui apareceu-me Voltaire na agonia. O padre insistia com ele para repudiar Satanás e Voltaire argumentou
- Nesta altura não me convém arranjar inimigos
mas talvez Satanás não chateie a molécula à viúva do cestinho da fruta e se reserve para moléculas de maior calibre. De qualquer maneira o filho anda a pau:
- Mais para o verão dou lá um salto para uma conversinha
ou seja ela a insistir
- Come um pêssego
e ele
- Não estou em maré de pêssegos, senhora, o que me apetece são tremoços.
Disso recordo-me: quase todos os dias pedia tremoços ao enfermeiro, que era o nome que ele utilizava para os comprimidos:
- Se você fosse homem entregava-me uma mão cheia de tremoços para acalmar as ideias
e, de quando em quando, lá lhe entregavam um tremoço ou outro. Passada meia hora alongava-se no chão do pátio, tranquilo
- É cá uma paz que eu sinto
de olhos fechados e braços abertos, crucificado na terra:
- Cá uma paz, doutor.
Mas estamos de pé numa rua de bairro, chove, as árvores abanam, o vento mete-se pescoço abaixo, sob a gola. Estende-me a mão
- Vou indo
e lá vai indo com o saco, metido nos seus trapos confusos. Vira à direita, na esquina onde não há um prédio, há um pedaço de muro antigo e parece-me que escrito no muro, em maiúsculas muito maiores do que no hospital, Love My Life. Uma ocasião uma jornalista alemã veio entrevistar-me. Não tinha que ver com doenças, tinha que ver com livros. E foi estranhíssimo: assim que reparou nos internados, assim que leu a frase, desatou a chorar. Era uma mulher de cinquenta ou sessenta anos e desatou a chorar.
O torneio era internacional porque qualquer estrangeiro podia concorrer
Chamava-se Edmundo e era campeão do bilhar às três tabelas. Todas as tardes, às quatro horas, estava no Palace do Bilhar, duas ruas abaixo da nossa, a preparar-se para o Torneio Internacional do Poço do Bispo, em mangas de camisa mas de colete e lacinho como os profissionais. Nunca vi sapatos de verniz tão brilhantes quando erguia uma das pernas, estendido ao longo da mesa, para uma jogada mais difícil, enquanto o tio dele, numa cadeira de braços, sempre de cachecol, mesmo em agosto, ia dando instruções. Antes da artrite não havia pai para o tio no bairro inteiro, agora aconselhava apenas, de cigarrilha no queixo, propunha alternativas, corrigia posições Esse ombro esquerdo, esse ombro esquerdo mandava repetir os lances, doseava o giz no taco. A gente ficávamos encostados a ver, sobretudo o Teobaldo e eu, que sem falsas modéstias éramos as promessas do Palace. Aliás o tio do Edmundo achava que com trabalho íamos lá desde que cortássemos na cerveja, que tira firmeza à mão, e perdêssemos menos tempo com as miúdas que retiram serenidade mental aos atletas. A minha chamava-se Ariana, tinha dezoito anos e trabalhava no Império das Lãs, e a do Teobaldo ajudava a mãe que cozinhava para fora. Na minha opinião cheirava um bocadinho demais a refogado.
O Edmundo não perdia tempo com as miúdas porque, mal se aproximava de alguma, o tio Queres fazer figura de urso no torneio? e esta ameaça horrível obrigava-o a regressar de imediato ao taco, sobretudo com a taça ali mesmo, em cima de uma coluna, de fitinhas com as cores da bandeira nacional nas asas e uma carrapeta com duas bolas pintadas de branco e uma pintada de vermelho. O torneio era internacional porque qualquer estrangeiro podia concorrer. Que eu soubesse não concorria nenhum, mas os dirigentes do Clube Atlético do Poço do Bispo chamavam-lhe O Open, e andavam a pensar convidar um espanhol que morava na Amadora, casado com a dona de uma tabacaria, e que dava umas tacadas mais ou menos, para tornar o Open mais Open e chamar atletas estrangeiros.
O espanhol prometeu trazer um amigo com habilidade, e a única questão era pagar-lhe a estadia, dado que o sujeito não era criatura de posses. O Atlético fez um esforço por intermédio de umas rifas e o espanhol lá veio com o da dona da tabacaria. Chegou na véspera e, para se ambientar, enfiou onze cervejas no bucho, deu uma lição da sua língua à Ariana, que, para espanto meu, gostava de idiomas, experimentou a mesa com um taco emprestado e não lhe consentiram mais do que um lance porque, logo ao primeiro, só por milagre não rasgou o pano. Apesar de tanta falta de talento a Ariana, sabe-se lá a razão, as mulheres são esquisitas, não lhe tirava o olho de cima. No dia seguinte, na primeira eliminatória do torneio, o Teobaldo perdeu, eu apurei-me à justa contra um contabilista de Alcântara que passou o jogo a fungar, constipadíssimo Devo ter febre e o Edmundo, orientado pelo tio, deu uma banhada a um gordo de Odivelas.
O adversário do espanhol da Ariana faltou por estar de serviço nos bombeiros, o pano permaneceu intacto e ele, para comemorar, mamou meia garrafa de brandy e saiu, quase de gatas, para a pensão onde lhe arranjaram um buraco sem janela mas com cama e lavatório de esmalte. Contaram-me, não vi, que a Ariana o acompanhou para ele não se enganar no caminho, a cantarem um pasodoble qualquer. Na segunda eliminatória fui-me abaixo contra um pinoca do Martim Moniz, o Edmundo, com o tio à perna, aguentou-se, tem-te não caias, com um mulato dos Anjos, o adversário do espanhol da Ariana torceu um pé e desistiu, e o espanhol chegou aos quartos de final sem ter pegado no taco, de maneira que o pano, para alívio dos organizadores, permaneceu inteiro. Para alívio dos organizadores e para alegria da Ariana que nem sequer me deu um beijo de consolação, toda inclinada para o bêbedo num entusiasmo que me confundia. Claro que compareci aos quartos de final, na esperança de ver o espanhol levar um enxerto de um sujeito da Bobadela, considerado, pelo tio do Edmundo, um rapaz com talento.
O sujeito da Bobadela, e nós todos na assistência, esperámos cinco minutos, dez minutos, um quarto de hora e o espanhol nicles. Meia hora e nicles. Três quartos de hora e nicles também, e foi mais ou menos por essa altura que a miúda do Teobaldo entrou a dizer que tinha visto a Ariana e o estrangeiro a tomarem a camioneta do norte, com uma grade de cervejas e uma caixa de brandy por bagagem, agarrados um ao outro a cantarem zarzuelas. Passaram cerca de vinte e cinco anos sobre essa noite e ainda não me decidi se continuo ou não à espera dela. Dizem-me que mora em Badajoz, tem um filho e uma filha e vai ser avó. Pergunto-me se existe razão suficiente para deixar de esperar. Há alturas em que penso que sim e alturas em que penso que não. Se calhar espero mais um ano ou dois, talvez. O que me aborrece mesmo, no meio disto tudo, é o Edmundo ter sido derrotado na meia final por um meia leca de Pedrouços.
Isso foi grave e nunca mais pusemos a vista em cima da taça, com as fitinhas da cor da bandeira nacional e as três bolas no topo. Fiquei tão desiludido que chorei de raiva e o tio do Edmundo deixou de falar-lhe. É a única coisa sem remédio porque a Ariana é evidente que volta.
E se aparecer de bengala jogamos os dois uma partida na mesa de jantar.
Fiquei na marquise à espera porque ele não é grande espingarda a guiar e não temos ourivesarias perto, temos uma tabacaria
O meu marido saiu de casa no domingo, às três da tarde, depois de espreitar pela janela e se dar conta que havia um espaço para estacionar em frente à porta. O nosso carro estava longe, na rua de baixo, e aqui, à mão de semear, pode dar-se uma olhadela de vez em quando
(há tantos roubos e se fossem só roubos, são esses miúdos que esvaziam pneus, partem antenas, riscam a chapa com um prego, toda a gente sabe que os pais já não educam os filhos)
no caso de chover molhamo-nos menos para entrar e, além disso, da nossa rua à rua de baixo é um esticão e o médico, derivado à angina de peito, proibiu-me de me cansar. O meu marido, que foi comigo à consulta
(vai sempre comigo à consulta e toma nota do que o médico diz na agenda, atento às palavras, tive sorte, a gente casa cedo, sem conhecer a vida nem as pessoas e, como eu digo sempre, o casamento é uma lotaria, graças a Deus saiu-me este que se preocupa, se interessa, se desvela)
arranjou uma senhora para auxiliar na limpeza
(- Tens de poupar-te)
e realmente as pernas incham-me menos ao fim do dia, ando mais bem disposta, menos exausta, no outro dia dei por mim a cantar, a senhora que me auxilia, uma viúva de reforma estreita, admirou-se
- Que alegria
não é bem alegria, é o alívio de respirar melhor, ficar sentada na sala a ler uma revista que me distraia, ver um bocadinho de televisão enquanto ela aspira o quarto, comer um quadradito de chocolate
(estou um pingo mais forte, as saias apertam-me)
discutir com a viúva os perigos dos taxis, um deles, por exemplo, galgou o passeio, esmagou o marido contra a montra de uma ourivesaria e ele, coitado, faleceu ali mesmo, de nariz contra os relógios e os anéis, o que sempre é preferível a falecer com a cara enfiada contra os pechisbeques das lojas dos chineses. Mesmo morto o ourives ainda lhe vasculhou os bolsos dado que a gente desconfia, quem garante que não meteu um anel no dedo para impressionar os colegas do cemitério. Toda a cautela é pouca conforme garantem os penhoristas. O certo é que a nossa vida tem corrido melhor, a da viúva também, que o marido, segundo me explicou, era difícil
(metia-se nos espirituosos e pedia-lhe que tivesse paciência era um trauma de infância
- A minha mãe nunca me deu amor
e agora, numa campa perto da campa da mãe têm a eternidade à frente para resolverem o trauma, num par de anos deixa de beber que é uma beleza, torna-se complicado comprar garrafas dentro de uma urna)
e, com o marido ausente
(- Até ver
declara ela, num mundo tão incerto como este quem se atreve a afirmar seja o que for)
a mobília inteira e ele sem ir buscar ao armário a corneta que tocava no tempo da tropa, no quartel, obrigando-a a apresentar armas
(- Apresentar armas imagine)
e a marchar
(- Esses bracinhos até cima, esses bracinhos até cima)
à volta da mesa das refeições. Portanto corre tudo bem para os três, eu com as revistas, a viúva outra vez civil e o meu marido, tão atencioso, tão amigo, contente de possuir uma esposa não digo com saúde, que sessenta anos são sessenta anos
(se sessenta anos fossem trinta é que me admirava)
mas com melhores cores, sobretudo se visto a blusa vermelha que já me declararam que quando a ponho até pareço um cravo de papel, só falta meterem-me uma quadra ao pescoço e venderem-me pelo Santo António em Alfama. Corre tudo bem para os três, ou seja, correria tudo bem para os três se não fosse o meu marido tirar as chaves do automóvel que estão no prato sobre a arca da entrada, juntamente com a factura da luz e uma carta da minha irmã Hortense, que vive em Buarcos e vai ser operada à hérnia em outubro, que deixei ali para não me esquecer de responder-lhe. Uma hérnia parece que é um trabalho simples mas uma operação é uma operação e há quem se fique na anestesia ou acorde a declarar que é a embaixatriz da Bélgica ou polícia de trânsito
(conheço muitos casos)
derivado a que os fumos que metem no nariz das pessoas mudam a direcção do cérebro e embaixatriz na Bélgica sempre é melhor do que trabalhar na costura e os polícias de trânsito têm refeitório e autoridade, duas coisas que consolam. Entre parêntesis o meu marido é contínuo, um bocado intermitente por causa da sinusite mas contínuo. Correria tudo bem para os três, contava eu, se não fosse o meu marido tirar as chaves do prato da entrada no domingo
(já lá vão cinco dias)
para estacionar o automóvel à nossa porta. Fiquei na marquise à espera porque ele não é grande espingarda a guiar e não temos ourivesarias perto, temos uma tabacaria: lançar-se contra anéis é uma coisa e contra embalagens de tabaco de enrolar e caixinhas de mortalhas outra, para além de que as mortalhas de cigarro são difíceis de comparar às mortalhas da agência, e não me apetece que ele parta embrulhado em cancros do pulmão. Ao menos que vá saudável para os Prazeres, sem os dedos da mão esquerda amarelos. Por acaso a viúva que me auxilia estava cá em casa para um chá, porque entre uma pessoa que aspira e uma pessoa que assiste ao aspirar, é fatal como o destino, acaba por se criar uma amizade limpa e, além de limpa, sem os grãos de pó que dificultam o movimento das engrenagens do afecto. Não é preciso ser psicólogo, quanto mais mecânico, para entender isso. A viúva e eu na marquise e o meu marido nada. Nada, aqui, significa sem aparecer, não significa a nossa relação mais íntima que essa, embora ele apareça, nada de facto. Também, como declarava o meu pai, que tinha a carroça mas faltava-lhe o burro, não se pode ter tudo. Puxava a minha mãe que ele diabético, coitado. Ao cabo de umas duas ou três horas a viúva foi à rua de baixo e o automóvel não estava. Fomos as duas, quatro olhos são melhores do que dois, tomara eu ter quarenta, não me escapava um mosquito, e o lugar do automóvel vazio. Voltámos para cima, esperámos o resto do domingo inteiro, esperámos segunda
(a viúva dormiu cá, no lugar do meu marido que só temos uma cama)
esperámos terça, esperámos quarta e até hoje quinta-feira ou sexta
(perdi a noção das datas com este problema)
o meu marido ausente. A viúva interrogou os vizinhos
(a nossa amizade tem crescido)
e parece que o engenheiro do prédio ao lado, na esquina a passear o cão, o viu partir no sentido da auto-estrada do Norte. Pode ser verdade e pode ser mentira, não sei. Sei que, se por acaso vier, dorme no sofá da sala: na nossa relação mais íntima ele nada e a viúva, pelo menos, ignoro como ela se arranja mas alguma coisa sucede e graças a Deus, depois de suceder, tenho dormido melhor.
Um assunto puxou o outro, passámos dos méritos comparados da tília e da menta, no que se refere ao acalmar dos nervos, a assuntos vagamente mais íntimos, trabalho, dentista, a osteoporose da tua mãe, a osteoporose da minha, apiedámo-nos das pobres senhoras, refectimos em conjunto acerca dos pavores da velhice
Porque motivo já não me chamas malandreco? A primeira vez foi quando falámos ao telefone, a seguir ao encontro na pastelaria: estavas sozinha e eu estava sozinho, em mesas ao lado um do outro, levantaste o dedo a fim de pedir um pacote de açúcar ao empregado, o meu chá trazia um pacote a mais no pires e ofereci-to, começamos a falar disto e daquilo, gostei do anel de prata
(de prata?)
no polegar, dos brincos de prata
(de prata?)
grandes nas orelhas, triângulos enormes a imitarem filigrana, gostei das unhas cada uma da sua cor, castanho, verde, azul, amarelo, adiantei com respeito
- Parece um arco-íris
sorriste de agradecimento
(pareceu-me que subscrevias a ideia do arco-íris)
um assunto puxou o outro, passámos dos méritos comparados da tília e da menta, no que se refere ao acalmar dos nervos, a assuntos vagamente mais íntimos, trabalho, dentista, a osteoporose da tua mãe, a osteoporose da minha, apiedámo-nos das pobres senhoras, reflectimos em conjunto acerca dos pavores da velhice
(dentaduras postiças, insónias, rugas)
trocámos telefones depois de espreitares o relógio e declarares que tinhas um primo à espera
(não acreditei no primo, sou desconfiado por natureza)
no dia seguinte, não, passados dois dias marquei o teu número, demoraste a lembrar-te de mim, o nome Honório não te despertava nada, repetiste
- Honório, Honório
escarafunchando a memória que o pacote de açúcar acabou por iluminar, o pacote de açúcar mais importante do que eu, fiz-to notar num requebro triste, respondeste em tom sedutor
- Gosto de coisas docinhas
e eu à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, eu desesperadamente à procura de coisas docinhas sem achar nenhuma, julga-se que é fácil mas não é, meu Deus a capacidade que têm as coisas docinhas de se escapar da gente, meu Deus o meu silêncio aflito tapado com uma tossezita oportuna, antes de desligares tu
- Então um beijinho
eu, numa sem vergonha de tímido que me espantou
- Onde é que o ponho?
tu, num gorjeio
- Malandreco
repeti, orgulhoso de mim
- Onde é que o ponho?
sem perceber que ela já tinha desligado, apeteceu-me marcar o número de novo, pesei os prós e os contras
(o meu pai tantas vezes, prudente
- Antes de agires pesa os prós e os contras
santo homem a descansar nos Prazeres sem pesar prós e contras nenhuns, para sempre liberto de dúvidas que o faziam suar:
- Repara nas minhas palmas todas molhadas)
pesei os prós e os contras e decidi não marcar, as mulheres necessitam de tempo para metabolizarem em sossego as nossas palavras, tão diferentes da gente
(o meu pai, por uma vez definitivo
- É outra raça
e é outra raça de facto, paizinho, devia tê-lo escutado mais vezes, só compreendemos o valor das pessoas quando as perdemos)
tão sensíveis, tão frágeis
(começo a não acreditar nisso)
marquei o número quinta-feira e reconheceu-me logo
- Olá, malandreco
e eu feliz, sou malandreco que me farto, não faz ideia da malandrequice que tenho, acertámos um segundo chá que terminou de novo com o relógio e o primo, não mencionando a despedida rápida
- O jantar de aniversário de uma tia nossa, que maçada a família
um terceiro chá em que não existia arco-íris, as unhas todas vermelhas, compridas, de gel, provocando-me alterações psico-somáticas que o pudor me impede de referir, meias pretas, saltos altos, um penteado de cabeleireiro exagerando as ditas alterações ao ponto de ter receio de, felizmente controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia
(querido paizinho, tão bondoso, tão discreto, um ás nas palavras cruzadas do jornal ao ponto da minha mãe, criatura de elogio difícil, garantir
- Para as palavras cruzadas não havia como ele
e a gente os dois, de luto, a sorrirmos num orgulho triste, até ela acrescentar
- Nem nisso sais a ele e os sorrisos darem lugar a soslaios de ódio discreto)
controlei-me a tempo, com as palmas molhadas do meu falecido pai na ideia, convidei-te para o cinema de sábado à tarde e recusaste porque o teu primo necessitava de ti a fim de visitarem uma parente afastada num lar
(- Já lhe deram três ou quatro ataques, coitadinha
e uma vida por um fio, soros, algálias)
convidei-te para passearmos em Belém no domingo, o rio, os pescadores, essas tretas, com sorte um abraço, com sorte aquilo que os escritores denominam olhares significativos, dava sei lá o quê por um olhar significativo mais unhas vermelhas, mais meias pretas, mais brincos grandes, mais a minha psico-somaticidade aos saltos, mais um abraço, quero um abraço, exijo um abraço, não me recuse um abraço, porque razão é má para mim, chamar-te
- Má
chamar-te
Mazona
e, com o
Mazona
uma palmadinha terna no rabiosque, tudo o que imploro é uma palmadinha terna no rabiosque, seguida de um olhar enternecido, grato, sublinhado por um arrulho
- Malandreco
interminável, mas domingo, desgraçadamente, o aniversário do primo, o teu comentário
- Se eu não for é uma barraca do caneco
e eu parvo com o vocabulário, uma barraca do caneco deixou-me sem fala, levantaste-te da mesa à pressa, esporeada pelo maldito relógio
- Tenho de ir
e fiquei para ali diante de dois chás, abandonado, sozinho, tão tonto que mal dei pela frase do empregado, ao entregar-me o troco, a rosnar com desprezo
- Estes travestis
que nem dei pelo comentário do empregado
- Estes travestis
na esperança que alguém, atrás de mim, me sussurrasse
- Malandreco
para me sentir, nem que fosse por um segundo, apenas um segundo, um modesto, pobre, miserável segundo, para me sentir, por um segundo, feliz.
Pensava que isto fosse uma crónica mas não é, agora vou escrever outra coisa que se resume numa frase apenas e a frase consiste no seguinte: tenho saudades de uma porção de pessoas, algumas que já morreram e outras acho que ainda não e digo acho porque não sei delas há um ror de tempo. Se calhar continuam por aí conforme continuo por aqui, sabe Deus como e, se Deus não sabe, quem sou eu para saber, a gente pensa que Deus conhece tudo e se calhar não, com a idade que tem não admira, há lembranças que escapam a uma criatura nova, quanto mais. Gosto de imaginar Deus parecido connosco, ensinaram-me que fomos feitos à Sua imagem e semelhança, os Livros Sagrados garantem isso com firmeza e, se queremos ser bons cristãos, devemos acreditar, eu por mim custa-me um bocadinho mas acredito, só não Lhe entendo a barba mas enfim, nem o trabalhão que deve dar pentear aquilo e andar com um triângulo atrás da cabeça, estou mesmo parvo hoje. Estou parvo muitas vezes mas hoje nem se fala, se calhar vou ao centro comercial mais logo arejar as ideias, como jura um amigo meu passar a vida em casa não melhora a saúde, qualquer dia ficas todo paralisado, nem consegues andar. Ele anda que se desunha, uma hora todas as manhãs, de maneira que não tem barriga. Puxou a camisola para cima a fim de eu ver e realmente barriga nicles, lisinho. E rapa os pêlos do corpo por achar que as mulheres preferem assim, a época dos gorilas já lá vai e a gente tem de fazer o que as mulheres gostam senão nem uma gorda desdentada cai na rede, tão certo como eu me chamar Tal e Tal, não vou meter aqui o nome, não desejo irritar ninguém nem que ameacem bater-me ou amuem comigo, fico sempre aflito quando amuam comigo, começo logo desculpa lá, desculpa lá, até que desculpam, está bem, pronto, não chateies, e então deixo de ficar de joelhos e levanto-me e tento beijá-los de gratidão e eles não consentem, julgas que sou algum maricas. A sério que pensava que isto fosse uma crónica e é só eu a passar a mão no piano das palavras, a ver, embora não veja por aí além. Passar a mão no piano das palavras quando aquilo que devia era estar a tocar mas, para isso, tenho, primeiro, de aquecer os dedos, não se toca uma coisa de jeito a frio. Onde é que eu ia? Julgo que me desviei, não há crise, vai-se juntando o que aparece e depois arruma-se, o problema está em não aparecer nada, volta atrás, recomeça, talvez consigas, não acredito que aconteça mas tenta, quem não arriscou não perdeu nem ganhou, ninguém te vai matar por causa disso, sucede aos melhores, não te preocupes, nem sequer és mau rapaz e os outros compreendem, só tu não compreendes nada, saíste-me cá um saloio, evapora-te. Eu mandei evapora-te, estás à espera de quê, quem não te conhecer pensa que és surdo. O azar que eu tive em enfiarem-me no teu, se assim me posso exprimir, corpo, nesse saco de batatas horrível com uma cabecinha idiota em cima, mãos aselhas e quanto aos pés o melhor é nem falar, imagem e semelhança de Deus no teu caso uma ova, eu pensava que isto fosse crónica mas não é, depois deste texto ninguém torna a ler-te, o director da revista, que é educado, chama-te a declarar tenha paciência mas você secou e tem razão, sequei, perdoe, e ele eu por mim perdoo quem não vai perdoar é a administração, que administração atura o que você nos entrega, dantes dava-nos uns textos mais ou menos e agora repare só nesta bodega e eu reparo, de facto passei-lhe uma bodega, não sei como me aguento sem o dinheiro que me punham na conta mas haja saúde, os dólares não são tudo na vida, e o director pois não, o amor são os outros cinco por cento como explicava Elisabeth Taylor que, infelizmente, a morte roubou à nossa companhia. E estamos a falar de um director simpático, o que faria outro qualquer no lugar deste? E, no entanto, palavra de honra que pensava que isto fosse uma crónica mas olhe, entendo as suas razões, quem fala assim não é gago, é a falar que a gente resolve os assuntos, não é à porrada, à porrada não se consegue seja o que for, e o director ora aí está uma grande verdade, e eu não há verdade que não seja grande, só a mentira é pequena, e o director ora vê, quando você se esforça até despeja frases verdadeiras, que pena não se esforçar mais vezes, costumo explicar aos meus jornalistas que se você se esforça a gente, com um bocadinho de boa vontade, quase o aceita, não aceitamos tudo, claro, uma frase aqui e outra ali, você nem é mau sujeito, só me dá pena que seja incapaz e de intenções generosas está o inferno cheio, e eu não é por muito madrugar que amanhece mais cedo, e o director, naturalmente, grão a grão enche a galinha o papo, e eu, a despedir-me, ao menino e ao borracho pôs-lhe Deus a mão por baixo e com este raciocínio nos despedimos, comovidos, um do outro. De porta já fechada ainda escuto de Espanha nem bom vento nem bom casamento, que percebo ser uma frase que encerra, com mágoa, uma relação de anos. Se eu juntasse quem não quer ser lobo não lhe veste a pele ou, mesmo, só se lembram de Santa Bárbara quando troveja, não fazia mais do que dar-lhe razão e talvez devesse ter acrescentado, por consideração e estima. À saída lembrei-me que o cão é o melhor amigo do homem porém de que me servia isso já? Nem vão-se os anéis fiquem os dedos me auxiliaria. De qualquer das maneiras, como declaram os Secretários de Estado, juro que pensava que isto fosse uma crónica conforme juro que tenho saudades de uma porção de pessoas. De modo que ao chegar a casa, benvindo seja quem vier por bem, sento-me não numa cadeira, a um canto da sala, de joelhos na boca, não acendo luz nenhuma e fico assim, no escuro, muito caladinho, até a minha mãe perguntar não te esqueceste de lavar os dentes antes de te deitares e eu me olhar no espelho da casa de banho, besuntado de pasta, até a minha imagem me sorrir.