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Daqui a 10 anos o mundo será diferente ... 10 anos é amanhã

Sofia Santos

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Falar do potencial económico do ambiente é ainda, para a maioria dos economistas, uma ficção. Mas em 2022 a ficção será realidade. 2012 já foi ficção...

Daqui a 10 anos o mundo será diferente e Portugal também. Estaremos em 2022, seremos cerca de 7.7 biliões de pessoas no planeta terra, mais 10% do que hoje. Estes 714 milhões de novas pessoas vão necessitar obviamente de comida, água, ar e terra, e vão querer realizar todo outro tipo de consumo.

Quais serão as implicações desta pressão adicional na economia mundial, europeia e portuguesa?

Atendendo que este crescimento virá essencialmente de países Asiáticos, iremos nós, Portugueses querer exportar os nossos produtos e assim melhorar a nossa balança de pagamentos? Se quisermos exportar mais produtos (por exemplo, papel, madeiras, calçado, vestuário, alimentação entre outros) qual será a pressão sobre os nossos recursos? Ou existirão outros produtos, mais eco-eficientes, que possamos exportar? Sabemos quais são?

Sabemos nós qual é o potencial de crescimento para o PIB que os nossos recursos naturais podem originar? Existe alguma estratégia de desenvolvimento económico assente na economia verde? Sabemos quais os potenciais novos setores de atividade que se podem desenvolver, potencial número de postos de trabalho, etc.? Estamos a pensar nesta possibilidade?

Atendendo ao resultado da Cimeira Rio+20, podemos pensar que os temas ambientais deixaram de ter peso. Que ninguém se quer comprometer. Que ninguém se atreve a preocupar com o que possa acontecer e 2022. No entanto, quem se preocupa com o futuro e quem zela pelos seus interesses, não fica à espera por acordos mundiais. Simplesmente avança e faz.

Por exemplo, a Dinamarca parece reconhecer que a medida do Produto Interno Bruto (PIB) não transmite o verdadeiro desenvolvimento do país. Nesse sentido, o Ministro do Desenvolvimento e Cooperação afirmou recentemente que quer introduzir o conceito de PIB Verde, e assim medir os ativos e passivos ambientais que tanto afetam a atividade económica presente e futura. O Ministro vai mais longe ao afirmar que a deterioração ambiental deveria ser deduzida dos resultados económicos.  A Dinamarca alocou cerca de 1.35 milhões de euros ao Banco Mundial para este desenvolver trabalho ao nível da identificação de indicadores chave, tendo-se voluntariado como projeto piloto na adaptação dos objetivos que forem identificados pelo Banco Mundial.

O Reino Unido, uma economia onde a iniciativa privada e o mercado constituem peças fundamentais do modelo de crescimento, também está atento e ativo nesta matéria. Na realidade o Governo Inglês promoveu o desenvolvimento de uma iniciativa - UK National Ecosystem Assessment - que tem como objetivo identificar o valor que os serviços dos ecossistemas têm para o bem-estar do país, através de análises económicas e não económicas. Por que razão o Governo do Reino Unido estará a "gastar dinheiro" num projeto deste âmbito? Uma das simples razões pode estar associada a uma das conclusões do primeiro relatório já publicado onde se pode ler que "O Reino Unido não é autossuficiente para satisfazer as suas necessidades ao nível da madeira, fibra e água necessária à produção dos produtos, nem ao nível da energia, o que significa que depende de forma significativa dos serviços de ecossistemas de outros países e que exporta uma pegada ambiental considerável" (UK National Ecosystem Assessment - Synthesis of the Key Findings, p. 36). Na realidade, muitos países Europeus não são autossuficientes para a satisfação das suas necessidades, ao nível dos recursos naturais. Por isso é importante saber-se qual o valor económico que os vários serviços ambientais podem originar, quais os stocks e capacidade de regeneração desses recursos e, consequentemente, identificar novas oportunidades de negócio neste contexto. Isto é pensar a médio e longo prazo.

Vale também a pena recordar que a União Europeia tem como objetivo reduzir em 80% a 95% as emissões de Gases com Efeito de Estufa até 2050 (tendo 1990 como ano base), e que até 2020 se pretende reduzir em 40% estes gases nas cidades. Ora para isto acontecer, muita coisa vai ter de mudar. E mesmo que os objetivos baixem, a estrutura do tecido económico vai ter de mudar. Se pensarmos que a EU pretende que em 2019, todos os edifícios novos atinjam um nível de desempenho com necessidades quase nulas de energia, e que a reabilitação também siga os passos da eficiência energética, podemos compreender que existe uma excelente oportunidade de se re-desenvolverem novos negócios na fileira da construção civil. Este é apenas um exemplo. Existem muitos mais.

Vivemos numa época em que a frase mais sonante é "não temos dinheiro". Falar do potencial económico do ambiente é ainda, para a maioria dos economistas, uma ficção. Mas em 2022 a ficção será realidade. 2012 já foi ficção e hoje o telemóvel interage connosco, temos carros elétricos, carros sem condutores, trabalhamos quase 100% do tempo ligados a uma rede virtual invisível e as crianças quase que nascem a saber trabalhar com um computador. Com a velocidade das coisas e das nossas vidas, o amanhã é hoje muito mais depressa do que antes. E Portugal tem tanto potencial a natural e cultural!

Vivemos numa época em que se especula sobre o futuro da União Europeia, o que é bom para os economistas ambientalmente céticos . No entanto, parece que a se está a chegar à conclusão de que é necessário "criar" dinheiro para que a Europa invista no seu crescimento, em postos de trabalho e na sua competitividade. De acordo com a reunião do Conselho Europeu de 28 de Junho, a União Europeia irá mobilizar 120 biliões de euros para medidas imediatas em prol do crescimento. Uma fase inicial será o lançamento, já este Verão, de  Project Bonds - cerca de 5 biliões de euros - que serão investidas em iniciativas relacionadas com a energia, transportes e infraestruturas de banda larga.