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A Cidade e as Serras

Sofia Guedes Vaz

Eça antevia que a técnica e o progresso eram, no fundo, mais vazios do que as promessas de um novo mundo que vaticinavam.

Quando se fala de ambiente há uma certa tendência para se cair num moralismo fácil que irrita muitas pessoas. No entanto, a sustentabilidade faz-nos certas exigências éticas que não deveríamos ignorar como se não fosse nada connosco. A nossa sociedade de consumo, tecnológica, materialista, gastadora de recursos e utilizadora de mais do um planeta que temos, a isso nos obriga. Esta nossa atitude displicente relativamente ao planeta e às gerações futuras está assente numa cultura em que se ignora a pressão sobre os ecossistemas e em que não damos suficiente ênfase a questões de equidade, intra e inter geracionais. Mas como é que se potencia uma reflexão sobre estas temáticas sem se ser moralista/irritante? Como é que se chama a atenção a consumidores imaturos? Como é que se ultrapassa uma certa ignorância e uma certa demissão de uma reflexão ética sobre questões ligadas à sustentabilidade? A literatura é sempre uma resposta a considerar. Se nas crónicas anteriores sempre utilizei livros para depois falar de ambiente, nesta utilizo o ambiente para falar de um livro. Um livro que fala da problemática da sustentabilidade, dos males da nossa sociedade tecnológica e da falta de equilíbrio das nossas vidas. Eça de Queirós não era certamente um ambientalista, mas aproximou-se perigosamente disso com um dos seus últimos livros.

"A Cidade e As Serras" conta-nos a história de Jacinto, nascido e criado na opulência de Paris mas com riqueza produzida nas "terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olivados" dos seus antepassados em Portugal. Quando jovem, Jacinto acha que só podemos ser felizes aliando a  cultura à  técnica, e consequentemente gasta a sua elevada renda anual em livros e em todos os gadgets da altura. O sumptuoso 202, nos Campos Elísios, era uma montra de progresso técnico, com electricidade, elevador, telefone, telégrafo, conferençofone, teatrofone,  máquina de escrever, máquina de calcular, e uma biblioteca com mais de trinta mil volumes. No entanto, Jacinto passa a sua sumptuosa vida a exclamar "que maçada" a tudo o que o rodeia e a tudo o que lhe acontece.

Aos 34 anos, pela primeira vez, Jacinto resolve vir a Portugal, a Tormes. Previne por carta o seu procurador da viagem, encomendando-lhe obras à casa da Serra e envia 3 dezenas de caixotes com o indispensável para os seus pequenos confortos. Parte uns meses depois com 23 malas para uma estadia estival no Douro. Uma série de percalços determinam que Jacinto chegue a Tormes sem que ninguém o espere, tendo-se as 23 malas transviado e os caixotes desaparecido algures entre Paris e Tormes. Apenas com a roupa que tem no corpo, Jacinto chega a uma casa em ruínas, sem mobília e sem que ninguém saiba que ele está a chegar. A carta também se tinha perdido e as obras na casa ainda nem tinham começado e é assim que o mais dandy de todos os parisienses se vê compelido a dormir num colchão improvisado com roupas emprestadas dos caseiros.

A sua primeira surpresa é o jantar. O seu cozinheiro também se tinha perdido com as 23 malas e o seu criado pessoal na viagem de comboio. Mas o caldo de galinha, o arroz de favas e o frango assado no espeto regados por um "vinho com alma", suplantaram os pratos mais gourmets de Paris e despertaram-lhe um apetite ancestral. Jacinto foi-se deixando seduzir, pelos cheiros, pelas cores, pelas estrelas, pelo ar da Serra e nunca mais de lá saiu. Ganhou amor à serra e aos campos, e começou a sentir-se "desanuviado e desenvencilhado". Ter só uma escova em vez de trinta dava-lhe um descanso até ali desconhecido. A serra transmitia-lhe pensamentos de liberdade e de paz e gozava a sua frescura e silêncio como nunca tinha imaginado. Num devaneio de responsabilidade social mandou construir casas para todos os seus vinte sete rendeiros que viviam miseravelmente, deu-lhes mobílias e melhorou os seus contratos para que não fossem tão pobres. Gastou apenas cerca de seis mil reis, dos mais de cem que recebia anualmente, transformando Tormes, suas gentes, ele próprio e a nós, leitores que ainda acreditamos que os sistemas que existem são extanques e inquebráveis.

Eça de Queirós escreveu A cidade e as serras no final do século XIX mas há descrições que parecem escritas ontem, tal a actualidade das suas observações. Eça antevia que a técnica e o progresso eram, no fundo, mais vazios do que as promessas de um novo mundo que vaticinavam. O reencontro com o campo, com a simplicidade, com a qualidade fizeram-no ver a vacuidade de uma riqueza material estéril. O olhar atento de Eça transmite-nos ainda a falta de sentido crítico, mesmo num Jacinto com uma cultura inigualável, de que todos ainda padecemos.

E mais não digo para não ser demasiado moralista. Leiam A Cidade e as Serras! Diz melhor tudo o que posso escrever e é um prazer segui-lo de Paris a Tormes, da civilização sofisticada parisiense à simples rusticidade portuguesa. Por uma vez, Eça rende-se à última, abstendo-se da crítica mordaz ao seu e nosso Portugal. Os leitores ficam, tal como o seu amigo e narrador, Zé Fernandes, convencidos que vir da cidade para a serra é, afinal, uma promoção e uma viagem de descoberta interior: "então compreendi que, verdadeiramente, na alma de Jacinto se estabelecera o equilíbrio da vida".