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Tráfico de vidas

Marco Bragança

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O tráfico de vida selvagem é considerado a terceira actividade ilícita mais rentável do mundo, a seguir às drogas e ao armamento.

Iniciámos esta semana com uma notícia que dificilmente deixou indiferentes aqueles que dela tomaram conhecimento - a Polícia Judiciária apreendeu 304 aves exóticas a um grupo de indivíduos, que as detinha em situação ilegal. Esta operação é apenas mais uma que resulta de um trabalho contínuo de cooperação entre diversas entidades, que trabalham diariamente para combater o tráfico de espécies protegidas no nosso país.



Quando se fala de animais em situação ilegal pode-se falar de todo um conjunto de situações: desde capturados em ambiente selvagem, criados por criadores que desenvolvem a sua actividade sem licença, comercializados sem documentação, mantidos e transportados sem condições de bem-estar animal. São muitas as situações com que se deparam aqueles que fiscalizam esta actividade.



O tráfico de vida selvagem é considerado a terceira actividade ilícita mais rentável do mundo, a seguir às drogas e ao armamento. Fontes governamentais norte americanas estimam um negócio anual de 10 mil milhões de dólares, sendo as aves o grupo animal mais contrabandeado. As mesmas fontes estimam que entre 2 a 5 milhões de aves são contrabandeadas anualmente, em todo o mundo.



Notícias chocantes, verdade? Mas antes que nos dediquemos àquela tão confortável actividade de expressarmos a nossa discordância com um pequeno aceno de cabeça, talvez comentando a notícia em voz alta, antes de passarmos à frente por acharmos que esta parte do mundo "está lá tão longe", é importante que percebamos qual o nosso papel no meio de todo este negócio. Sim, temos um papel. E bem mais activo do que imaginamos. Basta observarmos o comportamento das pessoas nas lojas de animais, ou nas feiras.



Há uns dias entrei numa loja de animais e reparei num ponto daquele estabelecimento que atraía mais pessoas, que se concentravam com enorme interesse. Dentro de pequenas jaulas estavam um quati (mamífero do continente Americano) e uma doninha. Os clientes da loja olhavam deliciados. As pessoas são atraídas pelo exotismo do que não conhecem. Querem ter consigo um pouco do que só costumam ver na televisão. Acabam por ceder ao impulso de adquirir um animal, sabendo pouco ou nada sobre a sua origem, legalidade, necessidades da espécie ou da sua própria capacidade de o manter. Afinal, se está à venda na loja então deve poder-se tê-lo em casa.



Nós temos sempre, em questões de tráfico, o papel determinante nessa actividade. Se não existir procura não há necessidade de oferta. E não é por se tratar de um canário, um cágado ou um porquinho-da-Índia que se torna menos errado. Tratando-se de uma loja de animais, de uma feira ou mesmo do contacto na internet com um suposto criador, cabe-nos a nós procurar conhecer a origem do animal, a legalidade em que se encontra, as condições em que é mantido e em que chegará até nós. É importante que tenhamos noção que somos responsáveis pelo bem-estar daquele animal ainda antes deste chegar a nossa casa. Porque ao chegarmos a acordo com quem o está a vender, estamos a concordar com toda a sua prática.



Mas é ainda essencial percebermos se temos capacidade para acompanhar aquele animal durante toda a sua vida, dando-lhe as condições de que necessita. E mais importante que tudo é colocarmo-nos a pergunta: com tantos animais sem dono, e a necessitarem de serem adoptados, precisamos mesmo de ir comprar um?