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As cinzas da minha serra

Marco Bragança

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Quem vai conhecendo o nosso país vai notando a triste evolução. Serra do Caldeirão, Serra da Estrela, Caramulo, Peneda Gerês e tantas outras que já foram tão mais verdes e hoje estão em grande parte reduzidas a mato rasteiro.

39.946 Hectares é valor apurado de área ardida provocada pelos cerca de 11.966 fogos contabilizados desde 1 de Janeiro até ao passado dia 15 de Julho, do presente ano. De fora ficam os dados relativos aos mais recentes e mediáticos fogos, que devastaram parte do território Algarvio e Madeirense. A acreditarmos nas estimativas autárquicas em que se fala em 20.000 Hectares de área ardida no Algarve, o número sobe assustadoramente.



Mas o que afinal representa 1 Hectare? A menos que estejamos habituados à medida, esta não nos diz grande coisa. Os jornalistas gostam de equiparar 1 Hectare ao relvado de 1 campo de futebol. Mas se pensarmos nos campos dos 3 maiores clubes de futebol do país, estes ficam aquém dessa medida. Ainda assim imaginem a área equivalente ao relvado de mais de 60.000 estádios de futebol, de floresta e vegetação ardida. É um valor que ultrapassa a minha capacidade de imaginação gráfica.



E se deixarmos o abstracto e pensarmos no que realmente isso representa, passamos a falar de floresta, culturas, casas, habitats, paisagens, todos reduzidos a cinza. Não precisamos de ser moradores das localidades que vêem a sua paisagem transfigurada. Quem vai conhecendo o nosso país vai notando a triste evolução. Serra do Caldeirão, Serra da Estrela, Caramulo, Peneda Gerês e tantas outras que já foram tão mais verdes e hoje estão em grande parte reduzidas a mato rasteiro. Este inverno revisitei a Serra da Estrela, tradição que tenho vindo a manter de há uns anos para cá. Um local de paz para mim. Está cada vez mais triste aquela paisagem, ainda manchada de negro pelos fogos do ano passado.



Já me fui habituando ao facto de que nem todas as pessoas olham da mesma forma para o meio ambiente, para a vida selvagem. Mas mal ou bem são muitos os que vão apreciando as paisagens bonitas do nosso país. E até hoje não encontrei uma única pessoa que gostasse de uma paisagem queimada (confesso que a minha amostragem não inclui instituições psiquiátricas). Não percebo então como deixamos arder tanta dessa paisagem natural, todos os anos.



Já me é difícil aceitar a mão criminosa, quer por perturbações psíquicas, quer por interesses financeiros. Mas quando entramos no campo da negligência então confesso que desespero. Como é que, depois de anos de informação e de campanhas de sensibilização (lembro-me dos primeiros autocolantes a apelar aos cuidados com a floresta tinha eu pouco mais de 10 anos de vida), com todos os incêndios a que já assistimos, ainda temos fogos com origem em beatas atiradas de carros, queimadas ilegais ou, ironia das ironias, fagulhas saídas de uma rebarbadora durante os trabalhos de montagem de um parque eólico?



O atirar da beata de cigarro para o chão é um comportamento transversal à quase totalidade dos fumadores. É algo que quase roça o incompreensível. A mesma pessoa que não atira um papel para o chão, fá-lo com a beata como se pertencesse a outra categoria qualquer. Algo que apenas na imaginação dos fumadores é facilmente biodegradável e isento de risco para o ambiente. O comportamento de atirar uma beata pela janela do carro, para não sujar o cinzeiro do mesmo, é um dos mais recorrentes exemplos de falta de civismo. A brasa de uma beata, quando esta é atirada para o chão e não é apagada, mantém-se acesa durante bastante tempo. Tocada a vento e com as temperaturas que se verificam no Verão é o suficiente para o início de um dos mega incêndios que temos observado.



Não consigo pensar em nenhuma mensagem de esperança quando assisto no ecrã da televisão, ano após ano, ao resultado dessas negligências ou comportamentos criminosos; não consigo aceitar a extensão do egoísmo humano quando passo por mais uma paisagem queimada; recuso-me a aceitar que parte da minha Serra se encontra hoje estéril, porque um dia alguém não quis sujar o seu cinzeiro.