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Alterações climáticas: ainda há quem não acredite?

Francisco Ferreira

Temos atualmente 1/3 do território continental em situação de seca severa e extrema.

A ciência, através do último relatório de mais de três mil cientistas, considerou, como factos inequívocos, que as alterações climáticas e a sua causa estão na atividade humana. Há quem conteste a relação entre os extremos meteorológicos cada vez mais frequentes e a mudança do clima, de uma forma mais lata. Mas quando a sua frequência e intensidade estão muito longe do normal, estes sintomas tornam-se mais significativos.

Vale a pena olhar para o que têm sido os últimos meses em Portugal. De acordo com informação do Instituto de Meteorologia, a nível mundial, o ano de 2010 foi o mais quente, juntamente com os anos de 2005 e 1998, sendo que a temperatura média da superfície do globo no ano passado foi 0,53 ºC acima da normal de referência mundial de 1961-1990. Confirma-se a tendência a longo prazo de aquecimento da superfície da Terra e que os 10 anos mais quentes ocorreram todos depois de 1998.

Em 2011, Portugal Continental teve a sua segunda Primavera mais quente desde 1931 (a mais quente foi 1997), com três ondas de calor, uma em Abril e duas em Maio. Aliás, o mês de Maio foi o mais quente desde 1931. Março, porém, foi mais frio e chuvoso do que o normal. Em contrapartida, nos Açores Maio foi o mês mais frio desde 2000, com muito pouca precipitação, e no Funchal não choveu durante o mês de Junho.

O Inverno de 2010/11 (Dezembro, Janeiro e Fevereiro) foi caracterizado pela ocorrência de fenómenos extremos: um tornado que atingiu os concelhos de Torres Novas, Tomar, Ferreira do Zêzere e Sertã, em Dezembro; episódios de neve nas regiões do Norte e Centro; duas ondas de frio (em Janeiro e Fevereiro); chuva forte com ocorrência de queda de granizo, em Dezembro e Fevereiro; e vento forte, em Fevereiro.

Na primeira quinzena de Outubro do presente ano foram ultrapassados os extremos históricos para este mês em locais como Lisboa, Bragança ou Anadia. Neste período, registaram-se mais duas ondas de calor e não houve chuva em Portugal continental, um cenário que já vinha desde início de Setembro. Temos atualmente 1/3 do território continental em situação de seca severa e extrema.

Das pescas às culturas agrícolas (como a vinha), passando pela erosão costeira, os efeitos das alterações climáticas fazem-se sentir também no nosso país.

A Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (aprovada em Resolução de Conselho de Ministros n.º 24/2010, de 1 de Abril de 2010) é o documento que pretende dotar o país  de um instrumento que promova a identificação de um conjunto de linhas de ação e de medidas de adaptação a aplicar. Esta Estratégia é apenas o primeiro passo para uma política ativa de adaptação às Alterações Climáticas, pois cabe aos grupos de trabalho setoriais, também criados por esta Estratégia, traduzir as linhas de ação em ações concretas e passá-las à prática. Em setores como Ordenamento do Território, Recursos Hídricos, Saúde, Energia e Indústria, Biodiversidade, entre outros, estes grupos de trabalho ainda não estão na fase conclusiva dos seus trabalhos.

Apesar da crise, e para garantir que o futuro não nos sairá mais caro, integrar o impacte das alterações climáticas no planeamento e nas diversas políticas de forma a minimizá-lo deve ser, claramente, uma prioridade fundamental.