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O polvo-comum

Bruno Pinto

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Exemplar de polvo-comum (Octopus vulgaris) fotografado no Mediterrâneo, em 2007.

Albert Kok/Wikimedia Commons

Se houvesse um concurso de inteligência entre vários grupos de animais, o polvo-comum (Octopus vulgaris) seria muito provavelmente escolhido para representar os invertebrados. Em documentários, é habitual ver este predador de caranguejos, bivalves, moluscos e peixes a entrar em armadilhas colocadas no fundo do mar, a alimentar-se faustosamente e a sair sorrateiramente de barriga cheia. Ou ver polvos recém-chegados do mar, a desenroscarem as tampas de frascos num aquário para conseguirem capturar caranguejos vivos.

Qual a explicação para os excelentes desempenhos destes Houdinis dos mares? Parte da resposta encontra-se no seu cérebro complexo que tem bastantes semelhanças com o cérebro dos vertebrados, o que é indicativo de uma evolução convergente. Ou seja, apesar de vertebrados e invertebrados se terem separado há mais de 500 milhões de anos, o cérebro dos polvos evoluiu de forma a atingir um tamanho, complexidade e organização mais parecidos aos seus distantes parentes vertebrados do que aos seus primos invertebrados. Mas o seu sistema nervoso também tem características únicas, tal como um sistema neuronal na base de cada um dos seus oito membros, onde acontece parte do planeamento e execução dos movimentos. Extrapolando para os humanos, seria o equivalente a termos um pequeno cérebro em cada um dos nossos braços e pernas, que tomavam algumas das decisões sobre o modo como nos mexemos. Isto daria certamente muito jeito a quem está a aprender a tocar bateria.

Para além disso, o polvo-comum tem uma visão e um tacto bastante desenvolvidos, e umas células na pele chamadas cromatóforos que lhes conferem a capacidade de mudar de cor. Assim, conseguem mimetizar mais facilmente o seu ambiente e passar despercebidos a predadores e presas. Este animal desloca-se nadando com os seus oito tentáculos ou por propulsão de jacto da água, a que pode juntar tinta para confundir eventuais predadores. Também consegue andar no fundo do mar, tendo-se descoberto que usa sempre os mesmos dois tentáculos para o fazer. Por isso, alguns investigadores defendem que os polvos não têm oito pernas ou pés (como indica a designação "octopode"), mas sim duas pernas e seis braços. Mesmo assim, não estão nada mal servidos.

Com todas estas capacidades, e talvez ainda um poder paranormal para adivinhar o resultado de jogos de futebol, alguns leitores poderão perguntar porque é que o polvo não é um dos maiores predadores dos mares e, eventualmente, não arranja uns capacetes especiais que lhe permita invadir e dominar o ambiente terrestre. Em primeiro lugar, é bom dizer a quem faz estas perguntas que talvez ande a ver demasiados filmes de ficção científica. Em segundo lugar, o polvo-comum tem uma longevidade de apenas um a dois anos, o que não lhes dá muito tempo para acumular experiência. Para além disso, não há cuidados parentais ou aprendizagem entre pais e filhos. Para explicar melhor, o polvo-comum só interrompe o seu estilo de vida solitário e territorial durante o acasalamento, após o qual a fêmea põe uma média de 350 000 ovos em locais abrigados (geralmente, zonas rochosas) situados entre os 20 e os 120 metros de profundidade. A progenitora fica a cuidar da sua prole ininterruptamente, deixando praticamente de se alimentar e morrendo pouco depois da eclosão dos ovos. Não havendo contacto entre gerações, escolas para polvos ou livros escritos por estes moluscos com jactos de tinta, cada geração tem de aprender tudo por si.

Em Portugal, esta espécie não é particularmente apreciada pela sua inteligência ou capacidade de mimetismo, mas antes pelo seu delicioso sabor, sendo capturada uma média nacional de 9000 toneladas de polvo por ano. Há cientistas que estudaram a possibilidade de fazer aquacultura com polvos, mas o seu estado larvar logo após o nascimento tem uma elevada mortalidade quando estão em cativeiro. Seja como for, o polvo-comum é um predador bem-sucedido com uma ampla distribuição a nível mundial, que está cá para ficar. Mas os aficionados de ficção científica escusam de se preocupar: eles estão muito longe de saber fazer os tais capacetes especiais.



Referências bibliográficas:

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