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O louva-a-deus-comum

Bruno Pinto

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Um exemplar de louva-a-deus comum (Mantis religiosa) fotografado na região de Lisboa em 2007

Alvesgaspar [CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], Wikimedia Commons

Se alguma vez for transportado inexplicavelmente para o microcosmos dos insetos e estiver num dos inúmeros prados ou matos de Portugal Continental, um dos predadores com que deverá ter especial cuidado é o louva-a-deus-comum (Mantis religiosa). Este tubarão-branco dos insetos ataca geralmente de emboscada, esperando pacientemente pelas suas presas e observando-as com a sua visão apurada, até que estas estejam suficientemente próximas. Depois, desfere um golpe com as suas patas anteriores que dura apenas umas décimas de segundo, deixando as suas presas a pensarem como é que aquilo lhes aconteceu, e talvez até a desejarem ver uma repetição em câmara lenta, como aquelas dos jogos de futebol. Apesar de pessoas reduzidas a centímetros de comprimento não constarem da sua ementa habitual, artrópodes como moscas, borboletas, afídeos ou gafanhotos são alvos frequentes do seu apetite voraz.

Atualmente, estão descritas mais de 2300 espécies de louva-a-deus no mundo, que se concentram sobretudo nas regiões tropicais. Para além dos habituais artrópodes, algumas chegam mesmo a comer vertebrados que incluem ratos, lagartos ou pequenas cobras. No caso do louva-a-deus comum, apresenta uma ampla distribuição mundial, sendo nativo da Europa, Ásia e África e tendo sido introduzido na América do Norte e na Austrália. É, também, uma das nove espécies destes insetos que foram registadas em Portugal Continental, tendo a particularidade de ser uma das espécies de maiores dimensões a nível nacional, com as fêmeas a atingirem oito centímetros de comprimento. Mas vejamos o que acontece antes de chegarem a este tamanho XL (do ponto de vista dos insetos). Depois de passarem os meses mais frios do ano num recipiente de proteção chamado ooteca, os pequenos louva-a-deus emergem na primavera como réplicas dos seus progenitores. Caçadores desde o início, vão capturando presas progressivamente maiores à medida que também eles aumentam de tamanho. Durante este processo, mudam diversas vezes de exosqueleto, deixando para trás as suas "velhas carapaças vazias". Ou seja, quando já não cabem em si, deverão ficar contentes por mudarem para um exosqueleto maior, que lhes permite crescer um pouco mais.

Quando atingem a maturidade, algumas espécies de louva-a-deus têm a capacidade de voar, havendo outras espécies em que apenas o macho consegue voar e ainda espécies que não têm asas. Os louva-a-deus voam geralmente para encontrar parceiro e apenas durante a noite, tendo um mecanismo de defesa curioso em relação aos morcegos. É que o único ouvido destes insetos está sintonizado para detetar os ultrassons emitidos pelos morcegos enquanto caçam. Quando tal acontece, recorrem a uma série de manobras aéreas que incluem uma súbita perda de altitude, conseguindo geralmente evitar a predação.

Durante a época de reprodução, que acontece no outono, ocorre por vezes o canibalismo sexual pelo qual os louva-a-deus são conhecidos, em que a fêmea come o macho durante ou após a cópula. Em alguns casos, o macho perde literalmente a cabeça enquanto esta decorre, mas pode continuar a copular sem cabeça durante horas. De qualquer forma, isto apenas acontece em algumas espécies e em determinadas circunstâncias, havendo outras espécies em que tal nunca se verifica. No que se refere ao louva-a-deus comum, um estudo feito no campo apurou que o canibalismo sexual ocorreu em 31% das cópulas detetadas. Assim, um macho atraído pelas feromonas de uma fêmea recetiva decide tentar acasalar ou não com ela, consoante o risco que corre e as oportunidades que tem para copular. Um macho com pouco ou nenhum sucesso com o sexo oposto corre muitos mais riscos, seja com fêmeas com fome ou saciadas. Por sua vez, as fêmeas comem mais frequentemente o seu parceiro quando estão com fome, encontrando assim o alimento necessário para a sua futura postura de ovos.  Em suma, enquanto alguns homens cortejam mulheres levando-as a jantar, alguns machos de louva-a-deus são ainda mais generosos, levando as fêmeas a jantá-los. E se estas fêmeas pudessem falar com os seus filhos, certamente fariam elogios tais como "o vosso pai era um louva-a-deus bonito, um companheiro dedicado e uma refeição muito nutritiva".



Referências bibliográficas:

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