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O coelho-bravo

Bruno Pinto

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Um exemplar de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) fotografado na Austrália em 2009

JJ Harrison [CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], via Wikimedia Commons

Diz-se, por vezes, que determinada pessoa tem tido alguns azares na vida, e algo semelhante se poderá dizer do coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus). É que esta espécie tem estado em declínio na Península Ibérica nas últimas décadas por causa da destruição de habitat, da introdução de  doenças devastadoras e da pressão de predação por vezes insustentável. Mas como é que lhe aconteceu esta catadupa de azares?

Este herbívoro evoluiu ao longo de cerca de dois milhões de anos na Península Ibérica, o seu local de origem, sendo considerada uma "espécie-chave" pela sua grande importância ecológica. A razão para isto é que o coelho-bravo é um pitéu apreciado por cerca de quarenta espécies de predadores. Todos o querem convidar para uma refeição, em que ele possa ser um dos pratos principais. Para evitar esta honra duvidosa, o coelho-bravo desenvolveu diversos mecanismos de defesa.

Por exemplo, tem uma visão de 360 graus que lhe permite detetar a aproximação de qualquer ameaça. Esta é uma capacidade que daria certamente jeito a muitos políticos portugueses, para se esquivarem de objetos arremessados por cidadãos descontentes. Para além disso, o coelho está mais ativo durante o crepúsculo, tentando evitar a atividade diurna das aves de rapina e a atividade noturna de carnívoros como a raposa. E também prefere um mosaico com vegetação densa, que lhe serve de abrigo, intercalada com vegetação aberta, onde se alimenta. Ou seja, gosta de ficar em "hotéis" seguros que sejam próximos de "restaurantes", para poder saltitar entre uns e outros minimizando o risco de predação.

Com tantos truques na manga (ou não fossem os coelhos os melhores amigos dos ilusionistas!),  como é que se deu o seu declínio? Em primeiro lugar, é preciso referir que este herbívoro já foi muito abundante na Península Ibérica. Aliás, pensa-se que a palavra "Espanha" tenha origem numa expressão dos comerciantes fenícios com cerca de 3000 anos ("i-shephan-im"), que se referiam a esta região como a "terra de coelhos". A partir do início do século XX, com o abandono agrícola e a criação de vastas áreas de pinhal e eucaliptal, houve um decréscimo do mosaico de vegetação de que os coelhos tanto gostam.

Depois, em 1952, um médico francês, que estava farto de ter tantos coelhos na sua propriedade, resolveu introduzir ilegalmente a mixomatose, uma doença arrasadora provocada por um vírus oriundo da América do Sul. O resultado foi que a doença se espalhou rapidamente por toda a Europa, tendo provocado uma das primeiras grandes machadadas nesta espécie. Em meados dos anos oitenta, foi também introduzida no Velho Continente a doença hemorrágica viral, provavelmente de forma acidental e a partir de coelhos domésticos importados da Ásia.

Para ajudar à festa, a pressão cinegética também tem crescido nas últimas décadas. E, curiosamente, os repovoamentos promovidos por alguns caçadores feitos às três pancadas, com coelhos que transportam sabe-se lá que doenças, não têm resolvido o problema. Por tudo isto, o coelho-bravo está metido num buraco do qual tem tido alguma dificuldade em sair. Até porque há muito pessoal armado e com o dedo no gatilho que o espera lá fora.

Paradoxalmente, o coelho-bravo é visto como uma praga em algumas regiões onde foi introduzido. Por exemplo, esta espécie foi levada para a Austrália com o objetivo de produção de carne e peles em cativeiro. Em 1859, alguém teve a brilhante ideia de libertar 24 indivíduos para que os caçadores pudessem caçar coelhos. Só que, na ausência de predadores naturais e com boas condições ecológicas, o coelho pôde dar azo à sua lendária capacidade de reprodução e ocupar grande parte deste continente. Portanto, aos infortúnios acima referidos, junta-se ainda a má fama de provocar grandes prejuízos na agricultura, nesta e noutras regiões do mundo.

Esperemos que o coelho-bravo possa ter melhor sorte no futuro, o que seria benéfico para os seus predadores, para os caçadores e, já agora, para ele próprio. Mas talvez não valha a pena oferecer-lhes patas de coelhos como amuleto, que eles podiam levar isso a mal...

 

Referências bibliográficas:

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  • Ferreira, C. 2012. European rabbit research in the Iberian Peninsula: state of the art and future perspectives. European Journal of Wildlife Research 58 (6): 885-895.
  • Ferreira, C 2011. Relationships between predation risk, disease and fitness in the wild rabbit: management implications. Tese de doutoramento. Universidade de Castilla La Mancha.
  • Moreno S., Villafuerte, R. 1995. Traditional management of scrubland for the conservation of rabbits, Oryctolagus cuniculus, and their predators in Doñana National Park, Spain. Biological Conservation 73(1): 81-85.
  • Smith, A.T., Boyer, A.F. 2008. Oryctolagus cuniculus. In: IUCN 2013. IUCN Red List of Threatened Species. Version 2013.1. <www.iucnredlist.org>. Download a 19 Julho 2013.
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