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O bufo-real

Bruno Pinto

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Bufo-real (Bubo bubo) fotografado no sul de França, em 2011

Saint Rémy de Provence Tourisme/Wimimedia Commons

Os feiticeiros do universo mágico de Harry Potter que pretendem um serviço postal de excelência recorrem frequentemente ao bufo-real (Bubo bubo). É verdade que há outras corujas e mochos que transportam eficazmente cartas e encomendas entre feiticeiros, mas o bufo-real parece ser o eleito para quem não tenha limites de orçamento.



De facto, as aves de rapina noturna têm um lugar privilegiado na cultura popular, não sendo por isso de estranhar que a autora inglesa J.K. Rowling as tenha escolhido como uma das criaturas fantásticas dos seus livros. No caso do bufo-real, é uma das maiores do mundo, tendo uma envergadura de asas que pode atingir quase dois metros. Apesar de não ocorrer naturalmente na terra natal da escritora, tem uma distribuição alargada na Europa e na Ásia. Vive, geralmente, em regiões com escarpas rochosas pouco recomendadas para passeios a quem tenha problemas de joelhos, que lhes podem servir de abrigo e de local de nidificação. Para caçar, preferem áreas de vegetação aberta com matos esparsos, zonas de floresta pouco densas e bosques próximos de rios e ribeiras.



O bufo-real é um predador generalista que baseia a sua alimentação em pequenos mamíferos como ratos, coelhos ou ouriços-cacheiros (uma refeição picante), consumindo também aves de médio porte, répteis, anfíbios e peixes. Para além disso, é considerado um super-predador, não por ter algum tipo de poder especial mas antes por caçar outros predadores tais como carnívoros, aves de rapina diurnas e até aves de rapina noturnas. Quer isto dizer que os feiticeiros devem zelar pela boa alimentação dos seus bufos-reais, caso contrário, estes podem ameaçar o bom funcionamento do seu serviço de correios.



Na região Mediterrânica onde se inclui Portugal, a sua presa preferida é o coelho-bravo, havendo estudos que apontam para uma diminuição da densidade e reprodução do bufo-real quando a ocorrência desta presa se torna escassa. De qualquer forma, e uma vez que são de bom bico, conseguem adaptar-se a uma dieta com pouco coelho, caçando outras espécies que sejam mais abundantes na zona.



Nos filmes de terror ou de suspense, é frequente associar-se as aves de rapina noturnas à lua, e existe realmente uma relação entre a atividade do bufo-real e as diferentes fases do nosso satélite natural. Assim, esta ave está mais ativa em noites com luar, o que pode ser explicado como um esforço extra para capturar presas relutantes em abandonarem os seus esconderijos. Também se registam picos de atividade em noites escuras, uma vez que aproveitam para caçar essas presas que se tornam mais afoitas quando há pouca luz. Por outro lado, passam mais tempo a anunciar a sua presença durante as noites mais luminosas, escolhendo pontos altos para mostrar as penas brancas do pescoço e emitindo vocalizações que provocam calafrios aos personagens facilmente impressionáveis dos filmes acima referidos.



Uma das razões para as aves de rapina noturnas serem tão bem-sucedidas e que provavelmente terá contribuído para a sua fama de misteriosas ou sinistras é o facto de voarem praticamente em silêncio. Esta capacidade é habitualmente atribuída a modificações existentes em algumas das suas penas (por exemplo, nas asas) que reduzem o atrito com o ar, mas ainda não se sabe bem como isto acontece. Aliás, tem havido diversos estudos para tentar perceber melhor este processo, com o intuito de aplicar esse conhecimento à redução do ruído causado por aviões nos aeroportos. Se tal acontecer, poderemos concluir que as aves de rapina noturnas também podem ensinar alguns truques aos humanos. De certeza que o Harry Potter iria gostar de saber disso...

Referências bibliográficas:

 

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