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As alterações climáticas e a biodiversidade

Bruno Pinto

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Foto de raia-lenga, uma das espécies que se deverá tornar mais rara em Portugal Continental devido às alterações climáticas

Foto: Vassil / Reprodução Wikipedia

Se há coisa que o clima teima em fazer é mudar. Não só desde o tempo dos nossos avós até ao presente, mas também ao longo de milhares ou milhões de anos. Mas com a queima de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) e a consequente emissão de gases com efeito de estufa como o dióxido de carbono, assistimos pela primeira vez a alterações climáticas provocadas pelos humanos. E o que podem fazer os seres vivos? O que sempre fizeram em relação às alterações do clima: adaptar-se o melhor possível. Por exemplo, uma determinada espécie em Portugal Continental poderá adaptar-se a um aumento de temperatura mudando-se para áreas mais a norte e/ou a maiores altitudes, onde o clima é mais frio. É o que dá, não ter acesso a aparelhos de ar condicionado...

Com a redução de habitats naturais nos últimos milhares de anos pela ação humana, hoje ocupadas por áreas urbanas, agrícolas e outras, as hipóteses de mudança para outras regiões são mais escassas. Há barreiras como auto-estradas ou zonas urbanas que podem ser facilmente ultrapassadas por grupos como as aves, mas mais dificilmente por outros como as plantas. Para além disso, as atuais alterações climáticas estão a acontecer a um ritmo mais rápido do que outras mudanças climáticas no passado. E isto significa que as espécies têm atualmente menos tempo para se adaptar. Dadas estas dificuldades, acho que o mínimo que podíamos fazer era dizer às outras espécies que lamentamos muito os incómodos causados. Caso contrário, ainda vão fazer queixas nossas ao Criador por causa das alterações climáticas.

Algumas pessoas gostam de prever o futuro olhando fixamente para bolas de cristal parecidas com candeeiros de mesa de cabeceira. Mas por alguma estranha razão, os cientistas usam modelos climáticos para prever os futuros impactos das alterações climáticas em determinada região. Então, o que prevêm esses modelos climáticos sobre as alterações na biodiversidade em Portugal Continental? Em relação às áreas florestais, a região sul deverá ser a mais afetada pela redução de água disponível, tendo assim maior impacto económico em espécies como o eucalipto e o pinheiro. Também é provável que haja uma migração de espécies florestais do sul para o norte, e do interior para o litoral, com um alargamento da época de incêndios e fogos em maior número e dimensão.

No que diz respeito à fauna, um estudo recente com 292 espécies de animais da Península Ibérica prevê uma redução da área ocupada para a maioria destes animais, que será mais acentuada na região sul. Para além disso, as mudanças climáticas continuarão a ter impacto nos ciclos anuais de diversos seres vivos. Por exemplo, há aves em Portugal que já se estão a reproduzir uns dias antes do que era habitual. Há, também, espécies que antecipam a data de ida e regresso das migrações para os locais onde passam o Inverno. O que vale é que não têm de pagar taxas adicionais por essas alterações, caso contrário, ainda iriam gastar algum dinheiro.

Há, ainda, previsão de um impacto negativo na biodiversidade em rios e ribeiras, sobretudo pela redução do volume de água e oxigénio neste tipo de habitats. Com o aumento da temperatura da água do mar, também é provável que espécies de águas mais quentes vindas do sul como o xaréu-azul sejam mais frequentes em Portugal Continental e que espécies de peixe de água mais frias como o tamboril e a raia se desloquem para norte e se tornem raras por cá. Resta saber o que acontecerá à caldeirada no nosso país, com todas estas mudanças.

É verdade que há sempre uma certa dose de incerteza associada às alterações climáticas. Mas isso não é razão para ficarmos quietos. Pelo contrário, devemos adaptarmo-nos a mudanças consideradas prováveis, para minimizar o seu impacto. Por exemplo, como um dos objetivos da criação de parques e reservas naturais foi a conservação de habitats e espécies, deveremos procurar ajustá-las a pouco e pouco às novas condições do clima. Se não tomarmos esta e outras medidas, deixaremos certamente às futuras gerações um país com um património natural mais pobre do que aquilo que recebemos. E isso não é lá muito simpático da nossa parte...

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Referências bibliográficas

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