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A sardinha

Bruno Pinto

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Cardume de sardinhas (Sardina pilchardus) fotografado na costa norte de Itália, em 2009

Etrusko25/Wikimedia Commons

Quem visitasse o nosso país há dois mil anos, teria tido oportunidade de assistir ao florescimento das indústrias de salga de peixe estabelecidas pelos Romanos em locais como as praias de Lisboa, Setúbal, Troia, Sines ou ilha do Pessegueiro. E apesar de não fazerem festas populares em honra de padroeiros durante o mês de junho, também os Romanos deram um maior protagonismo à sardinha (Sardina pilchardus), salgando-a e enviando-a para os quatro cantos do seu vasto Império. Foram, aliás, os Romanos que batizaram este peixe, numa referência à ilha de Sardenha na Itália, onde também eram pescadas.



A sardinha continua a ser abundante nas nossas águas costeiras. Tal como acontece com várias espécies de sardinha que existem noutros pontos do mundo, alimenta-se de diferentes tipos de plâncton minúsculo (isto é, pequenas algas, animais, ovos, larvas e juvenis de peixe que se encontram em suspensão no mar). Geralmente, captura as suas presas por filtração a profundidades que variam entre os 22 e os 55 metros, mas também pode ser um predador visual quando ingere plâncton de maiores dimensões. O seu sentido de visão também é bastante útil quando se aglomeram em cardumes e se tentam esquivar às investidas dos seus inúmeros predadores, que incluem tubarões e outras espécies de peixe de maiores dimensões, golfinhos e aves marinhas. Quer isto dizer que há imensas festas da sardinha no mar ao longo de todo o ano, mas que o peixe homenageado nunca sai a ganhar com estes eventos.



Para satisfazer o grande apetite dos portugueses por este peixe, que pode ser quantificado numa média de capturas de 65 000 toneladas por ano, os pescadores recorrem sobretudo às artes de cerco. Depois de detetar um cardume de sardinhas usando o sonar de que os golfinhos também são adeptos, uma pequena embarcação sai da traineira e estende uma rede em forma de saco, que depois é recolhida até o peixe ficar a agitar-se à superfície. Algumas sardinhas que se apercebem que estão cercadas por todos os lados ainda conseguem saltar por cima da rede, mas a maioria é capturada para dentro da traineira. Esta pesca de cerco é considerada sustentável, uma vez que quase tudo o que vem à rede é sardinha e raramente causa a destruição de habitats no fundo do mar.



Para atestar a sua sustentabilidade, foi certificada em janeiro de 2010 pela organização internacional Marine Stewardship Council, tornando-se a única espécie da Península Ibérica a possuir esta distinção. Mas a certificação foi retirada em janeiro de 2012 devido à escassez de ovos e juvenis atribuída à variação de fatores naturais como as correntes oceânicas, o clima ou a quantidade e qualidade de plâncton. Preocupados com a escassez de sardinha, que também afetou a indústria das conservas, os pescadores portugueses impuseram a eles próprios quotas máximas de pesca, pretendendo assim contribuir para a reposição dos stocks desta espécie. Esta iniciativa contrasta com a estatística de que 32% dos recursos pesqueiros mundiais são explorados acima da sua capacidade de reposição. Portanto, numa altura em que parte da sustentabilidade das pescas a nível mundial parece estar dependente de um verdadeiro milagre de multiplicação dos peixes, é de louvar que os portugueses sejam mais crentes nas suas ações para que a sardinha continue a ser um recurso renovável.



Podemos, então, continuar a contar com este peixe para animar as nossas refeições, bem como as nossas exportações de conservas. Dois mil anos depois dos Romanos terem andado por cá a pescá-la, a sardinha portuguesa continua a ser apreciada dentro e fora do nosso país.







Referências bibliográficas: