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A estrela-do-mar-de-espinhos

Bruno Pinto

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Uma estrela-do-mar-de-espinhos (Marthasterias glacialis) fotografada em 2009 na Sicília (Itália), em que se nota a regeneração de um dos seus braços

Tato Grasso [CC-BY-SA-3.0 (http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0)], Wikimedia Commons

Se pensa que a estrela-do-mar-de-espinhos (Marthasterias glacialis) que ocorre nas praias do nosso país é o animal simpático que costuma ver nos filmes ou nas séries infantis de televisão, desengane-se. Ao contrário de outras espécies de estrelas-do-mar inofensivas que se alimentam de algas ou plâncton, esta espécie é um predador que nem se dá ao trabalho de matar as suas presas antes de começar a digeri-las. Acha que estou a exagerar? Então, talvez seja boa ideia continuar a ler esta crónica.

Tal como o seu nome indica, esta espécie de cinco braços longos tem a superfície dorsal coberta de espinhos, o que juntamente com o seu esqueleto rígido lhe confere alguma proteção contra predadores. Mas isto não evita  que outras espécies de estrelas-do-mar ou a sapateira se dediquem à tarefa espinhosa de as comer. Tem, geralmente, um diâmetro de cerca de 30 centímetros (mas pode chegar aos 70) e passa os seus dias a calcorrear o fundo do mar à procura das suas presas. Alguns leitores estarão provavelmente a perguntar-se que presas serão essas, que se deixam apanhar por este predador de movimentos lentos e aparentemente tão pouco habilidoso. A resposta é que a estrela-do-mar-de-espinhos se alimenta de uma grande diversidade de animais (vivos ou mortos) tais como mexilhões e outros moluscos bivalves, ouriços-do-mar, cracas, crustáceos, peixes e até outras estrelas-do-mar. Assim, a composição da sua dieta varia consoante a disponibilidade destes animais ao longo da sua distribuição, que se estende desde o frio mar do norte da Noruega até ao ameno Mediterrâneo. E como estas presas são tão ou mais lentas do que ela, estão fixas a rochas ou (melhor ainda) mortas, a falta de velocidade não é um problema.

A sua técnica de caça consiste em deslocar-se recorrendo aos seus numerosos e minúsculos pés ambulacrários que fazem lembrar as patas de uma centopeia, até que estes "tropeçam" na refeição seguinte. Depois, projeta pela boca um dos seus dois estômagos (chamado cardíaco) que coloca em cima da sua presa, libertando enzimas que a digerem parcialmente enquanto ainda está viva. De seguida, esse estômago absorve os tecidos dessa presa, que passam para o outro estômago (chamado pilórico) para se completar a digestão e absorção de nutrientes. No caso dos animais protegidos por uma concha, como o mexilhão, a união de centenas destes pés ambulacrários fazem a força suficiente para abrir ligeiramente a concha. E como o estômago cardíaco é muito fino e flexível, conseguem inseri-lo nessa pequena abertura da concha e assim fazer uma visita inesperada que se presume que o mexilhão não deve apreciar muito. Quando a estrela-do-mar sai de cena em busca de outras presas, tudo o que resta é uma concha vazia.

As estrelas-do-mar também são conhecidas pela sua capacidade de regeneração, conseguindo reconstruir facilmente partes do seu corpo amputadas por um predador. Uma vez que também regeneram órgãos internos, estes animais podem reproduzir-se assexuadamente dividindo-se em duas partes. Imagine se tivesse a mesma capacidade. Se fosse preciso amputar uma perna, poderia regenerá-la ao fim de alguns meses. Mas como essa perna amputada também poderia dar origem a uma pessoa exatamente igual a si, talvez fosse um pouco estranho quando se cruzasse na rua com este seu novo "irmão gémeo".

De qualquer forma, estes animais têm habitualmente reprodução sexuada, o que no caso da estrela-do-mar-de-espinhos acontece uma vez por ano no norte da Europa e duas vezes por ano no Mediterrâneo. Neste processo, machos e fêmeas libertam gâmetas para o mar e a fecundação externa origina um embrião que se torna parte do plâncton. Depois de passar por diferentes estádios larvares ao longo dos mais de três meses em que navega ao sabor das correntes do mar, a larva deixa essa existência livre que caracteriza o plâncton e fixa-se no fundo do mar, tornando-se por metamorfose numa estrela-do-mar. Depois disso, tem uma vida inteira pela frente para projetar um dos seus estômagos para cima das suas presas e também para aparecer sem ser convidada dentro das conchas dos mexilhões.

 

Referências bibliográficas:

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