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A borboleta-cauda-de-andorinha

Bruno Pinto

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Borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon), uma das espécies de borboletas mais comuns no nosso país, fotografada na Bélgica em 2007

Jean-Pol Grandmont [CC-BY-SA-3.0], Wikimedia Commons

Poderá parecer um pouco frívolo dizer que a borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon) é considerada uma das mais bonitas entre as 135 espécies de borboletas diurnas que existem em Portugal, mas a verdade é que a beleza destes insetos nos fascina desde tempos imemoriais. De qualquer forma, se isso for pouco, podemos dizer que é uma das espécies nacionais de maiores dimensões, cujas asas têm uma envergadura entre os seis e os oito centímetros. Só que num país onde já foram anunciados a construção do maior lago artificial da Europa, da maior ponte da Europa e do maior Oceanário da Europa, será suficiente ser apenas "uma das maiores"? Provavelmente, não. Por isso, podemos ainda acrescentar que é uma das borboletas mais comuns em Portugal, e que tem uma ampla distribuição na Europa, Norte de África e Ásia.

O escritor russo Vladimir Nabokov descreveu o momento em que viu pela primeira vez uma borboleta desta espécie como um dos mais intensos da sua vida. A sua paixão por estes insetos começou na infância por influência dos pais, e perdurou até ao fim da sua vida. Aliás, o seu célebre romance "Lolita" foi parcialmente escrito durante uma das suas inúmeras expedições de captura de borboletas nos Estados Unidos da América. Nabokov tornou-se um especialista num grupo específico de borboletas (designado por Polyommatus azuis), tendo apresentado uma ousada teoria sobre a sua evolução em 1945. Apesar do seu trabalho com borboletas ter tido pouco impacto junto dos profissionais, a sua reputação tem científica tem vindo a crescer nos últimos anos. Recentemente, um grupo de cientistas resolveu averiguar a hipótese de evolução das Polyommatus azuis proposta pelo escritor, usando ferramentas que não estavam ao seu dispor tais como a sequenciação genética, e ficaram surpreendidos por descobrirem que ele estava absolutamente certo.

Antes de proporcionar momentos intensos a escritores e outros apaixonados por estes insectos, a borboleta-cauda-de-andorinha tem, no entanto, um longo caminho a percorrer. Da eclosão do ovo que foi depositado numa planta-hospedeira como a arruda ou o funcho, sai uma pequena lagarta preta com uma mancha branca. A sua cor e forma a imitar um dejeto de uma ave faz com que passe mais facilmente despercebida aos seus predadores durante esta fase inicial. Isto é um pouco como aquelas histórias reais e de ficção de pessoas com origens muito humildes, que depois conseguem chegar longe na vida. Esta borboleta também começa por baixo (como pseudo-dejeto), mas pode-se dizer que acaba em beleza. Felizmente, as lagartas vão perdendo esta camuflagem, que as poderia traumatizar psicologicamente, e ganhando cores vistosas que assinalam o seu mau sabor. Para além disso, têm como arma secreta uma glândula por detrás da cabeça (chamada osmeterium) que exibem quando se sentem ameaçadas, e que emana um cheiro pungente capaz de afastar alguns dos seus predadores. Após algumas semanas a comerem desalmadamente, as lagartas grandes e gordas fecham a loja, suspendem-se em plantas por fios de seda e tornam-se crisálidas.

É nesta fase dentro da cápsula protectora da crisálida que o corpo da lagarta desta e de outras espécies passa por uma metamorfose completa e se torna uma borboleta. Como se a Natureza dissesse: "Epá, afinal não era bem uma lagarta que eu queria fazer. Vamos ver se ainda dá para transformar esta lagarta numa borboleta...". O inseto reformulado com asas, com um voo que parece por vezes acompanhado da música delicada de uma harpa, pode fazer migrações de dezenas de quilómetros e assim ocupar outras regiões. Durante este período em que as borboletas têm como principal missão a reprodução, alimentam-se do néctar de flores e desempenham um papel importante como polinizadores de plantas. Depois da cópula, a fêmea põe os ovos numa planta-hospedeira e termina assim o seu ciclo de vida.

Agora que já sabe um pouco mais sobre borboletas, talvez repare melhor se alguma se cruzar consigo. E mesmo que viva no meio da cidade, numa área onde nunca aparecem borboletas, pode ser que veja um desses belos insetos tatuado na pele de transeuntes desconhecidos...



Referências bibliográficas: