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Aventura Creoula [17]: Maquilhagem de sobrevivência

Aventura Creoula: 20 dias no mar

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"Não é medo de acabarem grelhados e serem repasto apetecível numa esplanada no verão, é apenas vontade em sobreviver neste mundo aquático de guerra e paz onde nem sempre os mais fortes vencem mas, certamente os mais inteligentes sobrevivem". Mais uma CRÓNICA, VÍDEO E FOTOS do fotojornalista Paulo Maria

Octopus vulgaris-O polvo é o “mestre da camuflagem”. Em segundos pode alterar não apenas a cor do corpo mas também a sua textura, de modo a ficar praticamente impercectível
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Octopus vulgaris-O polvo é o “mestre da camuflagem”. Em segundos pode alterar não apenas a cor do corpo mas também a sua textura, de modo a ficar praticamente impercectível

Octopus vulgaris, os polvos são carnívoros e conseguem, com o bico colocado no centro ventral partir e comer quase tudo o que abracem com os seus oito braços
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Octopus vulgaris, os polvos são carnívoros e conseguem, com o bico colocado no centro ventral partir e comer quase tudo o que abracem com os seus oito braços

Mestre do disfarce os polvos adotam a pigmentação e textura do ambiente onde se escondem
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Mestre do disfarce os polvos adotam a pigmentação e textura do ambiente onde se escondem

Um Octopus vulgaris esconde-se por entre as reentrâncias de rocha e areia camuflando-se
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Um Octopus vulgaris esconde-se por entre as reentrâncias de rocha e areia camuflando-se

Octopus vulgaris, o polvo é um autêntico mago do disfarce
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Octopus vulgaris, o polvo é um autêntico mago do disfarce

Octopus vulgaris, o polvo é um autêntico mago do disfarce
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Octopus vulgaris, o polvo é um autêntico mago do disfarce

Parecendo inofensivas anémonas jóia os tentáculos são poderosas armas de sucção para os polvos
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Parecendo inofensivas anémonas jóia os tentáculos são poderosas armas de sucção para os polvos

Octopus vulgaris, os polvos são ainda um mistério para a ciência. A capacidade de absorverem a informação da cor e das texturas do ambiente envolvente protege-os da predação
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Octopus vulgaris, os polvos são ainda um mistério para a ciência. A capacidade de absorverem a informação da cor e das texturas do ambiente envolvente protege-os da predação

Os cromatóforos permitem aos polvos mutar a cor e a textura num processo quase imediato em função do fundo onde e encontram
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Os cromatóforos permitem aos polvos mutar a cor e a textura num processo quase imediato em função do fundo onde e encontram

O trabalho da campanha M@rBis passa por catalogar as várias amostras recolhidas, não importa o tamanho
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O trabalho da campanha M@rBis passa por catalogar as várias amostras recolhidas, não importa o tamanho

A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos
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A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos

A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos
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A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos

A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos e protege os seus coloridos ovos debaixo da carapaça rigida do seu dorso
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A bruxa do mar (Scyllarus arctus) é aparentado das lagostas e dos cavacos e protege os seus coloridos ovos debaixo da carapaça rigida do seu dorso

Quem diria que por debaixo destas algas está um caranguejo ao estilo ranger da floresta
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Quem diria que por debaixo destas algas está um caranguejo ao estilo ranger da floresta

Mais parecendo um ser alienigena, este caranguejo encontra-se bem disfarçado
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Mais parecendo um ser alienigena, este caranguejo encontra-se bem disfarçado

Este minúsculo caranguejo disfarça-se colocando algas sobre o dorso
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Este minúsculo caranguejo disfarça-se colocando algas sobre o dorso

Ainda que as suas conchas sejam verdadeiras casas-forte os eremitam disfarçam as suas patas para poderem "vir à janela" sem serem notados
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Ainda que as suas conchas sejam verdadeiras casas-forte os eremitam disfarçam as suas patas para poderem "vir à janela" sem serem notados

Os caranguejos-eremitas adotam outras formas de camuflagem, levando vantagem pois a concha que habitam também serve de defesa
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Os caranguejos-eremitas adotam outras formas de camuflagem, levando vantagem pois a concha que habitam também serve de defesa

Uma estrela do mar também usa a camuflagem cobrindo-se com areia, para fugir à predação
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Uma estrela do mar também usa a camuflagem cobrindo-se com areia, para fugir à predação

Um rascasso (peixe escorpião) mantém-se imóvel e camuflado junto ao fundo marinho à espera das suas presas
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Um rascasso (peixe escorpião) mantém-se imóvel e camuflado junto ao fundo marinho à espera das suas presas

Um pequeno crustáceo adota as cores da gorgónea onde tenta passar despercebido
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Um pequeno crustáceo adota as cores da gorgónea onde tenta passar despercebido

Um pequeno camarão Eualus sp. adota as cores da formação coralina onde tenta passar despercebido
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Um pequeno camarão Eualus sp. adota as cores da formação coralina onde tenta passar despercebido

Uma solha usa a pretuberância espinhosa colocada em frente à sua boca para não ter que se esforçar a caçar, atraindo assim as suas presas
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Uma solha usa a pretuberância espinhosa colocada em frente à sua boca para não ter que se esforçar a caçar, atraindo assim as suas presas

Zeugopterus puntactus – Rodovalho-bruxa.Ao contrário da grande maioria dos peixes achatados, que vivem em areia, vive em zonas rochosas, confundindo-se com estas. Nesta fotografia porém, escolheu uma rocha coberta por uma esponja amarela, o que permite identificá-lo com facilidade
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Zeugopterus puntactus – Rodovalho-bruxa.Ao contrário da grande maioria dos peixes achatados, que vivem em areia, vive em zonas rochosas, confundindo-se com estas. Nesta fotografia porém, escolheu uma rocha coberta por uma esponja amarela, o que permite identificá-lo com facilidade

As solhas disfarçam-se na perfeição usando a areia como camuflagem
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As solhas disfarçam-se na perfeição usando a areia como camuflagem

Platichthys flesus-Solha As larvas são parecidas com as de um peixe normal (com um olho de cada lado) e durante a metamorfose sofrem uma extraordinária deformação da cabeça, deslocando-se os olhos para a posição que têm na solha adulta. A camuflagem deste animal é excelente e às vezes só se vêem os olhos a espreitar num fundo de areia
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Platichthys flesus-Solha As larvas são parecidas com as de um peixe normal (com um olho de cada lado) e durante a metamorfose sofrem uma extraordinária deformação da cabeça, deslocando-se os olhos para a posição que têm na solha adulta. A camuflagem deste animal é excelente e às vezes só se vêem os olhos a espreitar num fundo de areia

Como um padrão de guerra, as solhas usam uma mancha na zona posterior do dorso confundindo os predadores
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Como um padrão de guerra, as solhas usam uma mancha na zona posterior do dorso confundindo os predadores

Também os ouriços do mar usam artefactos para se camuflar
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Também os ouriços do mar usam artefactos para se camuflar

A areia serve de disfarce a este ruivo que não hesitará em expandir as suas barbatanas para afugentar os predadores que o tentem atacar
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A areia serve de disfarce a este ruivo que não hesitará em expandir as suas barbatanas para afugentar os predadores que o tentem atacar

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Um pequeno caboz espreita disfarçadamente à entrada do seu esconderijo
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Um pequeno caboz espreita disfarçadamente à entrada do seu esconderijo

Um pequeno caboz espreita disfarçadamente à entrada do seu esconderijo
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Um pequeno caboz espreita disfarçadamente à entrada do seu esconderijo

Este minúsculo crustáceo procura ocultar-se e proteger-se nas ceratas de uma lesma-do-mar.
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Este minúsculo crustáceo procura ocultar-se e proteger-se nas ceratas de uma lesma-do-mar.

Só o olhar atento e perspicaz dos mergulhadores e biólogos conseguem identificar seres como esta navalheira que se camuflam e abrigam por entre as formações rochosas
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Só o olhar atento e perspicaz dos mergulhadores e biólogos conseguem identificar seres como esta navalheira que se camuflam e abrigam por entre as formações rochosas

Callionymus lyra - Peixe-pauO peixe-pau vive em zonas de areia, confundindo-se com o substrato envolvente, dada a cor do seu corpo
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Callionymus lyra - Peixe-pauO peixe-pau vive em zonas de areia, confundindo-se com o substrato envolvente, dada a cor do seu corpo

Pomatoschistus pictus - O Caboz da areia, tal como vários elementos aparentados, confunde-se com a areia pois o seu corpo é da mesma cor
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Pomatoschistus pictus - O Caboz da areia, tal como vários elementos aparentados, confunde-se com a areia pois o seu corpo é da mesma cor

Scorpaena porcus – O Rascasso consegue adaptar a sua cor ao substrato e a presença de apêndices frondosos sobre o corpo, assemelha-se a uma rocha coberta de pequenas algas
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Scorpaena porcus – O Rascasso consegue adaptar a sua cor ao substrato e a presença de apêndices frondosos sobre o corpo, assemelha-se a uma rocha coberta de pequenas algas

Sepia oficinalis – Choco, tal como o polvo, consegue mudar de cor e textura em segundos. Usa esta estratégia não apenas para se confundir com o substrato envolvente mas também para comunicar com outros membros da sua espécie
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Sepia oficinalis – Choco, tal como o polvo, consegue mudar de cor e textura em segundos. Usa esta estratégia não apenas para se confundir com o substrato envolvente mas também para comunicar com outros membros da sua espécie

Este choco impressiona pelos padrões de defesa que adquire graças aos cromatóforos que cobrem os seu corpo
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Este choco impressiona pelos padrões de defesa que adquire graças aos cromatóforos que cobrem os seu corpo

Um pequeno cefalópode passa facilmente despercebido na areia do fundo marinho
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Um pequeno cefalópode passa facilmente despercebido na areia do fundo marinho

Assobiar para o lado, fingir que não estamos, apagar as luzes quando tocam à campainha ou ignorar o chamamento de alguém que queremos evitar. Tudo são táticas humanas, à primeira vista ridículas mas que permitem que vivamos camuflados perante os outros. Quantos de nós não pensámos que, por vezes na vida seria preferível passar despercebido ou quem nunca desejou desaparecer perante dantescos cenários? Desviamos o olhar, misturamo-nos na multidão ou entramos numa loja de caça e vestimos um camuflado. Quer sejam questões do foro comportamental quer tenhamos o intuito de nos tornarmos invisíveis ao mundo, o homem sempre engendrou esquemas mentais e físicos para viver em determinadas situações, sem parecer estar presente. 

Que o digam alguns habitantes dos mares que ao longo do tempo desenvolveram e apuraram técnicas de camuflagem preservando os mais apurados instintos de sobrevivência, quais Houdinis dos Mares!

Terão os humanos aprendido algo com a natureza? Certamente terão aprendido a moldar a sua presença, num mundo onde só os mais fortes e inteligentes sobrevivem, espelho de uma cadeia evolutiva de seleção natural.

Os recursos que a natureza e a biodiversidade possuem são ínfimos e ancestrais, mas ainda não conseguimos imitar todos os planos, estratégias e armas usadas pelos animais. Dificilmente conseguiremos algum dia imitar um choco ou uma lula que, ao sentirem-se ameaçados expelem uma bolsa de tinta escura para intimidar e perturbar a visão do predador. Impossível será pensarmos em encostarmo-nos a uma superfície e adotarmos a mesma pigmentação e textura tal como um polvo faz.

Sempre me impressionou a camuflagem natural que alguns peixes e os cefalópodes possuem. A habilidade inata de se esconderem dos predadores e muitas vezes de uma observação menos atenta de mergulhadores recreativos e com o olho pouco treinado para toda esta fisiologia. 

Os polvos ou Octopus vulgaris, possuem oito longos e elásticos braços providos de duas colunas de potentes ventosas, são carnívoros, envolvem as suas presas num abraço letal e possuem um coeficiente de "inteligência" que deixa muitos humanos de braços caídos. Abrem frascos, adivinham resultados futebolísticos, propulsionam-se na água com uma destreza ímpar, conseguem trocar de "roupa" num ápice e desfilar como tropa de elite ou como areia do mar, parecem um pau, podem ser pedra. Procuram disfarçar-se e ser apenas parte do cenário. Vivem desde a antiguidade com conhecimentos de artes mágicas, a ciência, apenas na atualidade deu os primeiros passos para compreender e replicar este fenómeno que de vulgar nada tem.

Nuno Vasco Rodrigues é para mim uma referência no que toca ao conhecimento das espécies submarinas. Este biólogo vive e respira a biodiversidade marinha como poucos, está presente na campanha M@rBis a bordo do Navio de Treino de Mar Creoula e já me ajudou numa crónica passada, (a crónica 4), a identificar as principais caracteristicas das espécies que encontramos na nossa costa mas que não associamos à forma e aspeto. Se existisse um concurso televisivo em que, quem identificasse o maior número de espécies ganharia, tenho a certeza que o nuno Vasco seria o vencedor e seria conhecido como o papa concursos do mar. Assisti a uma pequena demonstração desse vasto conhecimento quando lhe mostraram uma fotografia feita em mergulho onde surgiam retratadas várias espécies. De imediato o biólogo e investigador de fauna marinha apontou o dedo e vociferou os nomes científicos de mais de dez espécies, assim de rajada, impressionante!

O biólogo marinho falou-me deste fenómeno natural e de adaptação ao meio que tanto me apaixona durante o mergulho, a camuflagem:

"Na verdade existem dois tipos de comportamento desta natureza, o mimetismo e a camuflagem. Os princípios não devem ser confundidos. Se no mimetismo a espécie evolui especificamente para se assemelhar com outra espécie mais protetora, imitando a postura do mimetizado, a camuflagem projeta-nos para um mundo ainda mais complexo de proteção e evolução e surge com muito mais frequência na nossa biodiversidade. Os caranguejos e ouriços conseguem enfeitar-se com algas e organismos, usando os artefactos que vão encontrando para assim se confundirem com os fundos que habitam. Os pequenos crustáceos usam a transparência ou adotam a côr do hospedeiro para assim evitarem a predação. No caso dos cefalópodes o processo é distinto e apaixonante para a ciência. Os chocos e os polvos têm ao longo do seu corpo células pigmentadas e microscópicas que produzem cores quimicamente, são os cromatóforos. Esta maquilhagem quimica permite-lhes comunicar entre espécies mas também iludir os predadores pois conseguem assumir cores, padrões e as texturas do substrato envolvente."

Ao mesmo tempo que é uma defesa pode também ser uma forma de ataque. Que o digam as lulas que por viverem na coluna de água, usam esta maquilhagem quimica para se comunicarem e quando se sentem ameaçadas expelem um jato de tinta e propulsionam a sua fuga de forma explosiva. Também o peixe escorpião usa a sua cor e pretuberâncias naturais para se confundir com o cenário envolvente. Ficar imóvel é uma das características que mais ajuda ao disfarce com o meio. Os peixes que vivem na areia, os linguados e solhas ou o peixe achatado entre tantos outros, preferem enterrar-se no substrato e passar completamente despercebidos adotando uma outra forma de camuflagem coadjuvados pela sua forma física que naturalmente já contribui bastante para o disfarce.

Não é medo de acabarem grelhados e serem repasto apetecível numa esplanada no verão, é apenas vontade em sobreviver neste mundo aquático de guerra e paz onde nem sempre os mais fortes vencem mas, certamente os mais inteligentes sobrevivem.