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Aventura Creoula [13]: O que esconde a areia da praia?

Aventura Creoula: 20 dias no mar

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"Ver com os meus próprios olhos que são tantas e tão diversas famílias de seres, só me eleva o respeito por este aquário gigante que é o nosso oceano", confessa o fotojornalista Paulo Maria, que integra a campanha M@rBis 2013. LEIA A CRÓNICA E VEJA AS FOTOS

A bordo do Creoula decorrem as triagens, onde todos os olhos de lince são poucos para encontrar e separar vida, dos sedimentos
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A bordo do Creoula decorrem as triagens, onde todos os olhos de lince são poucos para encontrar e separar vida, dos sedimentos

Só com muita experiência e um olhar bem treinado se consegue triar a vida existente nos sedimentos
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Só com muita experiência e um olhar bem treinado se consegue triar a vida existente nos sedimentos

Durante a triagem a bióloga Monica Albuquerque e a equipa de biólogos separam minuciosamente toda a vida que se esconde numa amostra de areia
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Durante a triagem a bióloga Monica Albuquerque e a equipa de biólogos separam minuciosamente toda a vida que se esconde numa amostra de areia

Podem parecer grãos de areia ao comum dos mortais mas na linguagem dos biólogos são gastrópodes e poliquetas e possuem vida própria
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Podem parecer grãos de areia ao comum dos mortais mas na linguagem dos biólogos são gastrópodes e poliquetas e possuem vida própria

Momento da triagem e identificação das espécies a bordo do Creoula
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Momento da triagem e identificação das espécies a bordo do Creoula

Minúsculos caranguejos são separados para identificação de espécie durante a triagem
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Minúsculos caranguejos são separados para identificação de espécie durante a triagem

Recorrendo a técnicas de iluminação apuradas conseguimos perceber mais facilmente a vida que se esconde na areia
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Recorrendo a técnicas de iluminação apuradas conseguimos perceber mais facilmente a vida que se esconde na areia

A bióloga Mónica Albuquerque procura vida, através da lupa binocular,por entre uma amostra de areia
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A bióloga Mónica Albuquerque procura vida, através da lupa binocular,por entre uma amostra de areia

Também as conchas da família Venus verrucosa, podem adquirir formas que invocam o romantismo em forma de coração
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Também as conchas da família Venus verrucosa, podem adquirir formas que invocam o romantismo em forma de coração

Este pequeno molusco com 1,5mm observa atentamente o mundo cá fora. Jujubinus sp.. É frequente encontrar moluscos deste género associados a algas e esponjas na costa Algarvia
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Este pequeno molusco com 1,5mm observa atentamente o mundo cá fora. Jujubinus sp.. É frequente encontrar moluscos deste género associados a algas e esponjas na costa Algarvia

Micromolusco da família Rissoidae recolhido na sua concha. Com apenas 1,5mm a transparência da concha deixa perceber o animal e os seus olhos
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Micromolusco da família Rissoidae recolhido na sua concha. Com apenas 1,5mm a transparência da concha deixa perceber o animal e os seus olhos

A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes
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A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes

Junto com as amostras de micromoluscos é frequente encontrarem-se também pequenos foramíniferos cujo tamanho médio ronda 1 mm
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Junto com as amostras de micromoluscos é frequente encontrarem-se também pequenos foramíniferos cujo tamanho médio ronda 1 mm

A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes
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A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes

Pormenor da abertura da concha de um molusco da família Trochidae
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Pormenor da abertura da concha de um molusco da família Trochidae

Em primeiro plano vemos o opérculo, utilizado pelo molusco para fechar a concha, como se de uma porta se tratasse
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Em primeiro plano vemos o opérculo, utilizado pelo molusco para fechar a concha, como se de uma porta se tratasse

A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes
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A areia esconde diversas formas de vida surpreendentes

Alvania sp. Pertence à família Rissoidae. Este exemplar é um adulto e o tamanho não ultrapassa os 2 mm é bastante comum na areia das praias do algarve
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Alvania sp. Pertence à família Rissoidae. Este exemplar é um adulto e o tamanho não ultrapassa os 2 mm é bastante comum na areia das praias do algarve

A profusão de cores e a forma cónica de um gastrópode facilmente detetável na areia. Esta espécie do género Calliostoma mede cerca de 2mm
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A profusão de cores e a forma cónica de um gastrópode facilmente detetável na areia. Esta espécie do género Calliostoma mede cerca de 2mm

Uma moeda de dois cêntimos serve de referência ao tamanho dos pequenos gastrópodes que se encontram na areia da praia
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Uma moeda de dois cêntimos serve de referência ao tamanho dos pequenos gastrópodes que se encontram na areia da praia

Na areia também se escondem e vivem poliquetas como esta
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Na areia também se escondem e vivem poliquetas como esta

Este minúsculo caranguejo com menos de um milímetro passaria despercebido não fossem os dois pontos negros dos seus olhos a denunciá-lo
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Este minúsculo caranguejo com menos de um milímetro passaria despercebido não fossem os dois pontos negros dos seus olhos a denunciá-lo

No sedimento podemos encontrar esqueletos e restos ou partes de conchas de gastrópodes
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No sedimento podemos encontrar esqueletos e restos ou partes de conchas de gastrópodes

Exemplar da família Caprellidae. São os Louva a Deus do mar
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Exemplar da família Caprellidae. São os Louva a Deus do mar

No mar também há aranhas! São de pequenas dimensões e pertencem à classe Pycnogonida, este exemplar mede 2mm de diâmetro
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No mar também há aranhas! São de pequenas dimensões e pertencem à classe Pycnogonida, este exemplar mede 2mm de diâmetro

Á lupa encontramos ainda placas de organismos coloniais, como sejam os Briozoários. Na imagem vemos uma colónia em que cada compartimento é um organismo. São animais
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Á lupa encontramos ainda placas de organismos coloniais, como sejam os Briozoários. Na imagem vemos uma colónia em que cada compartimento é um organismo. São animais

Á lupa podem observar-se pormenores indescritivelmente belos, como seja a madrepérola da concha de Haliotis tuberculata
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Á lupa podem observar-se pormenores indescritivelmente belos, como seja a madrepérola da concha de Haliotis tuberculata

Poderia ser um velho disco de vinil contendo músicas de outrora, é apenas a textura da concha de um mexilhão
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Poderia ser um velho disco de vinil contendo músicas de outrora, é apenas a textura da concha de um mexilhão

Conheço o José Pedro Borges há vinte anos. A nossa ligação prende-se com outro mundo, o dos Ralis. Trabalhamos em conjunto na organização do Rali de Portugal mas sempre que estamos juntos, monopolizamos os temas de conversa e desviamos as atenções da audiência para os assuntos do Mar. Entre conversas de mergulhador, espécies e as suas características lá vamos trocando impressões para espanto dos que nos escutam, mais habituados a motores, potências e derrapagens controladas. O José Pedro já foi piloto de ralis, participa regularmente nestas campanhas, é também um renomado malacólogo e possui uma das maiores coleções de conchas do mundo. Este ano não pôde estar presente na campanha, seguiu rumo a um encontro mundial de malacologia que decorreu no norte da Europa, antes de partir, apresentou-me à estrutura de missão e aos responsáveis pelas campanhas M@rBis, entregando-me literalmente aos "bichos".

Pouco tempo depois de ter iniciado a minha participação na campanha M@rBis rumo ao conhecimento da costa algarvia e à biodiversidade do mar que banha o Algarve, mudei radicalmente a minha atitude e forma de abordar o tema Mar.

Por mais que saibamos de forma empírica que o mar encerra infinitos tesouros de vida,  ainda que reconheçamos que o nosso futuro passa por mergulharmos no conhecimento profundo do meio subaquático, ficaremos sempre maravilhados por tanta e tão diversa biodiversidade ainda que estejamos já, envolvidos com a ciência. Também aqui as cadeias, pirâmides ou correntes de vida começam muito antes de poderem ser observadas a olho nu.

No laboratório improvisado a bordo do Navio de Treino de Mar Creoula observamos, através das lupas binoculares as mais ínfimas formas de vida. Confesso que foi para mim a maior descoberta nesta campanha. Perceber que existem espécies microscópicas de vida é cognitivamente aceitável, agora ver com os meus próprios olhos que são tantas e tão diversas famílias de seres, só me eleva o respeito por este aquário gigante que é o nosso oceano.

Salvo honrosas exceções, que para mim, pela engenharia que empregam na sua propulsão os Nautilus são autênticos marinheiros da antiguidade. Confesso que não morro de amores por, perdoem-me os cientistas, caracóis, búzios, amêijoas e berbigões,. No fundo, todos os outros seres que vivem dentro de uma concha, sem grande coragem para enfrentar o mundo cá fora e que se refugiam ainda antes do perigo espreitar. A minha consideração estava prestes a mudar, assim que espreitei pela lupa e pude contemplar algo que me parecia apenas um grão de areia mas que no fundo era um pequeno gastrópode que num gesto lânguido saiu parcialmente da sua "casa" contorcendo-se até se virar para uma posição mais confortável e segura.

Mónica Albuquerque é licenciada em biologia, dentro do estudo da biodiversidade marinha a sua especialização incide no estudo dos moluscos marinhos do mar de Portugal, participando em campanhas anuais desde 2006. Trabalha na EMEPC e assume todo o trabalho de coordenação logística e avaliação dos projetos dos participantes nesta missão. Pelo seu papel ativo de maestrina nesta "orquestra do mar" passámos a tratá-la como: Almirante Albuquerque. Por entre teses de licenciatura, estudos e publicação de livros, conquistou um conhecimento profundo em particular, sobre os moluscos marinhos das Ilhas Selvagens e dos montes submarinos Gorringe: a meio caminho entre Cabo de São Vicente e Madeira. Ponto onde teve origem o sismo de 1755.

"Todos os anos nas várias campanhas realizadas e sempre que possível colaboro identificando a bordo as espécies coletadas, em conjunto com o José Pedro Borges, que este ano não pode participar. Quando não é possível, a bordo, porque a triagem tem de ser minuciosa essa separação e identificação é realizada nos laboratórios da EMEPC durante o resto do ano. Temos ainda uma rede de investigadores com os quais colaboramos, para os moluscos não é excepção. Estou neste momento a colaborar numa publicação com a descrição de novas espécies para a ciência. Novos moluscos marinhos recolhidos em 2010 nas Ilhas Selvagens durante uma campanha M@rBis. Pertenço à direção do Instituto Português de Malacologia que se dedica ao estudo dos moluscos. Em relação ao Algarve posso adiantar que a zona da ria Formosa é muito rica. Mas em toda a costa algarvia existem praias mais protegidas com afloramentos rochosos e que por isso concentram muita vida."

Mónica estava com os olhos colados à lupa há já vinte minutos a observar uma amostra de...areia!. Ao mesmo tempo ia separando com precisão e destreza, com a ajuda de uma pinça, vários grãos de cores diferentes. Confesso que estranhei o facto, pensei nesse momentos que também a ciência teria razões que a própria razão desconhece. Senti-me tentado a interrompê-la a fim de desvendar o mistério. Quase que me ordenou que olhasse através da lupa para acreditar pelos meus próprios olhos que não eram grãos mas sim várias espécies de minúsculos, para mim, búzios e caracóis de várias cores e formas, todos eles estavam vivos e movimentavam-se vagarosamente. Mais uma descoberta para o meu universo de ciência, a areia da praia esconde vida, muita vida!

"Não nos apercebemos facilmente mas a verdade é que ela está lá. Basta que se faça uma recolha na zona de areia à beira mar e facilmente encontramos pequenos búzios (moluscos) ou pequenos vermes (poliquetas). Na zona seca da areia, se procurarmos bem ainda encontramos pequenas conchas vazias de pequenos búzios. Nas zonas rochosas junto à beira mar podemos também encontrar centenas de pequenos moluscos em tufos de algas nas poças de maré. Alguns destes pequenos moluscos têm apenas 2 a 3 milímetros mas isso só faz com que seja ainda mais entusiasmante procurá-los! É como procurar uma agulha num palheiro. No meu caso, já tenho a vista treinada pelo que, quando recolhemos durante o mergulho algum tufo de algas já sei que se o agitarmos bem dentro de um tabuleiro com água salgada eles vão soltar-se e povoar o nosso tabuleiro com as suas pequenas e coloridas conchas.

As espécies mais frequentes de encontrar misturadas entre os grãos de areia da praia são as espécies dos géneros Bittium, Chauvetia ou Nassarius. Já à beira mar temos centenas de espécies diferentes, principalmente de Bivalves. As cores das conchas são todas em tons de castanho. Espécies do género Bittium e Chauvetia são muito parecidas, geralmente não tendo um tamanho superior a 1 cm. Se as observarmos com uma pequena lupa vemos a sua superfície esculpida, com pequenas costelas, pontos e linhas, como se de uma escultura se tratasse. A concha é produzida pelo molusco que se encontra no seu interior. Dentro do mesmo género, existem espécies cujas conchas são praticamente iguais, só sendo possível a sua distinção, observando o animal ainda vivo no interior da concha. Essa é a razão pela qual os observamos à lupa durante as nossas expedições.

As espécies do género Nassarius são várias e podem atingir uma dimensão maior. São em conchas deste género que é frequente vermos crustáceos alojados. São os ermitas, ou casa-alugada. São artrópodes que vão acomodando o seu corpo geralmente no interior de conchas de moluscos desocupadas. Conforme vão crescendo vão procurando "casas" maiores e assim vão mudando de concha em concha. As espécies do género Nassarius são de tonalidades amarelo, castanho, branco." Esclarece-me de forma convincente a nossa Almirante Albuquerque.

Seria interessante para os pais que passam várias horas na praia em brincadeiras com os filhos junto à água se criassem desafios sobre este tema. Sobretudo quando as bolas e as raquetes ou os baldes e as pás já não cativam os mais pequenos, Mas como poderíamos triar a biodiversidade existente numa amostra de areia ou que jogos poderemos criar com as crianças para as entusiasmar no conhecimento da biodiversidade marinha? Ninguém melhor do que a bióloga Mónica Albuquerque para nos ajudar:

"existe muita vida entre os grãos de areia. É o que os biólogos chamam a "Meiofauna". Fazer uma amostragem para separar estes organismos não é muito difícil. Basta recolher areia dentro de água (por exemplo empurrando um balde de praia contra o sedimento), e ter à mão um pacote de açúcar e um passador! Depois de termos recolhido ½ balde de sedimento juntamos água do mar à qual juntamos açúcar. Depois de remexer a areia dentro do balde com a água e açúcar, a diferença de densidades faz com que os pequenos organismos se soltem e venham ao de cima. Depois é só recolhê-los com um passador e podem observar-se as suas características distintivas com uma pequena lupa.

Pais e filhos podem fazer vários jogos didáticos relacionados com o conhecimento marinho. Com a ajuda de um guia de campo é fácil interessar os mais novos e fornecer-lhes pistas para um respeito maior sobre o mar: Recolher as conchas que encontrarmos à beira mar ou na areia e tentar identificar as espécies usando um guia. Observar as algas à beira mar, elas não fazem mal! Tentar identificar as espécies. Procurar animais vivos que estejam fora de água e devolvê-los ao mar! Ou então usar máscara de mergulho e procurar peixes sobretudo aqueles que vivem na areia!

Existem ainda outras actividades: A EMEPC e a Science4You editaram no ano passado um Quiz do Mar (nível I e II) e que melhor sitio para ficar a conhecer o nosso mar do que a praia! Depois destas descobertas, os mais pequenos questionar-se-ão se poderão continuar a pisar a areia. Na areia seca os organismos já estão mortos e a areia molhada quando a pisamos esta  molda-se ao nosso pé, como tal não lhes causamos quaisquer danos, ainda que nos sintamos Gulliver em terra de Liliputs".

Mil e um poemas e alusões invocam a areia da praia. Ciência e poesia podem e devem cruzar-se, fundindo os seus mundos. Se na canção: ...o mar bate na areia e desmaia porque se sente feliz, é porque é certamente uma verdade inquestionável que vive sobre os nossos pés, basta querer vê-la!

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