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Aventura Creoula [11]: Lesmas do mar, seres de outro mundo

Aventura Creoula: 20 dias no mar

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Prossegue a viagem do fotojornalista Paulo Maria, que, desta vez, nos conduz ao fundo do mar ao encontro de algumas das suas bizarras formas de vida. VEJA AS FOTOS E O VÍDEO

Lesma do mar (Felimare villafranca) durante a cópula
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Lesma do mar (Felimare villafranca) durante a cópula

Felimare picta, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve
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Felimare picta, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve

Felimare bilineata, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no Algarve
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Felimare bilineata, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no Algarve

Felimare villafranca, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve. Cuidando da sua postura
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Felimare villafranca, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve. Cuidando da sua postura

Felimare tricolor, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve
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Felimare tricolor, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve

Felimare cantabrica, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no Algarve
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Felimare cantabrica, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no Algarve

roboastra europaea, este nudibrânquio com apenas 3cm explora uma esponja amarela
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roboastra europaea, este nudibrânquio com apenas 3cm explora uma esponja amarela

Felimare tricolor, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve
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Felimare tricolor, alimenta-se de esponjas. Os azuis e amarelos são os elementos coloridos e diferenciadores desta família, há seis espécies no algarve

Peltodoris atromaculata, espécie típica do mediterraneo, aparecendo tb nos açores e madeira. Das poucas com nome comum: vaquinha suiça
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Peltodoris atromaculata, espécie típica do mediterraneo, aparecendo tb nos açores e madeira. Das poucas com nome comum: vaquinha suiça

Felimida purpúrea
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Felimida purpúrea

um pequeno doto mimetiza-se com um hidrozoário passando despercebido, mede cerca de 1mm
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um pequeno doto mimetiza-se com um hidrozoário passando despercebido, mede cerca de 1mm

Dondice banyulensis, assumindo uma forma quase alienígena
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Dondice banyulensis, assumindo uma forma quase alienígena

Dondice banyulensis, as suas ceratas assemelham-se a chamas
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Dondice banyulensis, as suas ceratas assemelham-se a chamas

Dondice banyulensis, as suas ceratas assemelham-se a chamas
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Dondice banyulensis, as suas ceratas assemelham-se a chamas

Doriopsilla areolata ,uma das espécies mais comuns no litoral continental português. Produz a sua própria defesa química. Come esponjas tipo “batido” isto é, segrega enzimas que dissolvem exteriormente o conteúdo da esponja e depois suga-o, sem consumir as espículas siliciosas da esponja
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Doriopsilla areolata ,uma das espécies mais comuns no litoral continental português. Produz a sua própria defesa química. Come esponjas tipo “batido” isto é, segrega enzimas que dissolvem exteriormente o conteúdo da esponja e depois suga-o, sem consumir as espículas siliciosas da esponja

Da família das lesmas do mar as flabelinas são ainda mais exuberântes na explosão de côr que ostentam. Flabellina ischitana
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Da família das lesmas do mar as flabelinas são ainda mais exuberântes na explosão de côr que ostentam. Flabellina ischitana

Janolus cristatus, dada a transparência do seu corpo torna-se dificil detetá-la sem luz artificial
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Janolus cristatus, dada a transparência do seu corpo torna-se dificil detetá-la sem luz artificial

Da família das lesmas do mar as flabelinas são ainda mais exuberântes na explosão de côr que ostentam. Promenor das ceratas de uma Flabellina ischitana
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Da família das lesmas do mar as flabelinas são ainda mais exuberântes na explosão de côr que ostentam. Promenor das ceratas de uma Flabellina ischitana

Tritonia nilsodhneri , um pequeno nudibrânquio que vive toda a vida adulta sobre as gorgónias de que se alimenta e com as quias e é extremamente mimético
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Tritonia nilsodhneri , um pequeno nudibrânquio que vive toda a vida adulta sobre as gorgónias de que se alimenta e com as quias e é extremamente mimético

Crimora papillata esta espécie pode crescer até atingir os 30mm
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Crimora papillata esta espécie pode crescer até atingir os 30mm

Flabellina sp, mede apenas 5 milímetros
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Flabellina sp, mede apenas 5 milímetros

Os rinóforos de uma Flabellina babai
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Os rinóforos de uma Flabellina babai

As ceratas de uma Flabellina babai
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As ceratas de uma Flabellina babai

Lesma do mar (Flabellina babai), com cerca de 2 cm, na ponta do Atalaia
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Lesma do mar (Flabellina babai), com cerca de 2 cm, na ponta do Atalaia

Platydoris argo, um dos maiores nudibrânquios da costa portuguesa. Alimenta-se de esponjas
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Platydoris argo, um dos maiores nudibrânquios da costa portuguesa. Alimenta-se de esponjas

Aplysia punctata
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Aplysia punctata

Elysia viridis Lesma do mar movida a energia solar. Guarda por algum tempo os cloroplastos, as fábricas de matéria orgânica das células das algas que come e faz fotossíntese
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Elysia viridis Lesma do mar movida a energia solar. Guarda por algum tempo os cloroplastos, as fábricas de matéria orgânica das células das algas que come e faz fotossíntese

Aglaja tricolorata, vive geralmente em fundos arenosos ou lodosos
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Aglaja tricolorata, vive geralmente em fundos arenosos ou lodosos

Doriopsilla areolata ,uma das espécies mais comuns no litoral continental português. Produz a sua própria defesa química. Come esponjas tipo “batido” isto é, segrega enzimas que dissolvem exteriormente o conteúdo da esponja e depois suga-o, sem consumir as espículas siliciosas da esponja
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Doriopsilla areolata ,uma das espécies mais comuns no litoral continental português. Produz a sua própria defesa química. Come esponjas tipo “batido” isto é, segrega enzimas que dissolvem exteriormente o conteúdo da esponja e depois suga-o, sem consumir as espículas siliciosas da esponja

Encontro entre dois nudibrânquios Trapania tartanella
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Encontro entre dois nudibrânquios Trapania tartanella

Felimida purpúrea passeia-se em busca de comida
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Felimida purpúrea passeia-se em busca de comida

Planária, Yungia aurantiaca, os pontos brancos do seu corpo mais parecem um céu estrelado
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Planária, Yungia aurantiaca, os pontos brancos do seu corpo mais parecem um céu estrelado

Algarvia alba, foram recolhidos apenas dois exemplares desta espécie em 1989, permanece um mito marinho e a primeira fotografia de um exemplar vivo merecerá um prémio da Subnauta
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Algarvia alba, foram recolhidos apenas dois exemplares desta espécie em 1989, permanece um mito marinho e a primeira fotografia de um exemplar vivo merecerá um prémio da Subnauta

A indústria cinematográfica, sempre se apoiou nas mais bizarras formas da natureza para reproduzir no grande ecrã, criaturas alienígenas. Estranhas formas de vida que atormentam atores e inquietam plateias. Esta ponte entre o mundo do fantástico e a biodiversidade marinha vai apaixonando dentro e fora de água aqueles que tem uma sede imensa de conhecimento, sobretudo por haver ainda tanto por fantasiar e descobrir.

Gonçalo Calado é reconhecido internacionalmente como um dos maiores especialistas no conhecimento de lesmas do mar. À primeira vista será difícil percebermos como pode alguém dedicar uma vida ao estudo destas minúsculas criaturas, os opistobrânquios, vulgo lesmas. A designação por si só, já provoca alguma relutância ao contacto próximo, ainda assim quis perceber  as razões de tanta paixão por estes seres que mais parecem de outro mundo. 

Vulgarmente conhecidas como nudibrânquios, as pequenas lesmas encerram lacunas no seu conhecimento profundo, pelo facto de não possuírem concha, toda a sua observação e estudo só podem ser feitos durante a sua vida e no seu habitat. São excelentes modelos ecológicos, possuem características evolutivas únicas de onde se destaca a defesa química.

Como pode uma criatura aparentemente tão frágil estar no topo da pirâmide do ecossistema? A resposta é-nos dada pela própria magia da sua natureza. Desprovidos de concha, naturalmente ficariam vulneráveis à predação, recorrem contudo a uma característica designada como aposematismo. A coloração viva que apresentam, indicia toxicidade, tornando-se pouco ou nada apetecíveis para os seus predadores. Tal como acontece na América central com as garridas rãs venenosas, também as lesmas do mar carregam em si um alerta permanente. Diria que dão e querem dar nas vistas pelos piores motivos. Caso para dizer: Se não os posso vencer, impressiono-os com o que visto! Um destes exemplares , a Babakina anadori remete-me para os caretos de podence. Esta tão remota tradição lusitana cruza-se no meu imaginário comparativo, em termos de explosão de côr com um pequeno e surpreendente molusco. Serão já muitos dias no mar? 

Falar de nudibrânquios é despertar para um mundo de cores vivas, movimentos lentos e tamanhos diminutos. É deveras apaixonante para quem mergulha, poder encontrar um exemplar, na imensidão do oceano. As cores saltam à vista, a lenta atitude de vida refletida na sua locomoção e os seus encontros deliciam-nos. Reconhecem-se entre iguais pela química, e adotam uma postura sexual verdadeiramente revolucionária: São hermafroditas. Durante o ato, fecundam-se mutuamente em posição 69, permitindo uma união perfeita, como comprovará por uma das fotografias da galeria de imagens desta crónica.

Dentro deste grupo existem aqueles que são ainda mais pequenos, podendo medir pouco mais de um milímetro. São os dotos, miméticos e crípticos, é quase impossível distingui-los por entre a folhagem dos hidrozoários dos quais se alimentam.

De forma geral, os opistobrânquios, assim designados porque as suas brânquias se situam no exterior do corpo e sem proteção, possuem defesas químicas. Acumulam o que comem das esponjas alterando a sua estrutura molecular. Sendo um grupo bastante evoluído em termos químicos conseguem imitar as esponjas carregando a sua toxicidade ou mesmo apropriar-se das mesmas defesas das anémonas numa atitude de cleptodefesa como é o caso da Flabellina affinis. Algumas espécies, por não conseguirem fugir de predadores, segregam ácido sulfúrico para se protegerem. Assustador!

Outra das prodigiosas espécies é a Elysia viridis, consome algas e absorve-as na sua pele provocando fotosíntese, podem viver sem comer durante oito meses bastando a luz solar para continuar a processar energia. Notável! 

Gonçalo Calado dedicou-se durante 4 anos ao estudo de uma espécie, a Calma gobioophaga, um nudibrânquio que mede apenas 1 centímetro e que se alimenta exclusivamente de ovos de góbios. Partilha o seu conhecimento nesta matéria num livro sobre as lesmas do mar. Uma autêntica bíblia produzida em parceria com a Subnauta, onde se apresentam as espécies bem como as suas características específicas, profusamente ilustrado com fotografias. Este guia tem duas características técnicas distintas e inovadoras, é impresso num material impermeável bem como poderemos acrescentar páginas/fichas à medida que mais espécies forem sendo documentadas.

A zona de Sagres congrega o segundo maior núcleo de vida  e biodiversidade da Europa para os opistobrânquios, o primeiro é a zona do estreito de Gibraltar. No ponto mais ocidental a sul de Portugal poderemos encontrar cerca de 150 espécies diferentes, provando que só mesmo as boas ideias em termos evolutivos e genéticos podem subsistir na natureza. Fotografá-los por si só requer muito poder de observação e sobretudo conhecimento dos seus habitats mas sobretudo uma paciência de santo.

Um verdadeiro mito marinho é a espécie Algarvia alba, trata-se de um nudibrânquio que mede apenas 5 milímetros. Apenas dois exemplares foram recolhidos em 1989 na zona de sagres e estão conservados no museu de paris. Como não há registos fotográficos da espécie no seu habitat, a Subnauta oferece mil euros a quem o fotografar. Um justo e merecido prémio para quem tiver olho de lince nas águas do Algarve.