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"A sustentabilidade é um imperativo de negócio"

Cidades e Consumo

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Peter Bakker, presidente do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável

O presidente da WBCSD, a maior associação mundial de empresas ligadas ao desenvolvimento sustentável, está em Portugal para participar na conferência anual da organização

Salvar o mundo é bom para a economia?

Sim. O meio empresarial reconhece que, a longo prazo, agir de forma sustentável tem um efeito positivo nos resultados operacionais. Os negócios dependem e causam impacto no ambiente natural em que operam. Analisar e avaliar esses impactos pode ajudar a gerir riscos, a ponderar novas oportunidades de negócio e a tomar melhores decisões.



As crises financeiras e económicas são habitualmente vistas como obstáculos ao desenvolvimento sustentável. Mas não é essa a sua opinião...

Curiosamente, uma das lições mais importantes da crise é que a sustentabilidade é um imperativo de negócio e que há benefícios significativos nas práticas de desenvolvimento sustentável: frugalidade, eficiência e confiança. Estes são os novos pilares da sustentabilidade para as empresas, porque ajudam a fazer e a poupar dinheiro.



Em Portugal, a crise provocou um retrocesso na sustentabilidade, com vários programas de energia e transportes "limpos" a desaparecerem, sobretudo devido ao corte de apoios por parte do Governo. É este um passo errado, em tempos de crise?

Do meu ponto de vista, é um passo errado. Quando as iniciativas sustentáveis são travadas, o ímpeto perde-se e, depois, tornase muito mais difícil recomeçar, quando volta a haver dinheiro. Mas estamos num momento de viragem. A questão já não é entre prosseguir ou não iniciativas sustentáveis, mas sim como conseguir levá-las a um nível superior. Se não agirmos agora, o planeta e o nosso modo de vida irão sofrer consequências graves.



Podem as empresas continuar a investir nesta área sem o apoio do Estado, sabendo-se que as tecnologias emergentes são muito caras e levam anos a tornar-se competitivas?

Não conseguiremos atingir as nossas metas se não colaborarmos em todas as frentes: Governo, sociedade e mundo empresarial. É importante que o Governo use a sua influência para ajudar as empresas nos seus esforços de sustentabilidade, começando, por exemplo, por criar legislação que enquadre os negócios na sustentabilidade. Do mesmo modo, os governos deviam reconhecer e recompensar as empresas líderes nesta área.



O WBCSD tenta passar a mensagem de que o empresarial e o sustentável jogam na mesma equipa. Tem conseguido?

Julgo que sim. Nós levantámos a consciência da sustentabilidade de tal forma que, em vez de ser visto apenas como algo bom de ter, se tornou parte integrante das operações das empresas. Do que precisamos agora é de acelerar, ampliar e aumentar o som. Estamos num momento crítico e precisamos de que aconteça já uma mudança em larga escala, se quisermos seguir o rumo para um planeta sustentável.



Quem é mais difícil de convencer de que negócio e sustentabilidade podem e devem andar de mãos dadas: as organizações ambientalistas ou as próprias empresas?

Estamos todos de acordo em que os negócios e a sustentabilidade caminham de mãos dadas. No entanto, os encontros com representantes de governos, organizações não-governamentais, organizações científicas e os meus colegas de negócios confirmaram-me que nem todos falam a mesma língua, mesmo quando, em traços gerais, concordamos no rumo a seguir. O problema é que não agimos com o mesmo nível de urgência.



Tendo em conta o falhanço dos governos, particularmente durante as últimas conferências da ONU para as alterações climáticas, acredita que o destino do planeta já saiu do âmbito da política e ficou nas mãos da sociedade, com cada cidadão e empresário a fazer a sua parte?

Só podemos atingir os nossos objetivos se todos os grupos trabalharem juntos. As empresas não podem ser bem-sucedidas se os governos não fornecerem legislação que lhes permitam operar de forma sustentável. E a sociedade civil tem de mudar a maneira como se comporta, de forma a tornar a vida sustentável a norma e não a exceção.



Que expectativas tinha quando seguiu para a cimeira Rio+20, no Rio de Janeiro [conferência de desenvolvimento sustentável da ONU]?

Expectativas positivas. Quando se leva em conta que 50 mil pessoas estão reunidas para discutir o desenvolvimento sustentável do nosso planeta e da economia, alguma coisa teria de sair dali. Através da liderança de Ban Ki Moon e do Governo brasileiro, 193 governos foram finalmente capazes de chegar a acordo sobre uma declaração conjunta.



O discurso oficial que saiu do Rio foi, no mínimo, extremamente otimista, louvando o que parece não passar de um sucesso imaginário. Quais foram os resultados efetivos?

Bem, pelo menos saiu do Rio um acordo. Devemos estar contentes por isso. O texto final confirma que o mundo ainda tem espaço para procurar soluções comuns. Sem isso, teria sido muito difícil fazer passar para o público em geral a mensagem de que a sustentabilidade é urgente e de que precisamos de mudar de paradigmas.



O Protocolo de Quioto morreu sem um acordo vinculativo para o substituir e dificilmente surgirá outro a tempo de evitar que temperatura suba mais de 2º C [o limite considerado suportável]. É demasiado tarde para o planeta?

O que realmente me preocupa é a realidade de que o limite de 2º C vai ser provavelmente ultrapassado e atingir um aumento bem mais grave de 5 º C. Passamos demasiado tempo a falar sobre o assunto, mas precisamos é de agir. É por isso que o WBCSD está focado em ampliar e acelerar as iniciativas empresariais [de desenvolvimento sustentável].



Tornou-se comum o uso do meio ambiente como arma de marketing. Como pode o público distinguir uma real preocupação com a sustentabilidade do greenwashing [literalmente, "lavagem verde"]?

As empresas que integram a sustentabilidade nas suas operações estão a ir na direção certa, e isso merece crédito. Já não basta pagar ações de fachada; as iniciativas têm de ser levadas a cabo a grande escala. Quando isto começar mesmo a acontecer, o público vai aperceber-se da diferença.



Acontece os associados do WBCSD serem acusados de greenwashing? Como provam o contrário?

Para integrarem o WBCSD, as empresas têm de aderir a determinados padrões, publicando, por exemplo, relatórios anuais de sustentabilidade. O WBCSD é único no sentido em que trabalhamos diretamente com os associados nas ferramentas e iniciativas das nossas publicações. Isso significa que essas ferramentas são reais, amplamente testadas e funcionam. Portanto, ao ser membro do WBCSD, a empresa demonstra o seu compromisso ativo com a sustentabilidade.

 

B.I. - AMBIENTALISTA DE NEGÓCIOS

Holandês, é o presidente do WBCSD, sigla em inglês para Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável.  A associação, criada em 1995 por um suíço, reúne 200 das maiores empresas do mundo juntas, têm receitas de sete biliões (milhões de milhões) de dólares,e várias delegações nacionais, incluindo em Portugal. Foi nomeado Embaixador Contra a Fome, do Programa Alimentar Mundial da ONU