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A infindável 'polémica OGM'

Alimentação, Agricultura e Pesca

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AP/Charlie Neibergall

Um estudo científico que relaciona o milho transgénico com o aparecimento de cancro despertou mais dúvidas do que certezas

"O método científico é o pior dos sistemas com exceção de todos os outros." Proferida a propósito da democracia, por Winston Churchill, a frase pode ser adaptada ao protocolo que rege a atividade científica e que se baseia em seis passos: formular uma pergunta; fazer investigação; construir uma hipótese; testar a hipótese, através de uma experiência; analisar os dados e comunicar os resultados.

Apesar de rigoroso, não é infalível. A última polémica envolve milho transgénico, opositores ao seu cultivo e uma experiência que relaciona o seu consumo com a incidência de cancro. Há dias, Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, em França, apresentou um estudo segundo o qual ratos alimentados com milho geneticamente modificado para resistir a um herbicida tinham mais e maiores tumores mamários do que aqueles que ingeriam milho normal.

Jornais e revistas de todo o mundo fizeram capa com imagens dos ratos, deformados por bolas enormes.

Os opositores do cultivo de organismos geneticamente modificados, vulgo OGM, aproveitaram o novo argumento para voltar a exigir a proibição destes alimentos introduzidos, em Portugal, em 2005. Mas as críticas ao artigo de Séralini, publicado na revista científica Food and Chemical Toxicology, também não demoraram a aparecer.

A revista Newscientist, por exemplo, elencou uma série de razões que acabam com a razão de Séralini, assumido ativista anti-OGM: os ratos usados pela sua equipa têm tendência para desenvolver tumores mamários; foram omitidos os dados relativos ao número de cancros no grupo de controlo apenas 20, para 80 ratos de teste. As ferramentas estatísticas utilizadas também foram criticadas, bem como o facto de Séralini e a sua equipa terem impedido que jornalistas submetessem o artigo à apreciação de outros investigadores.

"Já é a sétima história-bomba que sai", contabiliza José Feijó, investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência e especialista em Biologia Vegetal. "As outras não sobreviveram muito tempo, algumas nem um mês, e quer-me parecer que não vai ser esta a fazer a diferença." Nos EUA, 94% da soja e 72% do milho são de origem transgénica. Até agora, não há qualquer registo de aumento de doenças em pessoas ou animais que os consomem.

O DADO: 7 723,6 hectares ocupados com o cultivo do milho transgénico em Portugal

 

Uma polémica com muitas histórias:

 

1 - O 'caso Pusztai'

Arpad Pusztai, bioquímico húngaro, protagonizou uma das situações mais conhecidas de fraude científica relacionada com os OGM. Investigador no Instituto Rowett, na Escócia, anunciou, em 1998, que ratos alimentados a batatas transgénicas sofriam danos no intestino e no sistema imunitário. Cientistas do mesmo Instituto Rowett repetiram a experiência e concluíram que os dados não corroboravam a teoria de Pusztai, que seria despedido.



2 - Borboleta 'mártir'

De tempos a tempos surge um novo estudo que relaciona a diminuição da população de borboletas monarca, nos EUA, com as plantações de milho transgénico. Em especial, a exposição da lagarta monarca ao pólen de milho modificado. Todas essas pesquisas têm sido sucessivamente desacreditadas pelo Departamento de Agricultura norte-americano, que criou uma página no seu site dedicada ao assunto.



3 - Insistente Séralini

Já em 2007, o cientista francês Gilles-Eric Séralini publicou um estudo em que avaliava o impacto de milho geneticamente modificado em ratos, concluindo que aumentava o número de doenças. A Autoridade Europeia da Segurança Alimentar refutou tais resultados.