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Reportagem: A minha cidade é uma aldeia

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Com a melhoria das estradas, muita gente trocou Lisboa ou os subúrbios por por concelhos como Alcochete, Palmela ou Mafra, em busca de um estilo de vida calmo e saudável. LEIA O ARTIGO NA ÍNTEGRA, VEJA O VÍDEO, AS FOTOS E A INFOGRAFIA

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CASA DE SONHO - Apesar de serem uma família de classe média, os Castel-Branco conseguiram comprar uma vivenda com piscina, inserida num condomínio privado – para isso, só se tiveram de afastar 40 quilómetros do centro de Lisboa
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CASA DE SONHO - Apesar de serem uma família de classe média, os Castel-Branco conseguiram comprar uma vivenda com piscina, inserida num condomínio privado – para isso, só se tiveram de afastar 40 quilómetros do centro de Lisboa

DEPENDENTES DO CARRO - O maior problema de viver longe da cidade é a ausência de transportes públicos fiáveis, diz Pedro Castel-Branco. Para se deslocar, a família é obrigada a usar exclusivamente o automóvel
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DEPENDENTES DO CARRO - O maior problema de viver longe da cidade é a ausência de transportes públicos fiáveis, diz Pedro Castel-Branco. Para se deslocar, a família é obrigada a usar exclusivamente o automóvel

MUDAM AS REGRAS - Quando os Castel-Branco se mudaram, o gasóleo custava 70 cêntimos o litro; entretanto, o combustível aumentou para o dobro, fazendo disparar os gastos de Cristina, que percorre cerca de cem quilómetros por dia
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MUDAM AS REGRAS - Quando os Castel-Branco se mudaram, o gasóleo custava 70 cêntimos o litro; entretanto, o combustível aumentou para o dobro, fazendo disparar os gastos de Cristina, que percorre cerca de cem quilómetros por dia

JOÃO JOANAZ DE MELO - O ambientalista critica a forma desordenada como a Área Metropolitana de Lisboa cresceu, ao mesmo tempo que se esvaziou o centro da cidade: «O custo das infraestruturas é muitíssimo maior do que numa cidade mais compacta», garante
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JOÃO JOANAZ DE MELO - O ambientalista critica a forma desordenada como a Área Metropolitana de Lisboa cresceu, ao mesmo tempo que se esvaziou o centro da cidade: «O custo das infraestruturas é muitíssimo maior do que numa cidade mais compacta», garante

EM BUSCA DE UM MUNDO SAUDÁVEL - Manuel e Maria Serrão mudaram-se para uma vivenda na outra margem do rio, à procura de um local mais calmo e seguro para os seus dois filhos crescerem
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EM BUSCA DE UM MUNDO SAUDÁVEL - Manuel e Maria Serrão mudaram-se para uma vivenda na outra margem do rio, à procura de um local mais calmo e seguro para os seus dois filhos crescerem

VIDA DE ALDEIA - «As pessoas são simpáticas e toda a gente nos cumprimenta na rua», comenta Maria Serrão
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VIDA DE ALDEIA - «As pessoas são simpáticas e toda a gente nos cumprimenta na rua», comenta Maria Serrão

SALTO POPULACIONAL - Numa década, o concelho de Alcochete viu a sua população crescer 35%; a freguesia de São Francisco, para onde a família Serrão se mudou, quase dobrou o seu número de habitantes
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SALTO POPULACIONAL - Numa década, o concelho de Alcochete viu a sua população crescer 35%; a freguesia de São Francisco, para onde a família Serrão se mudou, quase dobrou o seu número de habitantes

«As periferias perderam o caráter apenas residencial e tornaram-se mais atraentes para se viver», explica a socióloga Teresa Costa Pinto
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«As periferias perderam o caráter apenas residencial e tornaram-se mais atraentes para se viver», explica a socióloga Teresa Costa Pinto

Há oito anos, Cristina e Pedro Castel-Branco decidiram que precisavam de uma casa maior. Naturalmente, começaram a busca pelas redondezas: visitaram apartamentos em Algés, Carnaxide, Miraflores... Não gostaram do que encontraram apartamentos T4 em prédios de dez andares por 300 mil euros, mas encolheram os ombros. Era o que havia.

Quando já estava resignado a desembolsar uma fortuna por uma casa corriqueira, o casal teve uma ideia: porque não alargar as opções? Afinal, Pedro, de 47 anos, trabalhava por conta própria e Cristina, de 39, era enfermeira num hospital do Parque das Nações. Nada os prendia ao concelho de Oeiras. Uma nova busca levou-os à Quinta do Anjo, em Palmela, e a uma moradia por estrear, com piscina, dois pisos, num condomínio fechado, com as traseiras viradas para um green de golfe, rodeada de pinhais e campo.

Isto por menos 50 mil euros do que os apartamentos que tinham visitado em Algés. O único problema era a distância que separava esta casa de sonho do centro de Lisboa. Mas as autoestradas e a Ponte Vasco da Gama encarregavam-se de transformar aqueles 40 quilómetros em pouco mais de 20 minutos.

As alterações na rotina da família não se ficaram pelos mergulhos na piscina e churrascadas com amigos, ao fim de semana. "Tornámo-nos mais caseiros, menos consumistas, com uma vida mais calma", diz Pedro, sentado no jardim da moradia, enquanto os seus três filhos saltam para a água, numa mal disfarçada tentativa de encharcar o pai. "Quem mais ganhou com a mudança até foram eles", acrescenta, a apontar para os miúdos.

Os Castel-Branco estão entre as 3 511 pessoas que se instalaram na Quinta do Anjo, de 2001 a 2011, ajudando a população da freguesia a crescer 42% numa só década. No total, os três concelhos mais rurais, com as menores densidades populacionais da Área Metropolitana de Lisboa (Alcochete, Palmela e Mafra), ganharam mais de 36 mil novos habitantes, com algumas freguesias a dobrarem os seus residentes. Pessoas que aproveitaram o facto de as estradas terem encurtado as distâncias, como que transformando Lisboa numa aldeia, para viverem nos recantos à volta da cidade.

A periferia já não é o que era

Durante muitos anos, Lisboa perdeu população para os concelhos limítrofes.

Foi, em grande parte, à conta da capital que Amadora, Odivelas, Sintra e Almada se densificaram. Mas esses tempos acabaram. Muitos concelhos da primeira coroa suburbana praticamente estagnaram ou perderam mesmo população na última década. A partir do ano 2000, as pessoas começaram à procura de outros ares. "É uma nova fase da metropolização de Lisboa", explica Teresa Costa Pinto, autora de uma tese de doutoramento sobre migrações na região da capital. "Estamos perante um crescimento de concelhos com especificidades muito próprias bastante mais longe do centro da metrópole, com formas de ocupação do território mais recentes e morfologias urbanas também diferentes, de baixa densidade e com predominância da moradia." A socióloga não quer arriscar demasiado na análise aos números dos Censos, mas avança, a partir de outros inquéritos, que estes novos rurais deverão ser gente com características muito próprias e distintas de quem opta por viver no centro da cidade. "Valorizam um modo de vida mais centrado na casa, mais familiar, sentem necessidade de um espaço confortável e amplo, e querem distanciar-se de Lisboa, que é conotada com confusão, trânsito e stresse. São, provavelmente, casais com filhos, porventura com mais do que um, e uma carreira estabilizada." Por outro lado, de acordo com os mesmos estudos, os urbanos indefetíveis preferem sacrificar o tamanho da casa pela centralidade, pela proximidade da oferta cultural e por tudo o que está implícito num estilo de vida citadino. E têm uma imagem bastante negativa do modus vivendi suburbano: os concelhos que rodeiam a capital continuam a ser vistos por muitos lisboetas como dormitórios sem identidade própria. Mas a realidade já não é bem assim.

"Houve uma transformação profunda das periferias, que se converteram em espaços muito heterogéneos, com oferta a nível de comércio, de serviços, de equipamentos, de áreas de lazer, e capazes de captar emprego, através dos parques tecnológicos e centros empresariais que se têm disseminado por toda a metrópole ", descreve Teresa Costa Pinto. "As periferias perderam o caráter apenas residencial e tornaram-se mais atraentes para se viver."

Em nome dos filhos

Nascidos, criados e casados no coração de Lisboa, muito custou aos empresários Manuel e Maria Serrão largarem o modo de vida citadino. Mas, quando se tem filhos, as prioridades alteram-se e os egotismos morrem. No momento de mudar de residência, o casal passou meses em busca de um local onde as suas duas crianças pudessem crescer com maior liberdade, segurança e tranquilidade. De pois de correrem várias zonas da Grande Lisboa e de espreitarem as duas margens do Tejo, Maria e Manuel escolheram uma moradia no concelho de Alcochete, em São Francisco (freguesia que cresceu 94% entre 2001 e 2011). Ainda agora, dez anos após a mudança, falam com entusiasmo de tudo o que ganharam ao trocarem a cidade pela aldeia.

"Aqui libertamo-nos do stresse e vivemos para a família", diz Manuel Serrão, de 45 anos. "Tiramos partido dos espaços livres e abertos, fazemos caminhadas junto ao rio. Até deixámos de comprar produtos hortícolas nas grandes superfícies: vamos aqui a um senhor que cultiva batatas, couves, e quase que somos nós a colhê-las, a cheirar a terra." Maria, 51 anos, que, ao início, tinha as maiores dúvidas, mostra-se ainda mais encantada.

"As pessoas são simpáticas e toda a gente nos cumprimenta na rua. E há aquelas pequenas coisas que eu nunca poderia ter em Lisboa: é a senhora que me traz hortelã, outra que cria galinhas e me pergunta se quero ovos caseiros, a mãe da senhora da Junta que tem patos para vender..." Entre muitas boas surpresas, o casal encontrou um leque diversificado e barato de atividades extracurriculares para os filhos, hoje com 12 e 18 anos. "Os miúdos dispõem aqui, já há dez anos, de natação, equitação, futebol e outras atividades a que é mais difícil ter acesso em Lisboa, por causa dos horários e do grande número de pessoas que as procuram", diz Manuel. "O meu filho paga 15 euros por mês para andar na piscina, a três quilómetros de casa; a minha filha tem artes plásticas à tarde e teatro de manhã. Na cidade, depois de passarmos horas no trânsito para levar os miúdos, acabamos por desistir deste tipo de atividades", acrescenta Maria.

O outro lado

Muitas urbes europeias crescem de modo relativamente homogéneo, em mancha de óleo. A capital portuguesa, no entanto, sempre se desenvolveu de maneira diferente. "O crescimento da metrópole de Lisboa fez-se pelos grandes eixos de acessibilidades, semeando residências ao longo desses eixos e deixando no seu interior espaços ocupados de forma muito heterogénea, espontânea e desorganizada", explica a socióloga Teresa Costa Pinto.

A abundância de boas estradas na região lisboeta deixou ao alcance da classe média o sonho de ter uma vivenda. Pelo preço de um modesto apartamento na cidade, as famílias podiam comprar uma bela moradia no campo e, ainda assim, ficarem a meia hora do centro. Mas várias rasteiras pelo caminho dificultaram-lhes a vida em dez anos, o preço do gasóleo aumentou para o dobro, enquanto algumas vias gratuitas passaram a ser cobradas (como a CREL), fazendo disparar o custo real de residir longe do local de trabalho. Além disso, uma área tão dispersa transforma num pesadelo a tarefa de planear a rede de transportes públicos, que é cara e ineficaz.

"Na maior parte das cidades europeias, toda a metrópole é uma rede de terminais intermodais", diz João Joanaz de Melo, presidente da associação ecologista GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente).

"Na área de Lisboa, se quero ir de um sítio ao outro, chego a ter de apanhar três ou quatro transportes públicos, com um custo exorbitante e títulos de transporte maquiavélicos.

A última estatística que vi do número de títulos de transporte diferentes na AML apontava para mais de quinhentos.

Um disparate destes não acontece em mais nenhuma capital europeia." O número parece absurdo, mas aparentemente peca por defeito: segundo o próprio vereador da Mobilidade da Câmara de Lisboa, Fernando Nunes da Silva, no final de 2011 havia mais de 2 500 diferentes títulos de transporte público na região. Por tudo isto, Lisboa tem das mais altas taxas europeias de utilização do automóvel acima da de países incomparavelmente mais ricos, o que faz aumentar a poluição e as emissões de gases com efeito de estufa.

Cristina Castel-Branco admite que os quilómetros que percorre diariamente, entre a sua vistosa vivenda e o emprego, em Lisboa, são o lado mais negativo de morar no concelho de Palmela. Sobretudo pelos 300 euros que gasta mensalmente em portagens e combustível.

"Mas, de facto, se esta casa não fosse tão longe, não estaria acessível a uma família de classe média", recorda. É um alto mas justo preço a pagar por uma invejável qualidade de vida. "Tomo o pequeno-almoço com uma vista fantástica, compro peixe na praça, grelho-o e almoço lá fora, rodeada por este sossego e pelo verde..." Os filhos, que não param de chapinhar na piscina, não estão com vontade de a contrariar.