Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Envelhecimento: Tinha 'muita chouriça nas pernas'

VISÃO Portugal

  • 333

Muito andou para aqui chegar: a trisavó Joaquina Cigano nasceu há 90 anos. Com o envelhecimento da população, são cada vez mais frequentes os percursos de vida longos e o convívio intergeracional. História de uma longa vida, narrada na primeira pessoa. LEIA A REPORTAGEM, VEJA O VÍDEO, AS FOTOS E A INFOGRAFIA

 

  •  SAIBA MAIS SOBRE O PROJETO VISÃO PORTUGAL
  • LEIA A REPORTAGEM, NA ÍNTEGRA, NO FINAL DESTA PÁGINA
  • VEJA AQUI A VERSÃO TELEVISIVA, TRANSMITIDA NO JORNAL DA NOITE DA SIC DE QUINTA-FEIRA
  • VEJA AQUI A GALERIA DE FOTOS E A INFOGRAFIA
Cebolais de Cima - A freguesia do concelho de Castelo Branco já teve um importante núcleo de indústria têxtil. Quando o marido de Joaquina Cigano conseguiu trabalho numa fábrica, a família mudou-se para a localidade
1 / 6

Cebolais de Cima - A freguesia do concelho de Castelo Branco já teve um importante núcleo de indústria têxtil. Quando o marido de Joaquina Cigano conseguiu trabalho numa fábrica, a família mudou-se para a localidade

Amizades - Com um amigo de Alfrivida, a localidade onde mora a família do marido, que morreu há 11 anos
2 / 6

Amizades - Com um amigo de Alfrivida, a localidade onde mora a família do marido, que morreu há 11 anos

Família - Os pais de Joaquina, Maria da Nazaré e Bartolomeu
3 / 6

Família - Os pais de Joaquina, Maria da Nazaré e Bartolomeu

Intimidade - O quarto de Joaquina. Quando o marido ficou debilitado pela doença, o casal mudou-se para o andar de baixo. Joaquina tratou do marido até à sua morte
4 / 6

Intimidade - O quarto de Joaquina. Quando o marido ficou debilitado pela doença, o casal mudou-se para o andar de baixo. Joaquina tratou do marido até à sua morte

Cemitério - Aos 90 anos, muitos dos que se cruzaram com Joaquina já morreram
5 / 6

Cemitério - Aos 90 anos, muitos dos que se cruzaram com Joaquina já morreram

Ação! - Joaquina esteve sempre disponível para as solicitações dos repórteres durante as filmagens
6 / 6

Ação! - Joaquina esteve sempre disponível para as solicitações dos repórteres durante as filmagens

Sou a mulher mais feliz que Deus deitou ao mundo. Já fui muito pobre. Já fui muito piolhosa, muito ranhosa. Hoje não, felizmente. Já tenho o pão que comer em cada dia. E se vier alguém ao pé de mim, também tenho para lhe dar uma fatia de pão.

O meu pai veio para Vila Velha de Ródão trabalhar para um senhor muito rico. Ódepois, o senhor disse para o meu pai que podia trazer as mulheres, que dava uma casa para a gente lá viver. A minha mãe custou-lhe muito deixar Niza, mas aceitou para estarmos todos juntos...

O meu pai adoeceu. Andava a lavrar num pinhal e deu-lhe uma trombose. Ficou apanhado das pernas e de um braço. Nem de ordenhar era capaz. O meu pai chamava-se Bartolomeu da Graça Cigano. Depois, viemos para a Senhora dos Remédios. O meu pai ficou cá.

Vim para a Ermida da Senhora dos Remédios quando tinha 9 anos. Viemos de Niza, a minha mãe, o meu pai, eu e três irmãos. Niza, naquele tempo, era muito pobre e não havia trabalho. Íamos de terra para terra, assim como estou aqui a dizer.

Alembro-me que havia sempre aqui um homem a quem chamavam ermitão. O meu pai ficou cá a tratar da Senhora dos Remédios. Ganhava 20 contos [100 euros] por ano. E davam-lhe esta horta que aqui está, que tinha um poço. E tínhamos aqui estas oliveiras e ficávamos com o azeite. E não pagávamos renda de casa.

O meu pai tinha uma santinha assim pequenininha, numa caixinha, e podia pedir com aquela santinha e o que lhe davam era para nós. O meu pai, com muito sacrifício e muita dor, foi obrigado a fazê-lo. Toda a gente lhe dava uma esmola. Umas pessoas, dinheiro. Outras, um bocadinho de azeite. Outras, uma farinheira. Sempre lhe davam. Tinha a Senhora dos Remédios sempre enfeitadinha na caixinha. Com flores muito lindas.

O meu marido trabalhava aqui, na Senhora dos Remédios. Era ganhão. Andava com uma junta de vacas. Ele morava numa casinha, aqui. Um dia ele ia a passar e disse-me: "A menina tem muita chouriça na perna." "Ah, o ranhoso, tem alguma coisa que olhar para as minhas pernas?!", disse eu para ele. E assim nos conhecêramos e assim andáramos. Depois ele pediu-me namoro. Tinha os meus 14 ou 15 anos.

Nunca andei na escola. Não havia eletricidade nem água canalizada, só umas candeias de azeite. Durante a II Guerra, não havia sabão nem açúcar. Quando passava um avião, escondíamo-nos debaixo dos sobreiros. Só aprendi a ler e a escrever mais tarde, na escola dos adultos. Ainda sei fazer o meu nome.

O meu casamento! Ai, mãe, o meu casamento! Vieram uns tios e a minha avó. A minha madrinha trouxe-me a cama do casamento. Mataram lá uma rês e fizemos o jantar. O que aquele homem tinha em mim para se encantar comigo e casar comigo? Isto foi uma pobreza que o senhor não queira saber!

Quando casei, vim aqui para esta casa. Os meus pais moravam lá em baixo, na Senhora dos Remédios. A minha filha nasceu aqui. Pedi ao meu irmão para chamar a parteira. "Achama-me a senhora para ajudar ao parto!" Nós não fomos ao hospital. Era um arriscar a vida. Agarrávamo-nos à cama, púnhamos ali um farrapão e a criança nascia.

Depois, fui para Alfrivida, onde vivia a família do meu marido. Comprava uma caixa de sardinhas e ia vendê-las por esses montes fora. Esse dinheiro e o que ganhava a fazer carvão metia-o dentro de uma lata. Com esse dinheiro mandei fazer uma casa. Um senhor pediu-me 20 contos de empreitada, com a pedra arrancada. Mandei arrancar a pedra e eu é que dei serventia ao pedreiro.

Ódepois, o meu marido foi trabalhar para a fábrica de lanifícios. O patrão dele era muito mau de pagar. Foi então que mudámos para Cebolais, para esta casa onde hoje vivo. Primeiro, ainda fui para outra, mas era muito releszinha. Depois apanhei esta. Isto era o antigo posto médico. Lá em cima, onde era o meu quarto, era onde o médico atendia os doentes. Aqui em baixo, naquele quarto, funcionava um talho.

Tenho três netos, seis bisnetos e uma trineta. Foi crescendo, a família. Agora já parou tudo. Não sei se virá mais alguém ou se não. Se vier, cá serão aceites, desde que eu cá esteja.

O meu marido reformou-se aos 66 anos. Mas, na fábrica, só trabalhou 17 anos, só teve 17 anos de Caixa. Toda a vida trabalhou no campo, mas no campo não se descontava para a reforma. Eu também trabalhei toda a vida no campo.

Fui operada à barriga, à apendicite. Deixaram-me cá uma coisa dentro e a costura começou a deitar muito sangue. Fui ao hospital outra vez e voltei a ser aberta. Também fui operada aos peitos por causa do leite... Foi da minha segunda filha, a mais nova. E tenho a tensão alta, às vezes chega aos 20. Mas sinto-me bem de saúde, não sou de andar nos médicos.

O meu marido morreu há 11 anos. Sempre nos demos bem. Tínhamos as nossas coisas, como toda a gente. Uma teima, uma coisa qualquer. Eu era muito amiga de dar tudo aos filhos e ele só tinha medo de que desse tudo aos filhos e que amanhã a gente quisesse comer e não tivesse nada. Mas andávamos sempre um atrás do outro, sempre, sempre. Quando se reformou, ainda ficou na fábrica, de noite, por 15 contos por mês. E eu ia lá ficar com ele. Gostava muito dele e ele de mim. Fomos sempre um casal muito unido. Quando ele morreu, senti-me um bocado sozinha. Foi um vazio muito grande.

O meu marido morreu aqui, neste quartinho. Eu levantava-o para ele não passar o dia todo na cama. A minha vizinha vinha aqui, para me ajudar. Dava-lhe banho, punha-lhe as fraldas, fazia-lhe a barba. Ele morreu com cancro na próstata.

Não me sinto velha. Sou uma mulher feliz. Tenho muita gente à minha roda: as minhas filhas, os meus netos, os meus bisnetos, as minhas vizinhas... Portanto, acho-me feliz.