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Vamos ao teatro? Duas (boas) peças para ver, em Lisboa e Almada

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O Tejo separa estes dois palcos e ambos merecem a visita. No Teatro Aberto, em Lisboa, Doença da Juventude questiona ânsias e perspetivas de futuro dos jovens, após os estudos. No Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, Reinar Depois de Morrer é a história de Pedro e Inês, contada por um dramaturgo espanhol no século XVII

O texto de "Doença da Juventude", adaptado à geração Y, coloca em cena estudantes de Medicina a partilharem casa, amigos, namorados e uma empregada de limpeza

O texto de "Doença da Juventude", adaptado à geração Y, coloca em cena estudantes de Medicina a partilharem casa, amigos, namorados e uma empregada de limpeza

Filipe Figueiredo

1. "Doença da Juventude", Teatro Aberto, Lisboa

No início, é projetado o vídeo de um antílope a ser comido por cães selvagens, uma morte lenta e dolorosa. Essa analogia – a das perplexidades inerentes à sobrevivência, comer ou ser comido – é o que a peça Doença da Juventude tem de mais pujante. O texto, adaptado à geração Y, coloca em cena estudantes de Medicina a partilharem casa, amigos, namorados e uma empregada de limpeza.
“Cada uma das personagens é a bandeira de uma forma de estar na vida, e aquilo que me motivou a achar este texto incrível foi o confronto destas mundivisões, como é que cada uma destas personagens se coloca perante o mundo e perante a adversidade; ou perante as relações humanas, sejam as amorosas ou as de respeito pelo próximo”, explica Marta Dias, encenadora, que adaptou a linguagem da peça (de 1926) aos dias de hoje. “Estes choques dão azo a muitos assuntos, mas a grande questão é a da lei do mais forte, do homem-animal. Qual o grau de civilidade que alcançámos? E será que a lei do mais forte não é o caminho natural para o qual pendemos sempre, apesar da tolerância, do politicamente correto?” Essa ideia tão atual do “politicamente correto” é aqui desconstruída, tenta-se perceber até que ponto esconde escalas, não de tolerância mas de intolerância e de manipulação. “As pessoas querem misturar-se muito pouco, não têm tempo para compreender o outro, não se interessam pelo outro. O individualismo é agora muito absorvente. Acabou por fazer parte da nossa evolução enquanto sociedade: hoje em dia é tudo ‘eu quero’, ‘eu preciso’, ‘eu tenho’, ‘eu compro’...” Doença da Juventude > Teatro Aberto > Pç. de Espanha, Lisboa > T. 21 388 0089 > até 29 dez, qua-sáb 21h, dom 16h > €17

2. "Reinar Depois de Morrer", Teatro Municipal Joaquim Benite, Almada

Num momento em que a Catalunha está nas ruas, a ferro e fogo, em Almada está em cena (inserida na Mostra de Espanha 2019) uma peça de teatro sobre as figuras históricas de Pedro e Inês escrita por um castelhano, Luis Vélez de Guevara, durante o tempo em que Portugal estava sob o jugo dos Felipes. Este pormenor poderia ser interpretado como uma pequena provocação, mas – e porque há sempre outras formas de ver as coisas, basta dispormo-nos a isso – podemos encará-lo como uma ponte. “A cultura sempre foi união, diálogo. São mais as coisas que nos unem do que as que nos separam na Península Ibérica”, diz o encenador, Ignacio García, da Compañia Nacional de Teatro Clásico. “Num momento de Brexit, de uma Europa que está a fragmentar-se e de nacionalismos perigosos a crescerem, devíamos pensar em sociedades mais abertas e dialogantes, em construir espaços comuns.” Este é um projeto luso-espanhol, feito em parceria com a Companhia de Teatro de Almada, e a encenação foca- -se em dois pontos essenciais: o político, com a ameaça de um amor ao poder instituído, e o asceta, os valores dos quais Pedro e Inês não abdicam e que a tornam uma verdadeira rainha. A cenografia é de José Manuel Castanheira. José Neves e Margarida Vila-Nova são os protagonistas, Pedro e Inês.

Reinar Depois de Morrer > Teatro Municipal Joaquim Benite > Av. Prof. Egas Moniz, Almada > T. 21 237 9360 > até 17 nov, qui-sáb 21h, qua e dom 16h > €13