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Anozero’19 - Bienal de Coimbra: Marginalizados do mundo, estamos a olhar para vós

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À terceira edição, a bienal inspira-se num título de João Guimarães Rosa – “a terceira margem” –, para trabalhar as prementes questões dos muros e fronteiras. Metafóricas e reais. A Anozero - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra inaugura neste sábado, 2, em vários locais da cidade

Daniel Melim é o artista em residência desta edição

Daniel Melim é o artista em residência desta edição

E porquê João Guimarães Rosa? O conto do brasileiro ecoa as preocupações contemporâneas: a decisão de um pai de família que, um dia, constrói uma canoa “pequena como para caber justo o remador” e exila-se no rio mutável, “rio abaixo rio acima”, ficando “à margem da margem”. Outros barcos frágeis inundam, hoje, os média, e estas histórias, esta literatura com mais de cinco décadas, são ancoradouros para a Anozero’19 Bienal de Coimbra. “A terceira margem de Guimarães Rosa pode bem referir-se à situação de suspensão generalizada em que vivemos, a instabilidade expressa nas vagas de gente acumuladas nas bordas dos países e dentro das cidades que os compõem, no tenso debate entre aqueles que pressentem catástrofes e aqueles que dão de ombros; na oportunidade aberta nas redefinições identitárias de toda a ordem, faceando os que reagem, agarrando-se com firmeza às boias da tradição”, sublinham os responsáveis desta terceira edição. E recordam: “A arte contemporânea é a margem mais avançada, a terceira margem da nossa sensibilidade e da nossa expressão.”

Julius von Bismarck é um dos 39 artistas convidados para a exposição que ocupará diferentes lugares de Coimbra, como o Convento de Santa Clara-a-Velha, as ruas do centro da cidade, edifícios da Universidade e do Circulo de Artes Plásticas de Coimbra

Julius von Bismarck é um dos 39 artistas convidados para a exposição que ocupará diferentes lugares de Coimbra, como o Convento de Santa Clara-a-Velha, as ruas do centro da cidade, edifícios da Universidade e do Circulo de Artes Plásticas de Coimbra

Cinco frases de Guimarães Rosa inspiraram conceitos-chave da bienal: silêncio (“nosso pai nada não dizia”), passagem (“longe, no não encontrável?”), marginalidade (“passadores, moradores das beiras”), invenção (“executava a invenção”) e militância (“chega que um propósito”). Matéria-prima trabalhada por 37 artistas, regidos pelo trio curatorial liderado pelo brasileiro Agnaldo Farias, com Lígia Afonso e Nuno de Brito Rocha. Junta-se-lhes ainda Tomás Cunha Ferreira, artista participante e curador de ShipShape, exposição dedicada à poesia visual, concreta e experimental. Curador da 29ª Bienal de São Paulo (2010), Agnaldo Farias defende que “toda a arte é política”. E a Anozero’19 assume que há que “fazer perguntas” neste “tempo perturbador”. A “equidade” é, aqui, objetivo – de género e de gerações. Veteranos como Anna Boghiguian, David Claerbout, Lynn Hershman Leeson e Steve McQueen questionam os rumos do mundo ao lado de Belén Uriel, Eugénia Mussa, Daniel Melim, Maria Condado, João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Marilá Dardot ou Meriç Algün.

A Anozero’19 privilegia as ligações entre artes plásticas e património arquitetónico e histórico de Coimbra. No dia da inauguração (este sábado, 2) há performances marcadas para o Convento de Santa Clara-a-Nova e o Colégio das Artes.

Anozero'19 - Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra > Vários locais de Coimbra > T. 91 078 7255 > 2 nov-20 dez > grátis