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Woody Allen fora de horas, no filme "Um Dia de Chuva em Nova Iorque"

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A nova comédia do mais célebre realizador nova-iorquino não é brilhante, mas permite-nos hora e meia bem passada no cinema. O novo filme de Woody Allen, Um Dia de Chuva em Nova Iorque, já se estreou nos cinemas

A caça às bruxas do movimento #MeToo fez com que a Amazon adiasse a estreia deste novo filme de Allen. Por isso, 2018 foi o primeiro ano, desde 1981, sem uma estreia comercial de um filme do realizador

A caça às bruxas do movimento #MeToo fez com que a Amazon adiasse a estreia deste novo filme de Allen. Por isso, 2018 foi o primeiro ano, desde 1981, sem uma estreia comercial de um filme do realizador

Jessica Miglio

Numa entrevista recente, Woody Allen afirmou que não queria saber da posteridade. Um Dia de Chuva em Nova Iorque também não será dos filmes que o farão “eterno” (há muitos outros que sim). O realizador, aos 83 anos, chegou àquela fase em que cada filme novo é uma bênção, para si e para o público. Celebre-se, então, o cinema de Woody Allen.

Um Dia de Chuva em Nova Iorque tem aquele grau de envolvimento e encantamento mínimo que permite uma hora e meia de leve e bom entretenimento, como costuma acontecer mesmo nas piores comédias do realizador. Nesse sentido, dificilmente um filme de Woody Allen poderá ser considerado mau, mas diga-se que este também não é brilhante. O que até contrasta com o anterior, Roda Gigante, magnífico objeto tardio, obra maior quando já poucos esperavam que chegasse a momentos de grande forma.

Ao contrário de Roda Gigante, Um Dia de Chuva em Nova Iorque tem como contexto a alta sociedade, snob e democrata, nova-iorquina, o que não é novo em Woody Allen, que sempre gostou de abordar as elites. Menos usual é o facto de os seus protagonistas serem jovens universitários, decorrendo assim de forma diversa as dinâmicas, o florescimento dos casais e as opções de vida. Allen está em casa, na sua Manhattan, e recicla personagens e situações de outros filmes, sempre no limiar do autoclichê, mas desviando-se em boa hora, trabalhando de forma assumida com a previsibilidade e não levando as situações a extremos de comédia. Momentos como a prostituta que faz de noiva num jantar de família não são explorados em todo o seu potencial cómico, Allen tem consciência de que está a repetir-se (no caso, evoca a personagem de Penélope Cruz em Para Roma, com Amor, que por sua vez homenageava O Sheik Branco, de Fellini).

Problema maior deste novo filme é Gatsby, personagem interpretada por Timothée Chalamet, que se torna enfadonha no seu discurso mais do que perfeito. Já em Ashleigh (Elle Fanning), descobre-se um retrato mais perspicaz, de uma falsa inocência que preserva alguma ingenuidade em plena era do vislumbre pós-adolescente. Mais interessante, e mais woodyallenesca, é Shannon, interpretada por Selena Gomez, com deixas espirituosas e eficazes, e um interessante jogo narrativo, como se a personagem tivesse consciência da sua condição de personagem e proclamasse o direito à fantasia amorosa.

Veja o trailer do filme:

Um Dia de Chuva em Nova Iorque > De Woody Allen, com Elle Fanning, Timothée Chalamet e Selena Gomez > 92 minutos