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A engenharia mais livre do mundo na exposição de Miguel Palma

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Uma exposição que é o regresso ao incomparável universo de Miguel Palma. De que nos falam estes fragmentos de narrativas imaginadas, máquinas, viagens e estranhos projetos? De nós próprios, pois claro. (Ainda) o Desconforto Moderno está no Museu Berardo, em Lisboa, até janeiro

Abarcando um período de trabalho de mais de 30 anos, a exposição (Ainda) o Desconforto Moderno apresenta esculturas, vídeos, instalações, desenhos e registos de performances. Algumas das peças são apresentadas, pela primeira vez, em Portugal

Abarcando um período de trabalho de mais de 30 anos, a exposição (Ainda) o Desconforto Moderno apresenta esculturas, vídeos, instalações, desenhos e registos de performances. Algumas das peças são apresentadas, pela primeira vez, em Portugal

No terrível ano de 1939, com o pesadelo da II Guerra Mundial a tomar forma, o pedagogo norte-americano Abraham Flexner assinava, na revista Harper’s Magazine, um artigo intitulado A Utilidade do Saber Inútil. Aí, escrevia: “O mundo sempre foi um lugar triste e confuso, no entanto, poetas, artistas e cientistas têm ignorado os fatores que, se fossem tidos em conta, os paralisariam. De um ponto de vista prático, a vida intelectual e espiritual é, exteriormente, uma forma inútil de atividade, a que os homens se entregam porque pretendem alcançar maiores satisfações para si do que conseguiriam obter de outra maneira.” A questão da utilidade/inutilidade é algo com que, em algum momento, os visitantes das exposições de Miguel Palma sempre se confrontam, sobretudo perante máquinas mais ou menos complexas, misteriosas e ativas, concretizadas com o apoio de técnicos e de engenheiros.

Engenho, 1993. Coleção Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Porto (aquisição em 1996)

Engenho, 1993. Coleção Fundação de Serralves — Museu de Arte Contemporânea, Porto (aquisição em 1996)

Algumas delas estão nesta revisitação do trabalho de Miguel Palma (des)arrumado pela curadoria de Miguel von Hafe Pérez (que, abarcando peças de várias épocas, acaba por funcionar como uma exposição antológica). Um bom exemplo é uma obra nova, construída para (Ainda) o Desconforto Moderno. A Montanha é uma grande estrutura metálica cinzenta, com algo de inquietante no seu cume coberto de gelo e processo de degelo permanente. Ou, ainda, em Tapete Voador, de 2005, com um tapete persa a sustentar uma máquina de contornos belicistas em movimento, feita a partir do assento de um avião militar. É ao procurar sentidos, sentimentos e histórias para um mundo de aparente nonsense que melhor se percorre uma exposição de Miguel Palma, sempre com algo de lúdico, onírico e até infantil, naquele “e se...?” que é o impulso de muitas brincadeiras. Mesmo em dispositivos aparentemente terminados e fechados sobre si próprios, o artista oferece-nos pistas e pontas soltas que cada um pode apanhar e coser à sua maneira. No texto que acompanha a sua curadoria, Von Hafe Pérez não esquece um elemento central, e sedutor, nesta produção artística: “Nada disto poderia acontecer sem uma arma absolutamente fundamental em todo o processo criativo de Palma: o humor.”

(Ainda) o Desconforto Moderno > Museu Coleção Berardo > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361 2878 > até 19 jan, seg-dom 10h-19h > €5 (grátis aos sábados)