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"Parasitas", de Joon-ho Bong: Um filme com um argumento perfeito

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Depois da Palma de Ouro em Cannes, o filme Parasitas, obra maior do cinema sul-coreano contemporâneo, chega às salas portuguesas

Na sessão de visionamento para a imprensa de Parasitas foi distribuída uma carta do realizador Joon-ho Bong dirigida aos críticos, pedindo-lhes encarecidamente que não revelem partes determinantes do enredo, pois, apesar de não ser um filme de Hollywood, pode ser estragado por spoilers. E é verdade que sim. Esta informação, contudo, não evita o aviso de que se trata de um filme com surpresas e twists... Aliás, diga-se, é uma película com um argumento perfeito, tão habilmente construído que todos os pormenores encaixam na perfeição. A tal ponto que pouco nos admiraríamos se Hollywood estivesse já a preparar um remake norte-americano. Parasitas é um filme com várias camadas de interesse e de leitura, que tanto serve a crítica como o público, que tanto atrai o público ocidental como oriental, que tanto ganhou a Palma de Ouro em Cannes como pode vir a ser nomeado para os Oscars e ter bons resultados de bilheteira.

Em termos práticos, pode ser encarado como um Shoplifters, do japonês Hirokazu Koreeda, que também se estreou por cá, com um upgrade de enredo. Não há pontas soltas nem portas que se abram sem se fecharem depois. Estamos perante a camada mais baixa da sociedade urbana sul-coreana. Um casal com dois filhos jovens, todos desempregados, que recorrem a pequenas falcatruas para sobreviver. Contudo, Joon-ho Bong, que gosta de enredos bem construídos e atraentes, como The Host (2006), não se foca demasiado no realismo social. Encontra nas personagens o humor e um saber-estar de uma nova miséria tecnologicamente evoluída e leva-nos por uma impressionante e hábil história de enganos até ao encontro com uma família da mais alta sociedade. No subtexto, contudo, de forma progressivamente violenta e clara, está incutida a ideia de luta de classes. A mensagem política torna-se evidente, entre o sonho e o desconsolo, entre o confronto com a realidade e a utopia desenhada. De resto, o pragmatismo e a descrença na vida resumem-se bem na espirituosa frase do pai: “O melhor plano é não ter plano nenhum; assim nunca podemos falhar.”

Veja o trailer do filme:

Parasitas > De Joon-ho Bong, com Lily Franky, Sakura Andô, Kirin Kiki > 121 minutos