Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

A terra ou a vida no filme "A Herdade", de Tiago Guedes

Ver

Depois da passagem pelos festivais de Veneza e Toronto, o filme de Tiago Guedes chega às salas portuguesas. A Herdade é uma grande história da nossa História recente

Apesar de, no filme, ficar claro que se trata de um registo ficcional, sabe-se que a grande inspiração para a construção desta história foi a Herdade de Rio Frio, propriedade da família Lupi, na zona de Alcochete, a sul do Tejo

Apesar de, no filme, ficar claro que se trata de um registo ficcional, sabe-se que a grande inspiração para a construção desta história foi a Herdade de Rio Frio, propriedade da família Lupi, na zona de Alcochete, a sul do Tejo

Divulgacao

Para o convencer a participar no filme, Paulo Branco terá perguntado ao italiano Roberto Perpignani se não queria montar o outro lado de Torre Bela – documentário do alemão Thomas Harlan que se tornou uma obra emblemática sobre a Reforma Agrária, também com montagem de Perpignani. O icónico editor de imagem, que trabalhou com Bertolucci e Orson Welles, entre outros mestres do cinema, aceitou o desafio, tornando-se a maior estrela internacional apresentada na ficha técnica, a par de Paulo Branco. A Herdade, contudo, não é rigorosamente o lado B de Torre Bela, embora tenha, em parte, a mesma ancoragem histórica e contextual. Muda a perspetiva. Observamos a História do lado de um latifundiário com uma das maiores herdades da Europa, de personalidade particular e que, apesar de alguma bonomia, governa as suas terras com todos os vícios de um senhor feudal. João Fernandes (Albano Jerónimo) confunde-se com as próprias terras e habilmente pratica jogos de poder e de antecipação para as manter, em estilo insurreto.

A primeira parte do filme é tomada pelos acontecimentos da própria História e de como os seus intervenientes, em particular João, reagem às ameaças exteriores, primeiro do regime fascista, depois da Revolução. Na primeira parte são lançadas também as sementes para a segunda, protagonizada, em grande medida, pela geração dos filhos; os acontecimentos externos perdem preponderância e centramo-nos num drama familiar, com a dimensão literária de um Camilo ou de um Eça rural. Apesar de o filme ter estes ingredientes históricos e narrativos que lhe dão uma dimensão quase épica, pouco vulgar no cinema português, o que realmente o engrandece é o tratamento das personagens, psicologicamente elaboradas e fortes dentro das suas contradições. Tal deve-se, em primeiro lugar, ao trabalho de escrita de Rui Cardoso Martins e, mais tarde, do próprio Tiago Guedes. Mas também aos excelentes atores, destacando-se Albano Jerónimo, Sandra Faleiro e Miguel Borges. A Herdade é um grande filme português.

Veja o trailer do filme:

A Herdade > De Tiago Guedes, com Albano Jerónimo, Sandra Faleiro, Miguel Borges, Ana Vilela da Costa > 146 minutos