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Anjo tingido de negro no filme "O Último Amor de Casanova", de Benoît Jacquot

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Casanova, amante do vício – jogo e mulheres –, é obrigado a exilar-se uma vez mais e vai parar a Londres. Retrato da alta-roda britânica do século XVIII, no filme O Último Amor de Casanova, de Benoît Jacquot, já em exibição nos cinemas

O universo dirá que não foi por acaso que Giacomo Casanova terminou os seus dias em Boémia. Não como o costumeiro bon vivant e Don Juan juntos numa persona só, mas como, ironia das ironias, bibliotecário do conde Waldstein no castelo de Dux. Ou seja, muito sossegado com os seus botões – e as suas penas. Foi lá, na Boémia, que faz hoje parte da República Checa, que Casanova escreveu a sua biografia História da Minha Vida, e foi nela que Jérôme Beaujour se baseou para escrever o argumento de O Último Amor de Casanova. Com realização de Benoît Jacquot, este é um filme insípido.

Não deixem, no entanto, que a insipidez vos demova de verem o filme. A estratégia de O Último Amor de Casanova será a de se assumir como um contraponto ao rodopio que eram as seduções de Casanova, que dava por si a ter de fugir das cidades por onde ia vivendo tal era dimensão das suas aventuras. Aquele que dizia que “o desejo de partir é sempre mais avassalador”. Deu-se com a alta fidalgia, enrolou-se com princesas e frequentou salões de papas. Porém, o filme não segue essas histórias, centrando-se antes na única mulher que Casanova verdadeiramente amou, a jovem inglesa Marianne de Charpillon.

Não será também por acaso que Jacquot, autor de outros filmes históricos como Adeus, Minha Rainha (2012), terá escolhido para Casanova Vincent Lindon, um ator na casa dos 60 cuja pose sedutora ainda se mantém mas cuja chama se apagou há muito. Todos os pormenores trabalham para essa impossibilidade do amor, essa ideia de a mistura de classes ser inconcebível – a de se casarem garotas de programa com figuras da alta sociedade. A ela, Marianne de Charpillon, chamaram-na de anjo negro, e a estética do filme gira em volta de toda uma austeridade e cinismo de época, azuis frios e pálidos, roupas demasiado grandes e pesadas, casas sem luz. Ai de quem se atreva a contrariar as leis do mundo.

Veja o trailer do filme

O Último Amor de Casanova > De Benoît Jacquot, com Vincent Landon e Stacy Martin > 98 minutos