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Mulheres valentes na peça "Troianas", com Maria Rueff, em Lisboa

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Em Lisboa, o Teatro do Bairro muda-se para as ruínas do Carmo e leva Troianas, tragédia clássica grega de Eurípides. Maria Rueff é Hecuba, rainha que testemunha o fim da cidade de Troia. Para ver até 17 de agosto

Maria Rueff é Hécuba, rainha que testemunha o fim da cidade de Troia. “Há esta convicção de que os comediantes são os que melhor representam a tragédia, porque sabem trabalhar os limites”, explica o encenador, António Pires, referindo-se à escolha da atriz para protagonista

Maria Rueff é Hécuba, rainha que testemunha o fim da cidade de Troia. “Há esta convicção de que os comediantes são os que melhor representam a tragédia, porque sabem trabalhar os limites”, explica o encenador, António Pires, referindo-se à escolha da atriz para protagonista

Luisa Ferreira

Convém lembrar que, à época, as mulheres não eram consideradas cidadãs. Portanto, quando falamos da peça de Eurípides, Troianas, é importante dizer que, depois de terem sido feitas reféns e escravas pelos gregos, após a Guerra de Troia, a sua condição era duplamente de segunda. É por isso que as peças de Eurípides eram irreverentes na altura, não só não retratavam feitos épicos, mas antes cenas do quotidiano, como davam voz aos vencidos – às mulheres, aos velhos, aos escravos. Troianas, em cena nas ruínas do Carmo até 17 de agosto, centra-se no momento que antecede a partida das mulheres troianas, antes princesas e damas de corte, em barcos gregos rumo a uma vida de escravas. Entre elas, a rainha, Hécuba, protagonizada por Maria Rueff, que, por debaixo da sua túnica, usa umas botas Doc Martens, qual momento Marie Antoinette de Sofia Coppola calçada de All Star.

“Não estamos a fazer uma reconstituição histórica, estamos a fazer um texto contemporâneo”, diz o encenador, António Pires, a quem a ideia surgiu há cerca de três anos com a eleição de Trump e os consequentes receios de guerra a nível mundial. “Havia esta vontade de pôr em cena um discurso antibélico e de denunciar os motivos fúteis por que começam.” A Guerra de Troia começou porque Helena, mulher do rei grego Menelau, e Páris, filho do rei Príamo de Troia e de Hécuba, se apaixonaram. A repetição da História e as ligações ao presente são assustadoras: a do sacrifício de uma criança encontra hoje uma analogia nas crianças refugiadas que morrem de forma recorrente no Mediterrâneo ou são separadas dos pais nas fronteiras, como a do México com os Estados Unidos da América.

“Eu nunca tinha feito uma tragédia [clássica]. É muito pura, as personagens são o que dizem, vive muito da palavra. Eu vinha de fazer um Brecht”, acrescenta António Pires. “Há esta convicção de que os comediantes são os que melhor representam a tragédia, porque sabem trabalhar os limites”, explica, referindo-se à escolha de Maria Rueff para protagonista. “A tragédia e a comédia tocam-se.”

Troianas > Ruínas do Carmo > Lg. do Carmo, Lisboa > T. 91 321 1263 > até 17 ago, seg-sáb 21h30 > €8-€16