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O nariz de Pinóquio (que todos temos) na peça "A Verdade/A Mentira"

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“A Mentira” ou “A Verdade”? A escolha é sua, mas o ideal é mesmo ir às duas peças. Esta nova encenação de João Lourenço pretende não deixar qualquer casal sair das salas do Teatro Aberto, em Lisboa, da mesma forma que entrou. Para ver até 31 de março

Duas peças, interligadas, correm em paralelo no Teatro Aberto, cada uma com um par de atores. A" Mentira" é interpretada por Miguel Guilherme e Joana Brandão; "A Verdade" por Paulo Pires e Patrícia André

Duas peças, interligadas, correm em paralelo no Teatro Aberto, cada uma com um par de atores. A" Mentira" é interpretada por Miguel Guilherme e Joana Brandão; "A Verdade" por Paulo Pires e Patrícia André

Marcelo Albuquerque de Lima

É como os comprimidos azul e vermelho no filme Matrix, dos irmãos (agora irmãs) Wachowski. No foyer do Teatro Aberto existe uma tabuleta azul a indicar A Mentira para a esquerda e, por baixo, uma vermelha a sinalizar a A Verdade, para a direita. Em cena, estão dois espetáculos com textos do francês Florian Zeller, adaptados por João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, cuja premissa assenta na ideia de que mentir é inato em todos nós.

As histórias das duas peças são as das relações amorosas, o que se conta, o que se esconde, o que se mente – e o novelo difícil de desemaranhar que daí resulta. Em palco, acontecem as interações entre dois casais: A Verdade passa-se nos anos 50; A Mentira, nos dias de hoje. Em A Mentira, os três cenários, rotativos, em palco são ladeados por quadros de pintores de várias épocas cujas obras afloram a questão da fraude ou da farsa. Há obras de Bosch, Picasso, Hopper. “A instalação de arte dá-me uma forma de mostrar às pessoas, hoje, como se mente”, conta o encenador João Lourenço. “Aqui também me interessou serem casais. No fundo, é aquela velha história do casal em que um engana o outro... e está aí a raiz de tudo. É com isso que nos debatemos. Depois, há os negócios, etc., mas é em casa que dói mais”, continua. “Se virmos as duas peças, todos passámos por aquilo. Mais, menos, mas todos passámos.”

Marcelo Albuquerque de Lima

A meio de A Mentira, há um interlúdio. Miguel Guilherme vira-se para o público e faz uma espécie de preâmbulo pela génese – já no pecado original, Adão e Eva tinham mentido – da nossa sageza pela mentira e diz: os nossos pais ensinam-nos a mentir desde crianças. A seguir, enceta um diálogo com o público e pergunta, perante o facto de ter cometido adultério na história a que se estava a assistir: “Devo continuar a mentir ou dizer a verdade?” A complexidade e a utilidade dos atos de dizer a mentira ou a verdade garantem as camadas dramáticas necessárias ao teatro das nossas vidas e, na sessão a que assistimos, quando Guilherme pediu ao público para votar... a verdade ganhou, mas por pouco.

A Verdade/A Mentira > Teatro Aberto > Praça de Espanha, Lisboa > T. 21 388 0089 > até 31 mar > A Mentira: qui e sáb 21h30, dom 16h, A Verdade: qua e sex 21h30, dom 18h30 > €8,5-€17