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Trepar as paredes no filme “The House That Jack Built”, de Lars von Trier

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No seu novo filme, The House That Jack Built, Lars von Trier leva-nos até às portas do Inferno. Nada de novo, portanto

A obra de Lars von Trier tem provocado grande polémica. Em Cannes, onde passou pela primeira vez, parte do público abandonou a sala a meio. O filme não é aconselhável a pessoas mais sensíveis e é um desafio vê-lo até ao fim

A obra de Lars von Trier tem provocado grande polémica. Em Cannes, onde passou pela primeira vez, parte do público abandonou a sala a meio. O filme não é aconselhável a pessoas mais sensíveis e é um desafio vê-lo até ao fim

Não há realizador no mundo que mais se assemelhe a um psicopata de câmara ao ombro, que faça do cinema, de forma tão avassaladora, uma poderosa máquina de levar os espectadores aos seus limites psicológicos, éticos e morais. Lars von Trier é um manipulador por excelência. Faz dos seus filmes teses maléficas com o objetivo de provar o inconcebível, talvez por mero divertimento sádico. Assim acontece em filmes como Ondas de Paixão ou Anticristo, rasgando qualquer ideia de ética no cinema, mas de forma igualmente diabólica em cenas de outros filmes, como Melancolia ou Ninfomaníaca. É um génio do mal.

A palavra “génio” não é despropositada, porque o realizador dinamarquês desarma os céticos pela sua linguagem plástica e capacidade de construção narrativa. Em The House That Jack Built passa-se o mesmo. Aliás, é essa postura, quase de enaltecimento do monstruoso, que torna a sua obra particularmente odiosa. A postura de Trier, por detrás da câmara, confunde-se com a do psicopata retratado, que acredita poder construir uma arte suprema através dos corpos por si assassinados.

Trier divide a narrativa da personagem de Jack, soberbamente interpretada por Matt Dillon, em cinco incidentes. Até ao final do segundo incidente, a construção é brilhante, a nível narrativo e estético, na capacidade lúdica, na malha psicológica, que passa pelos jogos de culpa, de ação-reação e de terror. A partir daí, começa a escorregar. A querer puxar a narrativa a novos limites, entra no mau gosto. As preocupações com detalhes de verosimilhança, evidenciadas no início do filme, são deixadas para trás e, com isso, o plano realista proposto fragiliza-se.

Mas o ponto mais fraco deste irregular filme de Trier é outro. Está no discurso em volta. Não só nas teses da arte tétrica, defendida por Jack, personagem que acaba por ir perdendo consistência como na diversão pelo imaginário judaico-cristão da vida para além da morte. Até gostamos de ver Bruno Ganz, no papel de Verge, numa clara referência a As Asas do Desejo, de Wim Wenders. Contudo, a construção filosófica em volta do Purgatório e do Inferno é algo vazia. E um final surpreendentemente frouxo, sem sombra do rasgo provocador a que Trier nos habituou.

Veja o trailer do filme

The House That Jack Built > De Lars von Trier, com Matt Dillon, Bruno Ganz e Uma Thurman > 152 minutos