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"O Amante Duplo": Ozon, gémeo ou génio?

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O thriller psicológico do realizador francês está cheio de emoções perturbadoras e de imagens surpreendentes. O último filme de François Ozon, O Amante Duplo, já se estreou nas salas de cinema

O filme baseia-se levemente num livro da norte-americana Joyce Carol Oates e parte do fenómeno dos gémeos parasitas (ou canibais), fetos que absorvem o feto do irmão, ainda durante o período de gestação, alojando-o, em regra, no abdómen

O filme baseia-se levemente num livro da norte-americana Joyce Carol Oates e parte do fenómeno dos gémeos parasitas (ou canibais), fetos que absorvem o feto do irmão, ainda durante o período de gestação, alojando-o, em regra, no abdómen

Tudo pode ser dito sobre François Ozon, porque tudo cabe no cinema de François Ozon: o belo e o horrendo, o linear e o rebuscado, o perturbador e o monótono, o genial e o banal, o inteligente e o atentado à inteligência. Porém, uma coisa certa, O Amante Duplo, o último filme do realizador francês, é um autêntico OVNI, um filme fora dos parâmetros, o qual nunca nos deixa de surpreender a nível narrativo, mas, sobretudo, a nível estético e formal. Ozon usa o cinema em todo o seu espectro, sem se preocupar demasiado com a consistência ou a coerência, e mune-se de elementos surpreendentes para servir cada cena, com uma ousadia brutal, mas raramente gratuita.

Aliás, as imagens iniciais do filme são paradigmáticas. Ozon aproxima-se mais do que Coubert na Origem do Mundo. O filme começa com um “ultra” close up de uma vagina, durante uma consulta ginecológica, algo que, diga-se, arrisca-se a arrasar com toda e qualquer tentativa de sensualidade dali para a frente.

Na construção narrativa, é um thriller psicológico, com uma história de gémeos e com histórias gémeas, aproximando-se até de Polanski. Contudo, neste Ozon, o plano da verosimilhança fica para trás. Se em David Lynch, em filmes como Mulholland Drive, tudo se desenha de forma onírica claramente ao nível do subconsciente e, mesmo assim, há a tentação de fazer uma descodificação realista, através de um impressivo esquema ou organograma, neste Ozon, a aproximação é mais realista, mas não há lógica possível no final da história e não há esquema que nos valha; tratar-se-á apenas de um surto psicológico ou de uma ousada brincadeira do realizador, sob a alçada do qual tudo se torna justificável. A outra que era ela, o ele que era o outro, a realidade e o paranormal atropelam-se e canibalizam-se, sem que o realizador sinta a necessidade de dar algum sentido real – apenas o delírio metafórico.

O mesmo atrevimento que leva Ozon a grandes cenas, com criativos expedientes, faz com que caia em alguns excessos. Mais ou menos como o Sporting de Marcel Keiser. Quando se tentam marcar muitos golos, também se sofrem alguns.

O Amante Duplo > De François Ozon, com Marine Vacth, Jérémie Renier, Jacqueline Bisset > 107 minutos