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Lasers, palpitações e magia à Tim Burton: Como mudou o Circo do Coliseu do Porto

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As artes circenses tradicionais e as suas versões mais contemporâneas deram novo fôlego ao Natal do Coliseu do Porto. Os palhaços tornaram-se o parente pobre do espetáculo, mas isso pode nem ser má notícia. Para ver até 1 de janeiro

A magia, humor e ilusão da premiada companhia catalã Mag Edgard
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A magia, humor e ilusão da premiada companhia catalã Mag Edgard

Lucilia Monteiro

A habilidade e a técnica da dupla Lazer Wizards
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A habilidade e a técnica da dupla Lazer Wizards

Lucilia Monteiro

Os malabarismos dos norte-americanos Pneumatic Arts
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Os malabarismos dos norte-americanos Pneumatic Arts

Lucilia Monteiro

As “forças combinadas” dos romenos Badea Brothers
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As “forças combinadas” dos romenos Badea Brothers

Lucilia Monteiro

A graciosidade, pulso e elasticidade da pré-adolescente Vlada
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A graciosidade, pulso e elasticidade da pré-adolescente Vlada

Lucilia Monteiro

As diabruras da grega Anastasia na corda bamba
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As diabruras da grega Anastasia na corda bamba

Lucilia Monteiro

O palhaço russo Andrey Jigalov
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O palhaço russo Andrey Jigalov

Lucilia Monteiro

Para quem já leva uns anos de tradição natalícia circense no Coliseu do Porto existe um antes e depois de 2015: os animais desapareceram do programa, o talento parece voar mais alto e o espetáculo, que até essa altura baloiçava num trapézio de indecisões e banalidades sem rede, consegue agora renovar imaginários e boas palpitações.

Ironicamente, dois dos momentos especiais da edição desta temporada – que se prolonga até ao dia de Ano Novo – acontecem com os pés bem assentes na pista. Ou quase. Um deles é o inesquecível e suculento naco de magia, humor e ilusão proporcionado pela atrevida e premiada companhia catalã Mag Edgard, inspirado em evocações de mundos encantados, cenários fantásticos e criatividade a la Tim Burton. O outro é quando o entretenimento de alta tecnologia toma conta do circo através da habilidade e da técnica da dupla Lazer Wizards, da qual faz parte o lusodescendente Paolo Silva. Eletrónica, raios laser e uma narrativa de ficção científica conjugam-se, por minutos, para transformar o Coliseu numa espécie de planeta à parte, com reminiscências Star Wars ou evocações do legado futurista de Tron.

As emoções fortes, talvez a um nível raramente visto por estas bandas nos últimos anos, são proporcionadas pelos norte-americanos Pneumatic Arts. O que eles fazem no céu da nobre sala do Porto sobressalta a assistência, arranca “ooooohhhss” e “aaaaahhhss” bem sonoros e genuínos, enquanto as pulsações aumentam. As mãos pregam-se depois ao peito, como quem tenta congelar o tempo, e até a criançada receia, a dada altura, que o coração caia desemparado. Acreditem: os malabarismos deste grupo nas alturas são mesmo impróprios para cardíacos. E mesmo quando, aqui e ali os braços e as pernas não alcançam, por um fio, o parceiro de voo, a perseverança volta a elevar o espetáculo a patamares de euforia épica.

As “forças combinadas” dos romenos Badea Brothers, a graciosidade, pulso e elasticidade da pré-adolescente Vlada (“prodígio” da Ucrânia e “promessa do circo europeu”) e as diabruras da grega Anastasia na corda bamba contribuem, com requinte, para passar o lustro a esta segunda vaga da história circense do Coliseu do Porto. Não faltam sequer oportunidades para revisitar sonoridades que vão desde o My Way, de Frank Sinatra, ao Who Wants to Live Forever, dos Queen, passando por uma velhinha composição de Mike Oldfield para o filme The Killing Fields.

Se as duas horas de diversão, elegância e destreza de carne e osso estão sempre a um nível superior, o apresentador também deve ser para aqui chamado. Cabe ao ator Emílio Gomes o papel de grilo falante de serviço, mas sem pretensões de consciência sábia. O seu à-vontade com o público obedece a uma receita “três-em-um”: cabe-lhe alimentar o formigueiro da ansiedade na assistência, dar à miudagem pequenos momentos de brilho no próprio palco e fazer cócegas à atenção dos mais adultos, disparando fisgadas à inteligência: “Ah, são do Sindicatos dos Magistrados? Tiveram bilhetes à pala, não é?”, comenta, a dada altura, para risota geral.

Ora, falar em risota convoca, desde logo, à memória, as mais iconográficas personagens do universo circense: os palhaços. Este ano, a tarefa de tentar contagiar a plateia e as galerias com gargalhadas foi entregue ao russo Andrey Jigalov, já bastante atulhado de prémios nesta arte de fazer rir, da França ao Canadá. Do seu almanaque sai, entre outros, um sketch final inspirado nas manias, tiques e dependências dos telemóveis e das selfies. A ideia é boa, mas o resultado dececionante, mesmo para quem tenha queda para piada fácil ou não possua patilha de segurança para a mecânica do riso. Sem recorrer a moralismos bacocos e dos “trezentos”, serão, de resto, questionáveis as subentendidas alusões sexuais da atuação de Jigalov, rapidamente percebidas pelas crianças. A performance do russo terá os seus méritos, sobretudo entre devotos de idade maior, mas no Circo de Natal do Coliseu a gargalhada acaba por ser ele próprio.

Épocas houve em que os espetadores esperavam pelo final do espetáculo para, pelo menos, mastigar o pedaço mais saboroso do prato circense tradicional e assim resgatar a alegria da descendência. Hoje, na verdade, o circo natalício do Coliseu do Porto já não vive apenas de palhaçadas e, pasme-se, até sobrevive a elas. E essa é bem capaz de ser uma boa notícia.

Lucilia Monteiro

Circo do Coliseu do Porto > R. Passos Manuel, 137, Porto > T. 22 339 4940 > até 1 jan, sessões às 15h, 17h e 21h > a partir de €8