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"Joan Miró e a Morte da Pintura", em Serralves: Um quadro é sagrado? Não, respondeu Miró

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Uma nova exposição revisita as obras do pintor catalão que permaneceram em Portugal, assim como a produção disruptiva por ele criada aos 80 anos de idade. Joan Miró e a Morte da Pintura já abriu ao público na Casa de Serralves, no Porto

Sobreteixim, 1973 (à esquerda), Tela queimada III, dezembro 1973 (à direita)

Sobreteixim, 1973 (à esquerda), Tela queimada III, dezembro 1973 (à direita)

Fundação de Serralves

E, em 1973, Miró fez uma revolução. O artista tinha já cabelos brancos, o corpo a acusar as fragilidades de oito décadas cumpridas a pintar telas coloridas com traços pretensamente infantis em que o inconsciente abria caminhos enigmáticos. Contou o amigo e colaborador Josep Royo que estavam no estúdio do catalão (durante a preparação de uma retrospetiva no parisiense Grand Palais) quando Miró disse algo assim: “E se se queimasse o quadro?” Royo, estupefacto, argumentou: “Mas esse quadro é sagrado, é como uma catedral!” A resposta foi um fósforo aceso atirado à tela pousada no chão, que assim ardeu sob o olhar indagador de Miró. O episódio é evocado no filme Miró: Noventa Anos, do fotógrafo Francesc Català-Roca, dedicado ao registo do processo de criação e de destruição das chamadas Toiles Brûlées, executadas durante o mês de dezembro de 1973, e que também será exibido no âmbito de Joan Miró e a Morte da Pintura. Às telas queimadas juntam-se outros trabalhos em que ele exerceu um gesto radical: os quadros perfurados e os “Sobreteixins” (telas e tapeçarias de serapilheira em que Miró pintava) – destruições, experiências desafiadoras, acasos.

O neto, Joan Punyet Miró, defendeu que “Miró queria ser o anti-Miró, para romper com a arte comercial, fácil e banalizada pela crítica mundial”. E Serralves contextualiza que face a uma crítica que então “anunciava a morte da pintura” como um facto consumado, perante práticas que desafiavam as narrativas do alto modernismo – arte processual, performance, land art e instalação –, Miró colocou a pintura à prova”. Comissariada por Robert Lubar Messeri, esta exposição alinha 11 obras pertencentes à Coleção do Estado Português (em depósito na fundação portuense durante 25 anos), a que se juntam mais 23 pinturas e objetos do artista (cedidos pelas Fundació Joan Miró, de Barcelona, Fundació Pilar i Joan Miró, de Maiorca, Fundación Mapfre e Collection Adrien Maeght). Um reencontro.

Pintura (óleo sobre tela), 29 março de 1973

Pintura (óleo sobre tela), 29 março de 1973

Joan Ramon Bonet. Successió Miró Archive.

Joan Miró e a Morte da Pintura > Fundação de Serralves > R. D. João de Castro, 210, Porto > T. 22 615 6500 > até 3 mar, seg-sex 10h-18h, sáb-dom 10h-19h > €10

  • Mirós já têm casa no Porto

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    A Casa de Serralves, no Porto – onde, esta sexta, 30, foi inaugurada a exposição Joan Miró: Materialidade e Metamorfose – será definitivamente a nova casa da coleção das obras do artista catalão, proveniente do ex-Banco Português de Negócios (BPN)