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Morte ao ditador na peça "Fausto", no CCB, em Lisboa

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Nesta celebração dos 25 anos do Centro Cultural de Belém – com teatro dentro do teatro, uma história dentro da história –, há câmaras em palco e imagens em direto. O espetáculo Fausto está em cena entre esta quarta, 5, e domingo, 8

Parece que adivinhou os acontecimentos e juntou, como uma espécie de ponto de partida, a recente greve dos estivadores do porto de Setúbal à manifestação de diversos quadrantes da Cultura a reclamar por 1% do Orçamento do Estado para a área. É assim que o texto escrito – e encenado – por Jorge Andrade, da Mala Voadora, pensa o espírito do tempo, do País e do mundo, e imagina uma situação que se torna de limite, de estado de sítio, à semelhança da que foi imaginada por José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez.

Fausto traz o teatro para dentro do teatro – fala sobre uma peça de teatro chamada Fausto que tem de ser encenada a propósito da celebração dos 25 anos do Centro Cultural de Belém. E é verdade: este espetáculo partiu mesmo das comemorações das bodas de prata da instituição lisboeta, inaugurada em 1994.

A escolha de Fausto, espécie de lenda, imortalizada por Goethe, sobre um homem que vende a alma ao diabo, também não é inocente. Para levar a cabo este grandioso espetáculo (referimo-nos à história dentro da história), a companhia de teatro e a instituição enveredam por contactos junto de diversos ministérios para pedirem apoios, o edifício do CCB é alugado para se conseguir dinheiro extra, há pelo meio naufrágios no Tejo, as pessoas e o País são mobilizados para o acontecimento, com a cenoura à frente dos olhos, que lhes promete que farão parte de um grande acontecimento mediático – tudo e todos servem o propósito.

O desenrolar dos acontecimentos culmina na figura, nada inesperada, de um ditador e o desfecho da peça será o do seu destino. “A questão que se colocava era: ‘Mas o que é que estamos aqui a comemorar com este enredo tão macabro?’”, diz Jorge Andrade, anuindo no carácter político da peça. “Nem procurámos ser imunes, não queremos fazer uma arte documental, mas a partir do momento em que mergulhamos na realidade, acabamos por ser contaminados por ela”, explica. “Fomos convidados para fazer a festa de aniversário e eu acredito que, apesar de toda esta miséria humana em que nos encontramos, o ser humano continua a ter uma espécie de karma: o de procurar sempre a felicidade.”

Fausto > Centro Cultural de Belém > Pç. do Império, Lisboa > T. 21 361 2400 > 5-8 dez, qui-sex 21h, sáb 16h > €20 e €23