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A vertigem azul de Maria Trabulo na exposição "Almost Blue", em Lisboa

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A música de Chet Baker acompanhou a tonalidade, militante e aquática, destes trabalhos da artista Maria Trabulo, vencedora do Prémio Novo Banco Revelação 2018, expostos na Galeria Boavista, em Lisboa

A exposição individual de Maria Trabulo questiona as diferentes possibilidades de definição da cor do mar

A exposição individual de Maria Trabulo questiona as diferentes possibilidades de definição da cor do mar

De que cor é o mar? Esta pergunta aparentemente pueril é, aqui, o interruptor poderoso que abre as comportas emocionais do Outro e serve como salva-vidas para acolher as obras de Maria Trabulo, agora apresentadas nesta exposição curada por Sara Antónia Matos e Pedro Faro. Escreve a artista que “os Gregos antigos não possuíam uma palavra referente a azul, pelo que Homero se referia à cor do Mar Mediterrâneo e do Mar Egeu como cor de vinho escuro ou cara de vinho (wine-dark Sea, wine-face Sea) (...). Almost Blue parte desta presunção para, assim, traçar o significado do mar numa memória coletiva, através da recolha de relatos pessoais em zonas costeiras.”

Foi ao som do tema com o mesmo nome do trompetista Chet Baker que Maria Trabulo começou a puxar uma rede de significados e simbolismos: experimentou pintar com água do mar sobre tecido, técnica desaguada nas obras escultóricas agora apresentadas, “quase todas inéditas”; e percorreu as margens marcadas pelas políticas e pelos recentes desafios humanos: as migrações no Mediterrâneo, a crise financeira dos países do Sul da Europa, os dilemas ambientais em torno da exploração petrolífera, nomeadamente em Aljezur. Tudo começou com The Walk is Easy with the Feet on the Ground (2014), obra em formato de jornal, criada a partir das imagens recolhidas pelas webcams dos resorts mediterrânicos que registavam já chegadas ou naufrágios de barcos com migrantes do Norte de África – o mar filmado oscilava entre o azul e o verde.

Um ano depois, em residência artística na Calábria, Maria escutou as histórias de jovens refugiados africanos, cujas respostas à pergunta sobre a cor do mar denunciavam as histórias difíceis: “Cor do luar, a cor de um grande peixe, a cor de uma enorme onda negra que quase virou o barco, ou ainda, por distinção, que na Líbia é negro e em Itália azul.” A pesquisa estendeu-se a Creta e a Portugal, onde a artista realizou uma filmagem de 360o ao largo da praia da Arrifana, local desejado para uma plataforma petrolífera (em stand-by). Azul é, pois, a cor da luta.

Almost Blue > Galeria Boavista > R. da Boavista, 50, Lisboa > T. 21 347 6335 > 26 out-6 jan, ter-dom 10h-13h, 14h-18h > grátis