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"Netos de Gungunhana", pelo Teatro O Bando: Um espectáculo contra os tabus

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A integração de vários pontos de vista numa mesma história e o ato de baralhar os corpos que dão vida às personagens são os pontos fortes da peça Netos de Gungunhana. Uma nova criação do Teatro O Bando, baseada na trilogia de Mia Couto As Areias do Imperador, para ver no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 11 de novembro

Estelle Valente

Disse-o o cantor Kendrick Lamar num concerto a uma jovem branca que subiu ao palco para cantar uma música sua, disse-o o apresentador norte- -americano de ascendência sul- -africana Trevor Noah no programa The Daily Show, disseram-no as pessoas que se insurgiram com o facto de a cantora brasileira Fabiana Cozza não ter a pele escura o suficiente para dar voz aos temas da compositora carioca Ivone Lara num musical. Os dois primeiros, que apenas uma pessoa de pele negra pode usar a palavra denegridora “nigger” (“preto”). Os terceiros, que uma mulata não pode colocar-se no lugar de uma negra de pele escura – Cozza acabou por se afastar do papel. A João Brites, do Teatro O Bando, aconteceu-lhe deparar-se com o desconforto inicial de os atores brancos fazerem papéis de negros e os negros de brancos, para a peça de teatro Netos de Gungunhana, escrita a partir da trilogia de Mia Couto, As Areias do Imperador.

“O ator é maldito, faz tudo. Até representa os deuses”, diz João Brites. “Eu acho é que há maiorias que, de repente, constroem tabus. E já são maiorias. Como é o caso do que aconteceu à cantora brasileira, já foram maiorias a insurgir-se contra ela. Não se aceita que um ator que vai interpretar um personagem negro seja branco.” Este é um espetáculo que reflete sobre as relações de poder que germinam no seio tanto das mais básicas estruturas familiares como nas formas mais intricadas de fazer política, integrando diferentes pontos de vista, Netos de Gungunhana conta a história do último imperador de Gaza, território que corresponde hoje a Moçambique, e da forma como Portugal o conduziu ao exílio. O espetáculo tem como parceiros o Teatro do Instante, de Brasília, e a Fundação Fernando Leite Couto, de Maputo, e seguirá depois em digressão para o Brasil e Moçambique. “No fundo, são três experiências teatrais”, explica João Brites, referindo que cada parceiro vai fazer adaptações da peça ao seu país.

Netos de Gungunhana > São Luiz Teatro Municipal > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 25 out-11 nov, qua-sáb 21h, dom 17h30 > €12 a €15