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As virtudes públicas e pecados privados de "Otelo", no palco do Teatro Nacional São João

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Um dos mais extraordinários retratos da complexidade da natureza humana criados por Shakespeare estreia esta sexta, dia 28, no Teatro Nacional São João, no Porto

O "Mouro de Veneza" e Desdémona, interpretados por João Cardoso e Maria João Pinho

O "Mouro de Veneza" e Desdémona, interpretados por João Cardoso e Maria João Pinho

João Tuna

No profundo conhecimento da alma humana demonstrado por Shakespeare está, em boa parte, a explicação para a atualidade das suas peças. Otelo não é exceção. O autor constrói um quadro vibrante, com o ciúme patológico e a inveja destrutiva a funcionarem como motores da tragédia. A personagem principal, o Mouro de Veneza (encarnado por João Cardoso), apesar dos feitos militares e da eloquência do seu discurso, continua a ser visto pela sociedade veneziana como o estrangeiro, “o outro” (inevitável remeter para a questão dos refugiados). Em segredo, casa-se com Desdémona, filha de um senador da cidade, e é esta relação, alimentada pelo narcisismo de Otelo, que é usada para o destruir. O dramaturgo cria um dos seus mais notáveis vilões, Iago (interpretado por Dinarte Branco), perverso e maléfico, “o encenador por excelência, quem distribui os papéis da sua autoria pelas personagens da sua criação”, nas palavras do tradutor da peça, Daniel Jonas, capaz de manipular todos os que o rodeiam pela simples insinuação.

Esta é também uma peça sobre a condição feminina, com as três mulheres (Desdémona, Emília e Bianca) a sofrerem nas mãos dos seus parceiros. “É assustador constatar a violência doméstica que vemos neste espetáculo e que ainda vivemos hoje, as desculpas que são dadas neste espetáculo aos homens e que ainda são dadas hoje por figuras muito fortes, como juízes…”, sublinha a atriz Maria João Pinho, que desempenha o papel da eloquente e apaixonada Desdémona. “É um elenco maravilhoso e muito particular, porque é maduro, talvez até contrariando aquilo que pode ser a expectativa em relação a Otelo, e traz para a peça outra densidade”, confessa Nuno Carinhas, o encenador. É ainda responsável pelos elegantes figurinos e pela cenografia, marcada pelo palco negro brilhante, águas profundas comuns aos dois polos geográficos da peça (Veneza e Chipre) que espelham e distorcem as ações dos intérpretes, banhadas pela luz ténue desenhada por Nuno Meira. Porque é das sombras, da luta entre as forças do bem e do mal, que aqui falamos.

Shakespeare cria um dos seus mais notáveis vilões, Iago, interpretado por Dinarte Branco

Shakespeare cria um dos seus mais notáveis vilões, Iago, interpretado por Dinarte Branco

João Tuna

A linguagem, nomeadamente a retórica desenvolta da protagonista (referida por alguns como "a música de Otelo"), é um instrumento fundamental deste drama clássico de Shakespeare

Otelo > Teatro Nacional São João > Pç. da Batalha, Porto > T. 22 340 1910 > 28 set-13 out, qua, sáb 19h, qui-sex 21h, dom 16h