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"O Agente Infiltrado" ou um filme sobre a América a preto e branco

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Spike Lee recupera toda a sua acutilância política, contando a história real de um polícia negro que se tornou membro do Ku Klux Klan. O filme já está nas salas de cinema

Neste filme, o mestre Spike Lee recupera o fulgor político e social de outros tempos

Neste filme, o mestre Spike Lee recupera o fulgor político e social de outros tempos

No tempo da Guerra Fria, contava-se a anedota do espião norte-americano que se preparou anos a fio para uma missão secreta na União Soviética, aprendendo a língua e os costumes russos com o máximo rigor. Contudo, mal pisou o território inimigo, foi desmascarado. Era negro.
História semelhante passou-se nos EUA dos anos 70, mas com um desfecho diferente... Um agente infiltrado negro conduziu uma investigação, conseguindo, inclusive, tornar-se membro do Ku Klux Klan. Não foi desmascarado, pois não chegou a cruzar-se com os elementos da brigada de extrema-direita: mantinha contactos apenas por telefone, havendo um outro agente, branco, para representar o seu papel em carne e osso.

Hilariante, esse episódio verdadeiro é agora contado no cinema pelo mestre Spike Lee, em O Agente Infiltrado, filme em que um dos mais incisivos realizadores dos Estados Unidos da América recupera o fulgor político e social de outros tempos. Lee combina a história de Ron Stallworth com uma investigação ao movimento Black Panthers − que, na realidade, não existiu mas serve bem de contraponto para criar os dilemas morais da personagem. Expande-se, também assim, o discurso dos movimentos negros a dois níveis distintos, ambos pertinentes: um mais radical e revolucionário, dos líderes dos Panthers e, concretamente, de Patrice (personagem inventada); e um moderado, reformista, veiculado pelo próprio Ron, que quer mudar as coisas pelo lado de dentro.

No filme fica clara a ideia de que, apesar de vencer uma importante e muito localizada batalha, Ron não conseguiu vencer a guerra. E as questões levantadas são hoje mais pertinentes do que nunca. Aliás, as ramificações para a situação política atual dos EUA são mais do que muitas e nada subtis: como o uso dos slogans “America first!” ou “Make America great again!” por parte do KKK; a conversa sobre o ramo político do KKK, que opta por uma via menos violenta, que trará frutos mais à frente, ou o epílogo com imagens reais dos acontecimentos de Charlottesville, onde morreu atropelada uma ativista antiextrema-direita. Retrato de uma América que não aprende com a História?

O Agente Infiltrado > De Spike Lee, com John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier > 135 minutos