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“O flamenco é como a vida. Não se pode desenhá-la a 100 por cento”

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Farruquito, nome artístico de Juan Manuel Fernández Montoya, vem de uma longa linhagem de representantes do flamenco. Neto de Farruco, considerado um dos melhores bailaores de todos os tempos, filho do cantaor El Moreo e da bailaora La Farruca, é hoje uma estrela mundial do flamenco, com elogios superlativos da crítica. Este sábado, dia 12, encerra o Festival Dias da Dança, no Coliseu do Porto, com Pinacendá, uma homenagem visceral às suas origens andaluzas

Aitor Lara

"Pinacendá" é um espetáculo de flamenco puro, tradicional?

Para mim, só existe um tipo de flamenco. O flamenco puro é aquele que se faz do coração. O tradicional é aquele que se faz replicando as estruturas musicais e rítmicas do antigamente. Eu conheço o flamenco tradicional, mas tenho 35 anos, sou jovem, portanto aquilo que apresento é sempre uma mistura daquilo que aprendi e continuo a aprender. Não pretendo dançar como o meu avô, porque sou de outra época.

Não é um defensor de fusões…

Sim. A fusão é uma palavra que, por vezes, confunde o público. Uma coisa é mesclar com outras danças, outra coisa é fazer uma dança ao compasso do flamenco, uma dança aflamencada. Gosto quando fazem mesclas, mas reconheço o flamenco na dança.

É possível evoluir, mantendo-se fiel ao flamenco?

Totalmente. Um pássaro evolui com o passar de anos. Um pássaro tem uma forma de voar, de pairar no ar, uma beleza. Um réptil também evolui. Mas continuamos a distingui-los. Hoje em dia, é difícil distinguir quem dança flamenco. A todas as danças chamam de flamenco. A todos os pássaros chamam de réptil. Ora, por muita evolução que haja, um pássaro continua a ser um pássaro e um réptil continua a ser um réptil.

Teve como maestro o seu avô. O que era a escola de Farruco?

A escola de Farruco falava de humildade, de conhecimento, do estudo do flamenco, de verdade, de fazer aquilo que ditava o coração, de respeito, de personalidade, de aprender com todos sem imitar ninguém… era uma filosofia, mais do que fechar-nos num estúdio durante muitas horas.

É por isso que se diz que o seu avô era um génio?

Os génios são aqueles que não querem ser os mais famosos, mas acreditam numa fórmula diferente e têm uma filosofia tão profunda e certeira que conseguem fazer com que inúmeras pessoas se enamorem. Hoje em dia, a maioria dos dançarinos de flamenco recordam-se de Farruco, a certa altura.

Aitor Lara

Sente que, neste momento, também já é uma influência para uma geração mais nova de bailarinos de flamenco?

Não. Ainda continuo a aprender. Sinto-me querido e respeitado pelo público e pelos meus companheiros, mas não penso que sou uma referência, porque isso colocar-me-ia num nível que ainda não alcancei. Prefiro continuar a aprender.

Tem um filho pequeno que já dança flamenco, certo?

Baila de sentimento, porque gosta, não porque lhe ensinamos. Vê em casa e às vezes expressa-se, mas já com um compasso e sentido.

O que sente quando vê o seu filho a dançar?

Todas as perguntas que me está a fazer podia responder-lhe com um vídeo do meu filho, para entender que o flamenco não é só técnica ou aprender a girar e a montar um espetáculo. Um menino não percebe nada disso e é capaz de bailar flamenco, transmitir um sentimento porque o sente, de verdade. Aí confundem-se todas as lógicas da dança. Por isso, quando vejo alguém que não tem uma experiência e conhecimento profundo do flamenco, mas usa outras danças com um ritmo aflamencado, chamando-lhe de flamenco para captar as atenções dos outros, isso não é pureza. Não há verdade.

Viver em Sevilha continua a ser essencial para si e para a sua dança?

Sim, sempre o será. Recorda-me o lugar de onde venho, os tempos da infância. E estou perto da família. Isso é flamenco. É encontrar-me comigo mesmo. O flamenco não é descobrir como chegar até à lua, é conhecer primeiro como se chamavam os teus bisavós e trisavós, o que faziam, a que se dedicavam, como eram. Isso é o que falta ao flamenco de hoje. Há muita preparação técnica, mas eu não quero perder a profundidade para preparar-me técnica ou fisicamente, quero conservar a verdade daquilo que sou e sinto. Isso é o mais difícil.

Lendo sobre flamenco, encontrei uma expressão, tener duende. O que quer dizer?

O duende não vem sozinho. Há que chamá-lo com trabalho, com respeito, com a afición ao flamenco, com a dedicação, com a humildade… Tudo isto é flamenco e quando dedicas muito tempo a todas estas coisas, no final, o duende faz-te uma visita. Esse momento é mágico, único, irrepetível.

A improvisação é fundamental no flamenco. Alguma vez ficou sem saber o que fazer no palco?

Sempre. Como improviso muito, muitas vezes fico em branco. O que faço é esperar, escutar o canto, a guitarra e reagir quando vem algo. Mas no pasa nada, ter uma branca não é mau. A mentira é muito pior.

Tenta ver outros estilos de dança e aprender com eles?

Claro que sim. Desde pequeno sou fã do Michael Jackson e, embora não tenha nada a ver com flamenco, tinha a mesma autenticidade e verdade, todas as coreografias que aprendeu carregavam a sua personalidade. Isso é muito flamenco.

Quando dança, dança para quem?

Primeiro, danço para mim, para me concentrar e dar o melhor de mim, tenho de motivar-me, inspirar-me, focar-me na música e, no momento, respirar profundamente para sentir o ambiente. Depois, a partir daí, quando tenho alguma coisa para dar, partilho-o com todos, com o público, com os meus músicos e com quem me rodeia. Quem me acompanha é como uma família, se não existisse esse compromisso, essa cumplicidade, não era possível improvisar. Deve haver comunicação, deve haver surpresa, momentos bons e maus… o flamenco é como a vida. Não se pode desenhá-la a 100 por cento.