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'Zama': Colonos e náufragos no novo filme de Lucrecia Martel

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Um inesperado e invulgar filme de época latino-americano, feito por uma das mais influentes realizadoras da atualidade, Lucrecia Martel. Zama já está nas salas de cinema

Em Zama, Lucrecia Martel, realizadora de culto, adapta um livro de um dos mais significativos escritores argentinos do século XX, Antonio Di Benedetto, e afasta-se da linha que tem notabilizado o seu cinema. Desta feita, estamos distantes da burguesia argentina contemporânea e viajamos até ao século XVIII, para observarmos os excessos e o ambiente do colonialismo francês. Mas, tal como em momentos anteriores da sua filmografia, há aqui uma desconstrução das aparências. Não há heróis nem aventureiros, antes homens deslocados no espaço (e alguns também no tempo) que anseiam regressar a casa ou a porto seguro.

Em vários momentos, este Zama remete-nos para Werner Herzog e a sua fase Klaus Kinski (filmes como Aguirre, o Aventureiro ou mesmo Fitzcarraldo). Zama, o corregedor, deslocado à força para o atual território argentino, não é um ambicioso pirata nem um homem de princípios inabaláveis. É apenas um sobrevivente, disposto a fazer o que for preciso para regressar à pátria e ver o seu recém-nascido filho. Não há maldade no seu comportamento, às vezes até há boas intenções, mas nunca ao ponto de ter qualquer atitude heroica.

Lucrecia Martel planta-nos num ambiente estranho, uma espécie de exotismo decadente, como na imagem dada em preâmbulo, de peixes que são repelidos pela própria água e têm uma luta constante pela permanência. Zama deixa-se levar pela corrente desse mundo que o envolve, cheio de hábitos e de regras insólitas. A primeira parte do filme é sobre essa resistência e a esperança numa salvação que só poderá vir de barco. Colonos confundem-se com uma espécie de comunidade de náufragos, à espera de um aval burocrático que os resgate.

Na segunda parte, a da traição, o filme transforma-se num permanente delírio, cheio de mitos e de assombrações, como se as personagens nunca se libertassem de um estado febril. A sombra de heroísmo confunde-se com a cobiça. E o único ato verdadeiramente heroico de Zama é quando diz aos homens que o rodeiam: “Essas pedras não valem nada, vou fazer por vós o que ninguém fez por mim, não vou deixar que se guiem por ilusões.”

Zama > de Lucrecia Martel, com Daniel Giménez Cacho, Lola Dueñas, Matheus Nachtergaele > 115 minutos