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Na peça "Casimiro e Carolina", a sociedade está em crise

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Os perigos do desmoronamento moral de uma sociedade, levando-a à indiferença. Ou a atualidade da peça de Ödön von Horváth, escrita em vésperas de Hitler subir ao poder

Nesta peça, são as personagens que servem a voragem das cenas. “Isto é um guião de cinema incrível”, diz Tónan Quito à VISÃO Se7e.

Nesta peça, são as personagens que servem a voragem das cenas. “Isto é um guião de cinema incrível”, diz Tónan Quito à VISÃO Se7e.

Filipe Ferreira

É a clássica canção One, de Harry Nilsson que nos vem à cabeça enquanto estamos a ver a peça Casimiro e Carolina, escrita em 1932 pelo dramaturgo alemão Ödön von Horváth. Diz assim, em tradução livre: “O um é o número mais solitário que alguma vez farás/ O dois pode ser tão mau quanto o um/ É o número mais solitário desde o número um/ O um não é a experiência mais triste que alguma vez conhecerás.”

A história passa-se durante uma Festa da Cerveja numa Alemanha em plena crise económica, a mesma que vai servir de tapete para Hitler subir ao poder, e o encenador Tónan Quito quis levá-la a palco ainda a tempo do rescaldo da crise de 2008. Na festa, estão o Casimiro, motorista de profissão, desempregado recente; a Carolina, a namorada dele, que lhe diz serem demasiado pesados um para o outro (um é muito melancólico, o outro muito pessimista); um casal de amigos mitras; a diretora de uma grande empresa; o juiz todo-poderoso; o alfaiate; os figurantes. Todos bebem para esquecer.

Nesta peça, são as personagens que servem a voragem das cenas. “Isto é um guião de cinema incrível”, diz Tónan Quito à VISÃO Se7e. “As personagens nunca dizem o que pensam, o que está exposto em cada cena é a oposição entre o consciente e o inconsciente, entre o dito e o não-dito.” No meio do deboche, onde cabem números de freak show, fraldas, enfardamento de salsichas, barbatanas de natação e muito champanhe esguichado, ouvimos frases como “se ao menos soubesse em que partido votar”, “a culpa não é tua, só do meu desemprego”, “o futuro é uma questão de relações”, “às vezes, penso como será uma revolução” ou “enquanto a gente não se enforca, de fome não há de morrer”.

“Horváth está sempre a mostrar-nos a nossa falência. Aqui, vai mais longe. Coloca o ser humano como animal, não permite à razão vencer a bestialidade”, sublinha Tónan Quito. “Não é só uma solidão individual, é também política.”

Ödön von Horváth > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. D. Pedro IV, Lisboa > T. 21 325 0800 > 12-29 abr, qua 19h, qui-sáb 21h, dom 16h > €5 a €17