Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

"Lindos Dias!": A clássica ilusão de Beckett no palco do São Luiz

Ver

Regresso aos palcos nacionais de uma das mais célebres peças de Samuel Beckett. Winnie e Willie voltam a ajudar-nos a pensar no sentido da vida (ou na falta dele) a partir desta quinta, 12, no São Luiz Teatro Municipal

Cucha Carvalheiro interpreta Winnie e Luís Madureira é Willie em "Lindos Dias!", com encenação de Sandra Faleroi

Cucha Carvalheiro interpreta Winnie e Luís Madureira é Willie em "Lindos Dias!", com encenação de Sandra Faleroi

Estelle Valente

As indicações são claras. 
O texto de Beckett Happy Days, que em português tanto se encontra traduzido para Dias Felizes como para Lindos Dias! (e nesta encenação de Sandra Faleiro é este último o título usado, uma opção do pianista e tradutor João Paulo Esteves da Silva), explicita que no centro do palco deve estar colocada uma colina 
e, enterrada até à cintura, está a nossa personagem principal, Winnie. Ela encontra-se a dormir. 
À sua direita deve ter uma sacola preta grande e à sua esquerda uma sombrinha. A luz deve ser ofuscante. O despertador toca e Winnie dá início ao seu dia. Espreguiça-se e começa por dizer: “Mais um lindo dia!”, com um sorriso de quem insiste em acreditar que as ações que vai repetir, iguais às do dia anterior 
e às do dia anterior ao anterior, terão um novo significado qualquer, como se da repetição 
se pudesse extrair novos sentidos. 
E pode. Resta saber quais.

Com Cucha Carvalheiro a interpretar Winnie e com Luís Madureira a fazer de Willie 
– o companheiro de Winnie que vemos apenas de costas e que lhe dá respostas monossilábicas –, esta nova encenação de Lindos Dias! revela a particularidade de ter uma imagem que, para se projetar no fundo do palco, passa por cima dos adereços e das personagens: a representação de um teatro em ruínas. Esta é uma tragicomédia que vive da ilusão de uma esperança que subsiste por vezes na desesperança. Uma peça já clássica do irlandês Samuel Beckett 
(1906-1989), a traçar uma linha que se situa entre o sentido e o não-sentido, entre o absurdo e o não-absurdo, que nos obriga a questionar o papel do tempo e do seu efeito na mecanização das nossas ações, da nossa vida. 
Ou que, simplesmente, mais não 
faz do que lembrar-nos de que 
um sentido para a vida pode mesmo 
não existir.

Estelle Valente

Lindos Dias! > São Luiz Teatro Municipal > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > 12-22 abr, qua-sáb 21h, dom 17h30 > €5 a €12