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"Ensaio para uma Cartografia": Mónica Calle põe 20 atrizes à prova

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A superação individual como força motora coletiva. Mónica Calle apresenta uma atualização da peça, desta vez com uma família de 20 atrizes em palco. Para ver no Teatro Nacional D. Maria, em Lisboa, até 29 de abril

As atrizes apresentam-se nuas, e a visibilidade dada ao corpo permite-nos o detalhe, deixa-nos ver o esforço de cada músculo, cada tendão.

As atrizes apresentam-se nuas, e a visibilidade dada ao corpo permite-nos o detalhe, deixa-nos ver o esforço de cada músculo, cada tendão.

Bruno Simão

Uma das peças de arte visual mais emblemáticas de João Onofre chama-se Pas d’action. Nela, vemos um grupo de bailarinos da Companhia Nacional de Bailado a colocar-se em pontas e, durante quatro minutos e 16 segundos, assistimos à resiliência física de cada um dos participantes, até não aguentarem mais e desfazerem a posição, saindo de campo à vez. Em Ensaio para uma Cartografia, a atualização da peça de Mónica Calle que se estreia esta quarta-feira, 11, no Teatro Nacional D. Maria II, há uma cena em que cada uma das 20 atrizes sem experiência em ballet clássico se aproxima do centro do palco, de sapatilhas de pontas calçadas, e tenta equilibrar-se da melhor forma para efetuar alguns passos de dança, numa tentativa digna e graciosa de equilibrar o que consegue e o que pretende fazer, sem nunca perder a consciência de palco. As atrizes apresentam-se nuas, e a visibilidade dada ao corpo permite-nos o detalhe, deixa-nos ver o esforço de cada músculo, cada tendão.

O crescendo da composição mais emblemática de Ravel, Bolero, é perfeito para estes ensaios em palco de tentativa-e-erro efetuados pelas 20 atrizes, que encetam também a experiência de treino com instrumentos musicais. “É um trabalho de conjunto mas também muito individual; a ideia é trabalhar o rigor como possibilidade de liberdade, ir cada vez mais longe, tendo consciência da imperfeição”, diz Mónica Calle à VISÃO Se7e. “Estamos a trabalhar com materiais que não são os nossos. São aqueles que nos permitem ir fazendo caminho, ir integrando novas pessoas. E assim manter uma inocência”, continua. “Isto são etapas de um trabalho que começou em 2011 e que vai até 2021.” O processo de transferência da Casa Conveniente do Cais do Sodré para a Zona J, em Chelas, demorou três anos. Em 2014, a partir de Os Sete Pecados Mortais, de Brecht, a atriz e encenadora começou a desenhar esta cartografia, cuja última apresentação aconteceu no ano passado, e também por esta altura, igualmente no D. Maria II. “Estou a partilhar mais as responsabilidades. Continuo a acreditar que o trabalho é uma família; o trabalho faz mais sentido se estivermos todos juntos e não sozinhos.”

Bruno Simao

Ensaio para uma Cartografia > Teatro Nacional D. Maria II > Pç. de D. Pedro IV, Lisboa > T 21 325 0800 > 11-29 abr, qua 19h30, qui-sáb 21h30, dom 16h30 > de €6 a €12